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Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 8 de set. de 2024
  • 6 min de leitura

Eis aqui as novas partes do Oriente

Que vós outros agora no mundo dais,

Abrindo a porta ao vasto mar patente,

Que tão forte peito navegais.


Os Lusíadas, Canto X, 138

Luís Vaz de Camões



Em 1947, Edwin, o mais velho dos três irmãos Beineck, preservando uma maravilhosa tradição da aristocracia americana, inicia a incorporação da sua coleção “Robert Louis Stevenson” ao acervo da Yale University Library. Entre as obras, A Ilha do Tesouro, que navegou as mentes de todos os seres juvenis desde sempre, e O Médico e o Monstro, clássicos dos clássicos dentre as mais merecidamente famosas obras da literatura mundial. Quarenta anos antes disso, estaríamos presenciando Beineck carregar para as prateleiras de Yale outra joia, ainda mais preciosa, testemunho direto de uma empreitada tremendamente mais dramática e venturosa que a viagem à lua, intempestivamente vislumbrada em 1865 por Julio Verne e materializada cento e quatro anos depois na Flórida. Que obra poderia conter a façanha humana em sua mais impressionante arrebatação?

Recomendo retroceder seu pensamento quinhentos anos e imaginar o mundo como o prezava o cidadão europeu da época. Tente despir da consciência as conquistas que a Ciência trouxe ao habitante das cidades modernas desde a época nascente da colonização das Américas. É preciso desconfiar, quem sabe, que o mundo pode terminar num mar furioso despencando no abismo do espaço, que os oceanos podem surpreender os viajantes com os piores monstros com os quais ainda não se teve encontro; que a coragem dos navegantes não pode terminar antes do inevitável naufrágio; que viver pode ser preciso, mas viajar é um risco insuportável e iminente. Que a vida tem histórias e desígnios que só a fé pode enfrentar.

A obra entregue em 1907 pelo filantropo Beineck chama-se “Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo” e foi escrita pelo geógrafo veneziano Antônio Pigaffeta, um dos sobreviventes da Expedição Molucas, frota de 5 naus e 250 marinheiros, idealizada e mobilizada pelo português Fernão de Magalhães. Por três vezes o projeto de Fernão foi recusado pela Coroa Lusa, até que ele decidisse apresentar sua obsessão ao V imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos I, também conhecido como rei de Castela. O monarca instituiu Juan de Cartagena como supervisor geral da empresa por não confiar completamente no português, tomando-o quase como um espião. Ora, tomadas as devidas proporções, o projeto equivalia a um soviético liderar um projeto americano em plena guerra fria. Tomemos também o tempo dos astronautas como uma das referências para entender os navegantes da nossa história. Portugal e Espanha equivaleriam, na época, a Estados Unidos e União Soviética no quesito rivalidade imperialista. Mesmo com todas essas prerrogativas contraditórias, no dia 20 de setembro de 1519 a armada manobrou de Salucar de Barrameda em direção ao oeste bravio, quase que completamente desconhecido. Era mister evitar os mares da África, reservados aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas, em busca das tais especiarias das Ilhas Molucas, na Indonésia.

O relato de Pigafetta, publicado no idioma italiano em 1525, descreve a viagem de circum-navegação da expedição Molucas pelo globo terrestre consubstanciada em três anos do mais atroz sofrimento pela fome, pelo desespero, pelas tormentas, pelo frio, pela incerteza, pela carestia e privação, pelas frequentes enfermidades, mortes e padecimento. O ponto final do angustiante desabafo transbordante de vaidade e orgulho chega logo depois de a nau Victoria, última restante da esquadra, despontar em Sevilha na madrugada do dia 6 de setembro de 1522. No tombadilho castigado da embarcação vinham as dezoito carcaças humanas destroçadas pelo escorbuto e pela infâmia da sobrevivência, desgastadas em sua humanidade e arrastando a glória da impressionante capacidade de autopreservação. Tão extraordinária viagem acostou em mais uma de suas excepcionais propriedades o ineditismo de desafiar a cronologia da razão e chegar um dia antes na contagem do tempo dos humanos continentais. Fernão morto em combate no caminho, o comando do que sobrou da missão restava assumido pelo ex-amotinado Juan Sebastián Elcano.

Em 1523, um ano depois de entrevistar esse punhado de sobreviventes, Maximilianus Transylvanus, nome latinizado do belga Maximilian van Sevenberg, publicava Il Viaggio Fatto Da Gli Spagniuoli Atorno A'l Mondo, contando, em primeira mão e sequestrando a manchete de Pigafetta, a épica viagem dos circum-navegantes, protagonistas da maior aventura humana em todos os tempos. Embora Pigafetta fosse o marinheiro mais talentoso intelectualmente e tivesse, inclusive, pago do próprio bolso para acompanhar a expedição como cronista da viagem, foi por meio de Transylvanus que os europeus souberam da existência de uma tal “Terra do Fogo” no extremo sul americano. Depois de confundir a saída do Rio da Prata com o estreito que atravessaria o continente, Magalhães desceu para o sul do continente e encontrou uma das mais furiosas regiões dos oceanos do planeta, com suas tempestades absurdas e carregando ainda a chegada inoportuna do general inverno, castigando o couro dos pobres marinheiros. Foi em Puerto San Julian, estraçalhada a frota pela brabeza do mar e pelos furacões antárticos, que Magalhães esmagou o motim de Elcano, entre tantas desgraças já a miserar o espírito do comandante.

A seguir, Magalhães teria encontrado uma tribo de aborígenes gigantes, portadores de pés enormes, aos quais lançaria imediatamente o epíteto de patagões, batizando assim toda aquela paragem meridional como Patagônia. E antes de virar os barcos no estreito que levaria às águas do engano que se chamaria Pacífico, teria observado, onipresentemente, fogueiras no mar, nas ilhotas, nas montanhas e em todo lugar onde pousasse os olhos à noite.

É aqui, na Terra do Fogo, que desembarcaremos da expedição Molucas para conhecer os Yámanas, ancestrais habitantes do extremo sul da América, que levavam o fogo onde quer que estivessem: na tenda da caça, na trilha da montanha, no chão da choza (uma espécie de oca), e até no fundo protegido com areia das canoas, para deslocamento e para pesca. Os colonizadores britânicos, exploradores locais das fazendas de ovinos que desertificaram as pastagens da Argentina meridional e irrigaram as tecelagens inglesas, os chamavam Fueguinos. Por mais surpreendente que pareça, raramente os Yámanas usavam vestimentas mesmo no inverno pré-antártico. Nus, passavam óleo de leão-marinho ou de baleia no corpo para enfrentar o frio glacial. E onde quer que parassem, é claro, acendiam fogueiras, as quais foram inevitavelmente avistadas das naus capitaneadas por Magalhães em sua passagem perto do litoral patagônico.

Até 2016 havia em Ushuaia um museu, bem perto do aterrorizante presídio do fim do mundo, que contava a história dos Yámanas e de todas as tragédias responsáveis pela sua extinção. De como chegaram a essa parte do continente há mais de dez mil anos e de como aproveitaram o surgimento dos bosques para aliar-se ao fogo no combate ao congelamento. Das árvores mais poderosas, os Yámanas escavavam o tronco até esculpir suas canoas, imensas ou minúsculas dependendo da finalidade, pois pescar exige um veículo ágil, rápido, e manter o nomadismo exige um barco grande para deslocamento da família e dos mínimos e ingênuos pertences. Continuando a história dos Yámanas, é imperioso contar que a primeira leva de extermínio foi, obviamente, provocada pela chegada do homem branco e suas doenças desconhecidas para o sistema imunológico desse povo até então isolado. A segunda forma de extermínio chegou pela aculturação catequizada pelos anglicanos, fazendo-os perder as referências da sua particular forma de entender o espírito do universo e de se manter unidos na terra. A ambição dos mineradores expulsou inapelavelmente os últimos remanescentes dos pontos ainda virgens da maldade civilizatória. Mas há um interessante mecanismo de extermínio não tão evidente à análise que precisa ser lembrado, uma vez que não temos mais o Museu Yámana para nos avisar.

Entre o povo Yámana existia um tipo de fogueira especial, elaborado quando uma baleia encalhava na praia. Tinha-se, então, alimento suficiente para alimentar várias tribos, aproveitando que o frio mantinha a carne consumível por vários dias. Era o momento de preparação dessas fogueiras especiais, vistas de muito longe e que, dentro do código de comunicação das tribos, indicava a existência de abundância de carne disponível. Então, por dias a fio, várias tribos se encontravam, festejavam e engordavam. Velhos, adultos, crianças. E jovens, preste atenção: jovens de tribos diferentes ali faziam seu cortejamento e se uniam, iniciavam casais, alianças entre diferentes clãs se formavam e as tribos cresciam populacionalmente, evidentemente.

Com a escassez de baleias no Atlântico Norte no final do século XIX, os baleeiros foram cada vez mais para o sul, chegando à Patagônia e exterminando os cardumes da região. Seguiam a trilha deixada por Magalhães, contornando a América em direção ao Pacífico. Cada vez menos cardumes de baleias no sul e, portanto, havia cada vez menos espécimes encalhando no litoral da Patagônia. Menos encalhes, menos fogueiras especiais. Menos fogueiras especiais, menos encontros de tribos diferentes. Menos encontros de tribos, menos casais apaixonados. Menos casais apaixonados, menos aumento populacional. Menos aumento populacional, menos Yámanas no mundo. Por dez mil anos permaneceram em equilíbrio com a natureza; bastou cem anos de contato com o homem branco para extinguir-se da face do planeta. Em 1881, havia 3.000 Yámanas, passaram a 130 em 1902. Até fevereiro de 2022, restava apenas uma indígena: Cristina Calderón, uma cidadã chilena, última falante nativa da língua Yámana, que vivia na Ilha Navarino e faleceu com 93 anos. Da expedição Molucas tivemos dezoito sobreviventes; da nação Yámana, nenhum.

 

 

2 comentários

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Emília
18 de dez. de 2024
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sua forma de escrever é agradabilíssima, meu caro. Já sou fã do seu trabalho.

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rpegorini
rpegorini
18 de dez. de 2024
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Sempre gentil, Emília! Te agradeço muito o carinho!

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