top of page

Preso no Pesadelo

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 29 de mar. de 2025
  • 2 min de leitura

"I stood in Venice, on the Bridge of Sighs;

A palace and a prison on each hand."

Lord Byron



Diz-se: quando estamos imersos e presos num pesadelo, o melhor a fazer é acreditar que a vida também é um sonho do qual se acorda quando morremos. Percorremos em pânico os corredores labirínticos da ansiedade toda vez que a realidade nos foge da razão, principalmente se o entendimento estiver desacorrentado do SuperEgo, guardião mental diplomado pela experiência humana. Eis aí um Senhor tirânico no estado de vigília e inútil e caótico na repressão em estados oníricos, nos quais a sua substância essencial dissipa-se na atmosfera quimérica e os sonhos tornam-se alçapões abertos para o andar subterrâneo da arquitetura da existência individual. É nesse escuro porão de dimensões desconhecidas que circulam os desejos reprimidos, os conflitos emocionais irresolvidos, os afetos desgovernados, traumas e mágoas habitantes do inconsciente das pessoas. Há quem consiga ouvir, dos lamentos vindo desse território bruto e inexplorado da ingovernabilidade, suspiros libertos ao atravessar a ponte.

É dessa ponte que quero falar e lhes contar por que os suspiros fugidos pelas grades dessa conexão ainda atravessam as noites do resto de minha humilde vida e os meus pesadelos mais teimosos desde o ano da graça de 1755. Mesmo ano do Punho de Deus, em Lisboa, uma prova da reação rancorosa do Santíssimo ante a injustiça dos homens. Pois foi atravessando essa ponte, que transporta os condenados do Palácio às Masmorras, que conheci o Pastor Marin.

Foi o homem que invadiu desatinadamente meu pesadelo diário para indicar qual o caminho até o sótão dos Piombi, onde derrubamos mais tijolos até alcançar aquela porta trancada. E desse ponto tenho que lembrar outra intromissão delirante do pastor endiabrado, arrebanhando a barra de ferro que arrombaria mais um obstáculo infernal a caminho do nosso paraíso. E foi também esse ser luminoso, guerreiro das trevas do meu coração, que abriu o armário de roupas da Sala dei Maggior Consiglio, com as quais atravessamos o controle dos guardas palacianos, representando sermos nobre perdidos após o Baile de Máscaras! Quem diria que, em pleno enredo onírico, sairíamos do Palácio pela porta da frente?

Jamais iria eu imaginar que uma aventura como essa, assombrada pelas trevas do século XVIII, pelo poderio inimaginável da Sereníssima e pela sentença do Consiglio dei Dieci, pudesse habitar por tanto tempo o cômodo incômodo das minhas lembranças indeléveis repetidas todos os dias, pelo tormento de me apresentar como Giacomo Casanova e de descobrir, apavorado, que o nome do pastor Marin Balbi consta do Livro de Óbitos da Basílica de San Giorgio Maggiore, folha 3 do capítulo XXVI, com registro em ata de 1656, condenado ao esquecimento eterno nas masmorras de Piombi em 1653 e cujo fantasma está sentenciado a invadir a rotina indefectível dos meus pesadelos desde o ano da graça de 1755. Hoje dormirei novamente para reencontrá-lo e agradecer a liberdade que me proporcionou e informar que ele está, finalmente, desincumbido de permanecer confinado ao meu pesadelo.

 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page