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Kon-Tiki e as ideias que nos movem

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 20 de out. de 2024
  • 5 min de leitura

Até onde você está disposto a ir para defender as suas ideias?



Na mitologia nórdica, Thor era filho do grandioso Odin, o chefe dos Deuses de Asgaard. E, entre os poderes que lhe faziam merecer o apelido de Deus do Trovão, campeão das forças mágicas do Olimpo viking, estava a posse do Martelo Mjolnir, o “relâmpago cintilante”. O martelo não lhe servia apenas para estraçalhar e esmagar seus inimigos, mas também era capaz de, imagine você, alimentar o Deus Thor ressuscitando os bodes Tanngrísnir e Tanngnjóstr, que arrastavam sua carruagem pelos confins do universo. Toda vez que isso se fazia necessário, Thor cozinhava seus bodes e depois, não havendo nenhum prejuízo aos ossos dos animais, utilizava o martelo fabuloso para a espantosa operação de regenerá-los. E lá iam eles, obedientemente, postar-se novamente à frente do coche resplandecente, prontos para reconduzir Thor ao combate contra gigantes, trolls, monstros, ferozes guerreiros nórdicos berserkers e contra as feras das montanhas.

Em 1947, outro Thor, provavelmente filho de um amante da mitologia escandinava, atravessaria o oceano pacífico navegando seu próprio “Mjolnir”: a jangada Kon-Tiki. Numa teimosia própria das grandes personalidades históricas, levou às últimas consequências sua convicção continental: provar que os antigos povos da América do Sul seriam capazes de povoar o arquipélago da Polinésia, no sudeste oriental. Thor Heyerdahl, um antropólogo norueguês que percebeu inúmeras equivalências culturais entre essas civilizações americanas e asiáticas, decidiu construir uma embarcação com os materiais disponíveis na antiguidade e viajar do Peru até a Polinésia, nas mesmas condições e utilizando as correntes marítimas como guias da empreitada, para demonstrar concretamente essa possibilidade.

A jangada foi construída com madeira de balsa, uma árvore da mata amazônica absurdamente leve e resistente. Respeitando o nível tecnológico vigente na época dessas civilizações pré-colombianas, nenhum prego ou peça metálica foi empregado na construção da embarcação: os troncos e toda a estrutura foram amarrados com cipós de cânhamo. Mais tarde, a cólera das ondas gigantescas do Pacífico provou o acerto dessa providência, uma vez que as cordas molhadas encolhiam, ajustavam-se e enterravam-se fundo nos troncos, mantendo apertadas as amarras e o esqueleto da jangada. Foi assim que se conservou a nau integrada e resistente às descomunais muralhas hídricas que enfrentaria nesse caminho infestado de contingências quase mitológicas.

Thor conseguiu reunir mais cinco seres completamente insanos como ele, dispostos a arriscar suas vidas e suas reputações num empreendimento maluco, sendo que alguns nunca tinham pisado num barco como marinheiros em toda sua vida: um engenheiro, um navegador, dois operadores de rádio e um antropólogo. Detalhe: entre estes, dois heróis da Segunda Guerra Mundial, recém terminada. No dia 28 de abril de 1947, a Kon-Tiki e sua irrequieta tripulação saiu de Callao, no Peru, empurrada pelas tranquilas correntes da região e pelos ventos alísios rumo ao oeste, descortinando na sua proa a imensidão infinita do Oceano Pacífico. Mal sabiam da antipatia tremenda que Aegir, o chefe das águas, nutre infantilmente contra aventureiros que o desafiam de peito tão desavisado. E não poderiam ter deixado mais desobstruídos os peitos, os flancos, os olhos e todos os outros sentidos durante toda a travessia do oceano. Assim, puderam testemunhar e misturar-se aos fantásticos seres marinhos que a natureza desoculta quando, ao invés de viajar num sossegado tombadilho distante trinta metros do nível da água – como o tem os barcos transoceânicos -, podiam estender o braço e alcançar com as próprias mãos as garoupas na superfície extremamente próxima do mar. Na verdade, nem isso precisava. Bastava esperar que os animais aquáticos pulassem do mar para dentro da embarcação ou abater os cardumes de peixes voadores que distraidamente planavam entre os mastros da vela.

Os momentos iniciais da jornada mostraram-se extremamente traiçoeiros. Depois de reclamarem bastante da lentidão e da falta de arrojo dos ventos na saída da América, foram tragados numa rota plena de tempestades e furacões que chicoteavam a minúscula jangada em turbilhões absurdos, despejando ondas gigantes e ventos enfurecidos logo nos primeiros capítulos da novela. Foi quando perceberam a incrível e imprevista durabilidade da construção da embarcação, garantida heroicamente pela elasticidade das cordas e pela leveza da madeira. Não somente os eventos meteorológicos abusavam da resiliência dos argonautas escandinavos, também a fauna marinha vinha lá dar suas beliscadas na paciência e na já desmilinguida fortaleza navegante. Encorajados pela precariedade das defesas da balsa, os assanhados tubarões que rondavam diariamente os viajantes sentiam-se animados a participar da empreitada e disputavam loucamente a primazia de abocanhar as carnes magras e tostadas dos marinheiros. A fome enlouquecedora arrebatava alguns espécimes mais ousados a saltar para dentro da jangada, obrigando os marinheiros a expulsá-los agarrando-os pelo rabo e atirando-os de volta ao mar. Imensos cardumes iluminados e efeitos fantásticos da flora e fauna microscópica oceânica, como a noite em que o mar ofuscou as estrelas com brilhos mágicos, pulsantes e resplandecentes, roubaram muitas vezes o sono dos oceanautas, embevecidos pela poesia inimaginável que uma viagem desse porte e dessa natureza marinha desconhecida é capaz de produzir em corações terrestres. Emoldurado pelo bailado dos golfinhos, pela melancolia do luar e pela impetuosidade das correntes oceânicas, o surpreendente caminho enfeitiçado pela divindade das maresias marcou esses seis humanos corações de uma maneira que jamais desapareceria de suas memórias.

Tanta movimentação confinada e tantos percalços encarcerados na rotina tendem a dilapidar as horas rapidamente e marcar o ritmo da trepidação mental humana numa velocidade diferente do tempo contado no calendário. As emoções individuais, nesse ponto de revolução do cronômetro convencional, acabam por se tornarem incompetentes para absorver a tensão e o desassossego de tanta incontinência. É simplesmente impossível, num território comunitário de 14 metros de comprimento por 5 metros de largura, manter saudável o equilíbrio psicológico, restrito a um relacionamento social tão extraordinariamente enclausurado por mais de cem dias.  Com os ânimos constantemente recebendo carga implacável do sol, com apenas a visão de água infinita por todos os lados e regando a motivação sem garantia nenhuma de sucesso nessa dramática aposta, é de se esperar que a partir de algum momento o espaço psicológico de cada um se sentisse brutalmente invadido, produzindo comportamentos esquizofrênicos entre as frestas da convivência. Um rádio servia de comunicação e consolo para a tripulação entre as noites de calmaria, bordadas com o brilho de uma eletrizante cúpula estrelada e pelas aflições compartilhadas nesses corações desamparados no meio do nada. Mas nem sempre o aparelho funcionava, amplificando com esse vácuo a agonia da solidão. Cento e um dias assombrosos depois da sua partida no Peru, a Kon-Tiki chegaria ao arquipélago Tuamoto, na Polinésia francesa, guiada pelas estrelas e pela persistência e bravura de seus formidáveis marinheiros.

Haverá sempre um orgulho da espécie humana pelas suas conquistas maravilhosas e pela sua capacidade de concretizar em ações memoráveis a genialidade e a valentia de alguns dos nossos representantes. A equipe que se atirou no mar habitando uma casquinha de palitos movidos a vela de pano atestou indelevelmente que a ideia motriz de toda aventura respeitável começa no coração, invade a mente e distribui-se pelos membros do corpo de uma forma tão intensa que hoje, oitenta anos depois dessa odisseia, é ainda incompletamente compreensível para a razão. Heyerdhal provou ser possível, depois de oito mil quilômetros viajados num oceano endiabrado, colocar a sua proposta acima de todos os riscos que a vida poderia enfrentar. E vencer até mesmo na derrota. Ainda que tenha sido provado, anos depois, pela comparação genética entre os povos em questão, que esse arquipélago foi, na verdade, povoado por asiáticos e não por americanos, a batalha de Heyerdhal pela sua convicção conferiu a essa missão um orgulho da raça humana poucas vezes certificado na História. E, mesmo derrotado na sua hipótese, serve de exemplo de como é importante lutar pelas ideias que nos movem, porque, essa sim, essa é a batalha que vale a pena. Nunca haveremos de saber como seria exatamente o martelo do Deus Thor, mas a jangada Kon-Tiki original está em exibição no Kon-Tiki Museum em Oslo, Noruega, como um tributo à extraordinária jornada e ao espírito de aventura que ela representa, muito mais real e verdadeira que o enfrentamento de gigantes, trolls, monstros, ferozes guerreiros nórdicos berserkers e feras das montanhas.

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