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Um homem, uma mulher, um batom

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 28 de jun. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 30 de jun. de 2024

Um batom pintando um lábio
Ilustração de Betina Pegorini

Nem mesmo quando a moça de saia vermelha cutucou o braço da amiga ao lado ele se perturbou. Continuou impassível, barriga encostada no balcão, o rosto de pedra a fitar um horizonte imaginário, muito além das prateleiras e mostruários que ocupavam o espaço físico à sua frente.


Nem mesmo os cochichos e risinhos mal abafados abalaram o fluxo dos seus pensamentos. Permaneceu solitariamente cercado pelas moças, senhoras, atendentes. meias, cosméticos, espelhos e, embora habitasse agora uma das galáxias do universo feminino, não se sentia desconfortável ali.


Nem mesmo as perguntas que a balconista metralhava simpaticamente conseguiam afastar a imagem da mulher que dominava a atenção de sua mente. Simplesmente deixava que flashes dos momentos que partilharam povoassem suas memórias, invadissem escandalosamente suas defesas, arrasassem a sua racionalidade. Percorria um corredor íntimo, conhecido só pelas pessoas que se amam. Ia encontrando secretamente aquele perfume de adolescente, aquele corpo inviolado pelos anos, aquela sutil sensualidade irresistivelmente ingênua. Aqueles encantos, que só ele desfrutava naquele particular pedaço do tempo, inundavam completamente o homem em que se transformara agora.


O fato de ser casado com outra mulher não o incomodava nem um pouco; nem conseguia dissipar uma única molécula do sentimento que uma menina de quinze anos despertara nele - homem talhado num tempo que lhe parecia cada vez mais remoto. E talvez não fosse capaz de compreender, e ele já se conformara com isso, a impossibilidade de cativar perpetuamente aquele ser que tanto amava. Muito menos admitir que essa mulher um dia encontrasse um homem mais jovem, mais adaptado, menos jurássico. Assim é a vida. Os velhos vão; os novos vêm.


Movimentava-se automaticamente, recolhendo o embrulho; agradecendo à balconista; guardando o troco; cruzando a cidade dentro do seu carro; virando a chave na fechadura da porta de sua casa; essas atividades mundanas ele deixava para os ossos, músculos e alguns nervos mais subalternos. O melhor de si deixava para outras coisas mais importantes da vida, representadas no sorriso da boca de sua filha, enfeitada pelo batom que ele comprara.



Este texto, escrito em 1998, foi premiado com o 1º lugar na categoria Crônica do 3º Concurso Literário Mario Quintana e publicado na antologia "A Semente e o Verbo", organizada por Caio Ritter, em 2007.

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