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A cor que faltava

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 21 de jul. de 2024
  • 2 min de leitura

Sim. Existem os templos arrancados da pedra, bordados pelo inconsciente coletivo e contemplados pela parte da humanidade que não está no seu ciclo individual de conflitos. Mas lembremos, também, dos monumentos não físicos, erigidos pelos pensamentos decentes e só acessíveis à arqueologia das intenções humanas. Maurice atirou-se com pleno vigor na busca dos genes linguísticos dessa plataforma de entendimento. Seus olhos esquadrinharam avidamente os universos possíveis contidos nos excertos dos anciões e nas suas obliteradas recomendações.


Hangu, Cairo, Bombaim e Ancara presenciaram involuntariamente a sua imensa capacidade de perseguição. A deformação exagerada dos traços de sua personalidade empurrou-o ao encontro dos apelos dionisíacos dos magos do velho mundo. Esquadrinhou os mistérios hibernantes nos mosteiros, mapeou a estrutura dos contornos dos pilares babilônicos, instruiu-se com os fantasmas guardiões das bibliotecas alexandrinas, bateu-se em combate verbal contra os quarenta e sete capitães de um ermo jardim nas proximidades do Labirinto. Em Marselha, onde instalou o escritório central do seu empreendimento cabalístico, estudou a sintaxe contida na engenharia das catedrais europeias e aprendeu a reconstruir gramaticalmente as definições e os pentagramas arquitetônicos vandalizados pela noite dos séculos. Mas a Providência é uma entidade indomável e segue um traçado incapaz de se submeter unicamente aos nossos projetos. O Plano sofreu um desvio fundamental quando Maurice sonhou com o Enigma Óbvio.


No enredo onírico, um cidadão da Saxônia, pálido e roído pelos germes da lepra, segurava com sua única mão a garganta de Maurice. Ele pensou, enquanto sonhava, que a culpa o estrangulava justificada na sua própria intransigência. Mas eis que, do ar que se extinguia dos seus pulmões, foi brotando uma gigantesca bolha de vidro, portando todas as cores do mundo. A bolha explodiu e seus pedaços ficaram grudados na parede, formando um imenso vitral.


Vitrais!


Maurice acordou tão impressionado e tão afoito por dominar tal linguagem que nem viu as marcas de dedos impressas em seu pescoço, refletidas no espelho do quarto. Então, foi numa madrugada de sexta para sábado que os fornos adquiriram um novo e fundamental sentido na existência do belga. Mais vinte anos escorreram pelas artérias inquietas desse homem, decifrando as metáforas das cores, a lógica estrutural desse peculiar tipo de composição e o significado de uma arte atávica que escondia, entre outras coisas, os princípios éticos das relações humanas. Imergiu obstinadamente nessa semântica. Leu as esperanças de uma sabedoria pré-histórica, expressas na frequência da luz modificada pelo vidro. Percebeu que havia um jogo de elipses envolvido no mundo emaranhado das cores. Decodificou cada uma dessas elipses. Todas elas?


Não. Faltou uma.


Tangido pelo destino, Maurice ouve um suspiro familiar e levanta os olhos de um livro amarelado e comido pelas traças, deserdado numa banca de saldos da Feira do Livro de Porto Alegre. Subitamente, sente o ar evadir-se do peito e um nó górdio formar-se na traqueia. Todos aqueles anos desgastados em sua alma inquieta despertam bruscamente com uma só aparição.


Natalie.


Na sua frente, olhando para ele. Os dois unidos por uma linha invisível, amarrada num universo de encantamento por saudades recíprocas. Maurice percebe, num violento insight, que investigou os tesouros epistemológicos dos antigos e performou obsessivamente os movimentos de sua vida numa única direção para fundi-los instantaneamente na praça de uma cidadezinha brasileira. Para compreendê-los na cor dos olhos de Natalie.


O chumbo finalmente transmuta-se em ouro.

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