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Shisha no kiteki

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 20 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Minakami parou de falar desde o acidente. A mulher o leva semanalmente ao psiquiatra, que diagnosticou se tratar de transtorno de estresse pós-traumático, tem até sigla para isso: TEPT. O chefe da estação, por outro lado, com a costumeira falta de empatia no trato com seus funcionários, chama de fraqueza.

— Você tem que seguir em frente, Minakami. A sua vida não pode ficar paralisada por causa de um lunático que resolveu se jogar na frente do seu trem.

As palavras de Gunma poderiam animar um pouco o parceiro, se não viessem embaladas com emoções congeladas, insensíveis e monótonas como resmungos eletrônicos de uma máquina japonesa. Soavam como ordem, não como conselho nem como tentativa de ajuda. Não havia nada nesse chefe que parecesse com um mínimo estímulo para a recuperação mental do pobre Minakami. Na consideração de Gunma só havia o problema de que o quadro de maquinistas tinha menos um funcionário para enfrentar a escala, que já era suficientemente cruel com o quadro completo. E esse episódio disparou nele a neurose de uma infestação epidêmica de burn out entre os trabalhadores da ferrovia. Basta outro maluco se atirar nos trilhos ou qualquer bobagem desse tipo, essa era a ideia persecutória dominante na imaginação daquele ser mesquinho que controla os funcionários da estação Doai.

Mas, finalmente, Minakami é dado como apto para retorno ao trabalho. Muito mais uma conquista dos esforços brutais de convencimento de Gunma sobre a equipe médica do que propriamente uma vitória sobre a perturbação mental. Nos bastidores, apenas o colega mais próximo, Tanigawa, demonstra alguma empatia.

— Eu sei que é difícil, que você está ainda muito impressionado com tudo isso que aconteceu... — disse, certa manhã, entregando-lhe uma garrafa de café. — Mas você precisa descansar. Essas olheiras não mentem.

Minakami apenas assentiu frouxamente. Não teve coragem de contar a Tanigawa que para ele não havia mais salvação. Descansar lhe parecia um privilégio cada dia mais inalcançável: toda vez que fechava os olhos, ouvia o apito do trem se transformar em grito.

Na primeira saída noturna, escalado para a rota Doai Village, Minakami conduz um trem quase vazio. No primeiro vagão, o único ocupado naquele horário insano, apenas alguns passageiros dispersos: um casal de jovens alpinistas voltando da escalada, um turista alemão de chapéu puído e botas sujas e um rapaz com uma mochila imensa, lendo à luz fraca da luminária do assento.

O silêncio é cortado apenas pelo rangido metálico dos trilhos e pelo bafejar escaldante do vapor da caldeira. Repentinamente, sem que ninguém tenha acionado, ouve-se o apito do trem. Na cabine de controle da locomotiva, o rádio interrompe uma canção de Fujiyama e, entre estalidos e chiados, ouve-se uma voz emergindo do escuro.

— Mina...kami... Mina...kami...

A voz arrastada, sussurrante, truncada com roncos e grunhidos.

Minakami vai até o receptor, liga o sistema de comunicação e aperta o botão do transmissor, mas só tem estática como resposta. O coração descarrilha. Na sua mente, o diagnóstico do psiquiatra ecoa em ondas horripilantes: alucinações auditivas. Olha o reflexo no vidro da cabine e pensa ter visto, atrás de si, por um instante, o rosto ensanguentado do homem atropelado. Vira-se depressa. Nada além do banco vazio. Resolve checar os vagões. O casal dorme, o velho raspa uma das unhas da mão esquerda com um canivete. O rapaz levanta os olhos do livro e o encara, desconcertado pela interrupção na leitura. O livro está ótimo.

— Está tudo bem, senhor? — pergunta.

Minakami demora a responder. Alguma coisa, talvez o pânico, traz a sua voz de volta.

— Só uma verificação de rotina.

Mas sua voz sai da garganta completamente trêmula e indefesa, tem que repetir a resposta com mais energia e convicção. Isso faz a moça acordar e fixar o olhar em Minakami, desconfiada. Ele tenta disfarçar com uma tossida e agarra-se no banco da frente, para continuar sua inspeção pelo trem. Nada no segundo vagão. No terceiro e último, encontra algo que derrama mais alguns mililitros de adrenalina na corrente sanguínea: uma mancha escura no assento. Sangue fresco. Toca com os dedos, mas eles voltam secos, limpos. Quando pisca, a mancha havia desaparecido. De volta à cabine da locomotiva, Tanigawa surge pela porta lateral.

— Minakami, o que você está fazendo? O trem está acelerando demais.

Tanigawa fala isso já abrindo o painel de emergência, tentando puxar o freio. Mas alguma coisa bloqueou o contato de desligamento. O trem acelera cada vez mais.

— Você não está ouvindo?

Mas Minakami não está mais ouvindo o colega. Só consegue ouvir passos arrastados se aproximando pelo corredor. O fantasma surge outra vez para ele, parado na entrada da cabine. Rosto desfigurado, roupas encharcadas de sangue. O trem quase descarrila por causa da extrema velocidade.

— Você me trouxe até aqui... — diz o fantasma.

— Pelo amor de Deus! — chora Minakami.

— Minakami... não tem ninguém! – grita Tanigawa, arregalando os olhos e colocando-se entre o amigo e a porta, para tentar puxá-lo da alucinação.

Minakami cai de joelhos, tremendo, ignorando os apelos de Tanigawa e implorando pelo perdão da culpa em sua mente. O trem fura o túnel desgovernado e explode na última plataforma da estação, ainda em construção. O acidente horripilante não deixa nenhum sobrevivente. É quando o apito ecoa de novo, longo, arrastado, mas dessa vez vindo de dentro do túnel enfumaçado. Do lado de fora, perseguindo lentamente o trem, vultos vaporizados se alinham nos trilhos, uma multidão silenciosa de seres, sem alma e cheios de arrependimento, em busca da última estação de Doai.

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