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Bom dia, sol! (II)

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 7 de jul. de 2024
  • 3 min de leitura


Os anos de prisão haviam roubado de Melquíades a vontade de cantar. Ele percebera isso porque os gigantes que lhe traziam comida e o levavam ao pátio para iluminar um pouco a sua desesperança já não se demoravam na porta de sua cela. Olhavam tristemente pelas frestas das paredes e murmuravam coisas que a infelicidade entranhada na parte interna das barras do claustro torna incompreensíveis para os apenados. Desde que fora confinado naquele cubículo, esquecera quase por completo da graça mundana e das farras nas copas da sua terra. Esse pedaço do passado tinha tantas lacunas que o peito já não chorava por ele e nem por amargura ele tinha mais capricho de soltar a voz.

Da memória a saudade lhe trouxera imagens de Tchica, que lhe apresentaram em visita para perturbar a tristeza crônica armazenada no seu temperamento. No começo, estranhou a intrusão da novidade nas suas vontades e o peso desse corpo recém-chegado no refúgio do seu espírito. Mas havia ali um calorzinho gostoso nas proximidades, um movimento petulante e ao mesmo tempo amistoso derrubando a sua indiferença. Até se permitiu elaborar com ela um dueto sonoro de repetições infindáveis e musicalidades burlescas. Perdeu o medo de gostar de alguém. E alguns anos desse feitiço parceiro fizeram da habitação um segmento apreciável do universo: os gigantes sentavam por perto em suas poltronas e conversavam animadamente, como se quisessem unir-se ao coro lamentoso pensando que era a alegria que comandava o ambiente da masmorra. Entretanto, por fim os ataques maciços das salmonelas derrotaram a pouca saúde da companheira, impondo mais uma vez a solidão a Melquíades. Este teve, enfim, de novamente fazer as pazes com sua antiga melancolia e relembrar os solos lamuriosos dos invernos, agora acrescidos da saudade.

Também houve uma vez em que conseguira escapar, aproveitando a negligência de um guarda inexperiente. Partiu célere, confiante, invadido por uma coragem que não sabia estar ainda presente nos seus planos desorganizados. Aproveitou um restinho de inconformidade, ainda habitante de seu coração, que endemoniava a sua desconsolação e guiava a fuga pelos labirintos da prisão maior. Bravamente ultrapassou percalços que todo fugitivo enfrenta, derrotando impetuosamente cada obstáculo que lhe desalmava a esperança de liberdade. Mas o destino e a incapacidade de decodificar a arquitetura do livre-arbítrio bastaram para devolvê-lo ao desconsolo. Foi resgatado num canto insuperável, mais machucado pela vergonha do fracasso do que pelas feridas conquistadas na batalha.

O canto foi sumindo aos poucos na garganta de Melquíades, esmagado pelo tempo e pela impossibilidade de amar alguém ou alguma coisa palpável na geografia do sentimento. Muitos invernos e verões enfraqueceram a audácia e a estratégia de povoar qualquer lugarejo que lhe fizesse convite. Resta-lhe agora cruzar esse corredor desabitado pela fé e aguardar o seu lugar na fila da morte. É noite ainda, as estrelas o observam silenciosamente na torcida por um final feliz. Este finalmente chega com os primeiros raios do amanhecer. É hora de despedir-se do amanhã. Mas ainda dá tempo de desejar algo.

- Bom dia, sol! – pensa Melquíades, antes de alçar voo para a liberdade infinita.

Natália passa pela gaiola do canário e grita para a mãe, ainda lavando os pratos do almoço na cozinha.

- Mãe, o canarinho morreu!



3º exercicio para o curso "A Arte da Crônica" de Martha Medeiros: "Bom dia, Sol!" - ponto de vista de um presidiário.

Pra mim, todo passarinho em gaiola é um presidiário.

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