24 | Notre-Dame de Paris
- rpegorini
- 1 de jul. de 2025
- 16 min de leitura
Atualizado: 24 de jul. de 2025
Dia 24 - 20 de janeiro de 2008 – Paris
No dia 15 de abril de 2019, no entardecer das 18h50min, alastra-se uma incontrolável fagulha pela estrutura de madeira, composta de vigas de carvalho do século XIII e conhecida como "a floresta", que sustenta o telhado da Catedral de Notre-Dame em Paris. As chamas, insaciavelmente gulosas, devoram o madeirame e desintegram a icônica agulha, uma estrutura de 96 metros de altura, projetada por Viollet-le-Duc no século XIX, que fica no cruzamento entre a nave e o transepto da catedral, ou seja, bem no centro do edifício. Às 19h50min, exatamente uma hora depois, todo o telhado em chamas desaba dramaticamente, desmantelando séculos de arte celta, românica, gótica, renascentista e neoclássica abrigados dentro da catedral e inundando de tristeza os corações dos parisienses. Naquela altura dos acontecimentos, toda a França encontra-se irmanada com a comunidade internacional, assistindo horrorizadas às imagens do fogaréu pelos principais noticiários do mundo.
Visitamos Notre-Dame em 2008 e depois em 2015, aqui já escoltados pela amada prole – não há satisfação maior dos pais que propiciar experiências inesquecíveis para os pimpolhos, mas isso... é outra história. Tivemos, pois, naqueles sofridos momentos de 2019, a impressão de estar testemunhando a morte de um parente querido, que visitamos pouco, mas do qual portamos lembranças, momentos e imagens abarrotadas de afetos. Um golpe desalmado, dilacerante, traiçoeiro, gigantesco, afetando nossos sentidos de uma maneira ainda mais íntima e profunda do que a comoção provocada pelo incêndio ocorrido no Museu Nacional, um ano antes.
Mas voltaremos a Notre-Dame no devido tempo, daqui a seis parágrafos. Pois começamos aquele domingo passeando a pé pelas ruas de Paris, um roteiro que enfeitiça todos os seus sistemas sensoriais. Saindo do Little Hotel, Rue Pierre Chausson, 75010, são trinta minutos mágicos até o nosso primeiro destino da lista do dia, percorridos entre os casarões, cafés e bistrôs do bairro Marais, um aglomerado vibrante e elegante de cenários charmosos, uma combinação única de arquitetura medieval e renascentista. Aqui entra uma notinha marota de viagem. Já estávamos acostumados a passar pelos habitués dos cafés e sermos encarados como mendicantes. Então, desenvolvemos uma estratégia de contra-ataque: encarávamos de volta, fisionomia séria e imperturbável, até que os sacripantas desviassem o olhar e enfiassem os bigodes nas xícaras. Ponto! Vencida mais uma batalha contra o preconceito e a arrogância parisii! Tudo isso para finalmente, chegar na...

Place des Vosges, uma praça simétrica, cercada por edifícios de tijolos vermelhos e telhados de ardósia, construída entre 1605 e 1612 por ordem de Henrique IV, a praça planejada mais antiga de Paris. E sabem quem morou no número 6 desses edifícios? Lá está o Maison de Victor Hugo, onde o escritor viveu e que hoje é um museu gratuito. E não por acaso ele está citado aqui, num texto que começa com a Catedral de Notre-Dame. É dele a fantástica obra que narra a vida do Corcunda de Notre-Dame, uma lenda literária que saltitava entre as gárgulas e as torres da Catedral. Com o título de Notre-Dame de Paris, o livro popularizou-se pela presença fascinante de Quasímodo, o corcunda sineiro da catedral em sua mais pujante fase gótica, surdo e deformado fisicamente, mas de coração sensível e apaixonado. Apaixonado pela cigana Esmeralda – Paris tem sido historicamente, um importante ponto de passagem, acolhimento e também conflito para populações ciganas –, o desprezado e assustador Quasímodo simboliza um passado repleto de glórias e feridas incógnitas, uma beleza escondida sob a aparência deformada por camadas de história, dor e redenção, menosprezado pela população deseducada e preconceituosa. Quasímodo, portanto, é a metáfora perfeita da catedral, a verdadeira protagonista do romance. Olha só, não consegui me controlar até o sexto parágrafo.
Mas voltemos à Place des Vosges. Originalmente chamada de Place Royale, foi o primeiro exemplo de urbanismo regular em Paris, com edifícios todos simétricos e padronizados. O nome "Place des Vosges" foi dado durante a Revolução Francesa, em 1799, como homenagem ao arrondissement dos Vosges, o primeiro bairro de Paris a pagar oficialmente seus impostos à nova República. A praça, jardim público com fontes, bancos e gramados lindíssimos, perfeita para piqueniques e descanso, é cercada por 36 pavilhões, todos com tijolos vermelhos, pedra branca, telhados de ardósia azul e arcadas no térreo, as quais criam passagens cobertas ideais para caminhadas em dias de chuva ou sol forte. Ambiente residencial de nobres, intelectuais, artistas e políticos ao longo dos séculos, claramente a simetria e a harmonia da praça influenciaram o urbanismo de Paris e de outras cidades europeias. Tendo os quatro lados do quadrado predial completamente fechados em volta da praça, é como se houvesse um recanto mágico protegido pelos belos edifícios, todos gêmeos, impedindo a entrada das maldades da vida e das neuroses mundanas.
Amigo, esse “quadrado” é uma coisa absolutamente linda, um cenário geométrico perfeito, arte arquitetônica renascentista magistralmente concebida. Ali o tempo é delicadamente interrompido e convidado a dialogar com nossos sentidos silenciosamente extasiados. Trata-se de um dos lugares mais charmosos de Paris, povoado por galerias de arte, lojas de antiguidades, restaurantes refinados e cafés sob as arcadas. Mistura elegância histórica com a vibração artística e boêmia do bairro Marais. E, às 10h32min do dia 20 de janeiro de 2008, serviu de bucólico cenário para a degustação de duas baguetes de Camembert e Jambon Cuit (alô mané que come queijo e presunto: é a mesma coisa, só que enfeitada por rótulo francês). Porque aqueles minicroissants do Little Hotel não bastam, né?
Devidamente abastecidos, voltamos ao passeio pelos encantos urbanos parisienses. O nosso caminho atravessava o coração do Marais, uma das zonas medievais mais bem preservadas de Paris, onde se misturam mansões aristocráticas dos séculos XVI e XVII com a vida boêmia, a herança judaica e o movimento LGBTQ+ da cidade. São 10 minutos intensos, saindo pela Rue de Birague, virando na Rue Saint-Antoine, uma antiga via real, cheia de história feudal, cruzando Saint-Paul-Saint-Louis, uma belíssima igreja barroca, passando pelo Musée Carnavalet, museu da história de Paris (entrada gratuita, aproveite) e transpondo a Rue de Rivoli, cheia de lojas, vida urbana e movimento. Até chegar ao maravilhoso Hôtel de Ville, muito mais do que a prefeitura da cidade. Um dos edifícios mais imponentes, belos e historicamente carregados da França.

A sede da prefeitura de Paris existe nesse local desde 1357, quando Étienne Marcel, então preboste dos mercadores (uma espécie de prefeito da época), adquiriu a antiga Maison des Piliers, na beira do Sena. No século XVI, o rei Francisco I, querendo um edifício mais digno para a capital, ordenou a construção de um prédio em estilo renascentista, cuja obra foi concluída por volta de 1628. Durante a Comuna de Paris, em 1871, o Hôtel de Ville foi incendiado pelos insurgentes. Todo o interior foi destruído, incluindo os arquivos da cidade que remontavam à Idade Média. Completamente reconstruído no final do século XIX, em um estilo neorrenascentista, foi inspirado na arquitetura francesa do século XVI, mas concebido de uma forma muito mais grandiosa. Além da função administrativa, o Hôtel de Ville serve como espaço cultural, frequentemente organizando exposições gratuitas, eventos públicos, concertos e instalações artísticas na grande praça à sua frente, que no inverno se transforma em pista de patinação no gelo. A mesma praça que foi, durante séculos, local de execuções públicas, incluindo queima de hereges na Idade Média e palco de eventos cruciais da história francesa, como o discurso durante a Libertação de Paris em 1944, quando Charles de Gaulle falou à multidão ali reunida.
Encaminhamo-nos, então, ao ponto da cidade onde tudo começou, no meio do Sena, protegido pelas águas, tal como um fosso gigante. A Île de la Cité é o berço de Paris, o coração histórico, espiritual e judicial da cidade. Ela é uma das duas ilhas naturais no rio Sena (a outra é a Île Saint-Louis) e guarda alguns dos monumentos mais emblemáticos da França. A ilha abriga o Kilomètre Zéro, o marco simbólico do centro da França, localizado em frente à Notre-Dame. Todas as distâncias rodoviárias da França são calculadas a partir desse ponto. Nessa ilha se estabeleceram, por volta do século III a.C., os Parisii, uma tribo gaulesa que deu origem ao nome da cidade.

Chamada de Lutèce durante o Império Romano, a ilha já tinha importância administrativa e comercial suficiente para ser considerada uma potência de respeito. No ano de 52 a.C., Júlio César envia Tito Labieno para subjugar os irredutíveis gauleses lá encastelados. Os parisii destroem as pontes e incendeiam a ilha para evitar a captura, mas, mesmo assim, Labieno consegue tomar a cidade. Esse foi, portanto, o primeiro grande cerco documentado. No ano de 885, a Île de la Cité foi alvo de um grande ataque viking, liderado pelo escandinavo Siegfried. Vindos em cerca de 700 navios, pretendiam saquear Paris e dela obter tributos. A cidade resistiu heroicamente sob a liderança do Conde Odo, que depois se tornaria rei da França. Os vikings tentaram várias vezes romper as defesas, principalmente as pontes de madeira que ligavam a ilha às margens, mas não conseguiram romper essa resistência tão feroz quanto eles mesmos. Após meses de bloqueio – uma das aventuras mais épicas da Idade Média, com combates nas pontes, negociações e feitos heroicos –, os invasores desistem de tomar a cidade. Ao norte da França, outro viking famoso, Rollo, a partir do ano 900, passa a realizar incursões regulares, incluindo a região de Paris. Até que, como parte do tratado de Saint-Clair-sur-Epte, celebrado com o rei Carlos, o Simples, em 911, Rollo recebe terras que se tornariam o Ducado da Normandia. Se não puder vencê-los, junte-se a eles. Duzentos e cinquenta anos depois, um descendente direto de Rollo: Guilherme, o conquistador, invadiria a Inglaterra em 1066.
Foi na Île de la Cité que os franceses começaram, em 1163, sob o reinado de Luis VII, a construir uma Catedral e só a terminariam 180 anos depois. Deixaram não somente uma obra-prima da arquitetura gótica: legaram um monumento carregado de símbolos espirituais, alquímicos, esotéricos e teológicos. Cada elemento arquitetônico, escultórico e decorativo tem significado profundo, refletindo a visão medieval do mundo, do sagrado e do cosmos. Há um livro chamado Le Mystère des Cathédrales (O Segredo das Catedrais), escrito por Fulcanelli — pseudônimo de um misterioso alquimista francês do século XX, cuja verdadeira identidade permanece desconhecida até hoje, envolta em teorias, especulações e lendas –, afirmando que as catedrais góticas são livros de pedra, repletos de símbolos, mensagens codificadas e ensinamentos alquímicos. Segundo Fulcanelli, os mestres pedreiros medievais e arquitetos góticos eram iniciados nos mistérios herméticos e alquímicos, e deixaram seu saber esculpido nas fachadas, vitrais, portais e estruturas das catedrais. Elas seriam, portanto, manuais tridimensionais da Grande Obra alquímica, que descreve o processo de transmutação da matéria e da alma. Dentro dessa concepção, a catedral é uma imagem do universo ordenado por Deus: a planta em formato de cruz latina representa o corpo de Cristo; as torres gêmeas representam o equilíbrio dos opostos: Terra e Céu, corpo e espírito, matéria e alma; a luz que atravessa os vitrais simboliza a presença divina que ilumina a alma — a Luz da Verdade passando pela matéria colorida. As rosáceas são símbolos da perfeição divina, do infinito e da Trindade. Rosáceas são as janelas circulares, de grandes proporções, na fachada frontal da Catedral, com um complexo rendilhado de pedra formando padrões geométricos, muitas vezes semelhantes a pétalas de uma flor. Preenchidas por vitrais coloridos, formando cenas bíblicas, figuras de santos, símbolos teológicos e representações cósmicas, também elas representam elementos complexos: a forma circular representa a eternidade, sem começo nem fim. Saiba, portanto, que as três rosáceas de Notre-Dame têm simbolismos particulares: a Rosácea Oeste é dedicada à Virgem Maria; a Rosácea Norte representa o Antigo Testamento, a Lei; e a Rosácea Sul representa o Novo Testamento, a Graça.


As três entradas da fachada oeste da Catedral de Notre-Dame de Paris são mais do que simples portas: são portais simbólicos, ricamente esculpidos, que representam os caminhos espirituais da fé cristã. Na Idade Média, quando a catedral foi construída, as portas eram concebidas como caminhos de iniciação, lições visuais e ritos de passagem para os fiéis. Cada entrada representa uma via diferente para se aproximar do divino; cada portal tem seu próprio tema e iconografia. A interpretação elenca a entrada central como o Portal do Juízo Final, conforme descrito no Evangelho de Mateus. Representa a salvação e a condenação dos seres humanos no fim dos tempos. Ao entrar por essa porta, o fiel é convidado a refletir sobre suas escolhas morais e a eternidade. À direita de quem olha de frente, temos o Portal da Virgem, cujo tema é a vida da Virgem Maria, mãe de Cristo. O Significado é bem evidente: homenageia a padroeira da catedral: Notre-Dame = Nossa Senhora. Significa a celebração da pureza, da intercessão e do papel de Maria na história da salvação. Entrar por essa porta é aproximar-se de Deus através da misericórdia materna, da delicadeza de Maria, mãe compassiva. À esquerda de quem olha de frente está o Portal de Santa Ana, que representa a genealogia e a vida de Maria e Jesus, comemorando a mãe da Virgem Maria e sua linhagem. Mostra o cumprimento das profecias messiânicas e a importância da tradição familiar e da linhagem de Davi. Entrar por essa porta é reconhecer a herança sagrada que culmina em Maria e Cristo. É o caminho da sabedoria antiga, da fidelidade às promessas, do cumprimento da profecia. Escolha a sua entrada e penetre nesse mundo.

É uma viagem no tempo, como se afundássemos num túnel que nos arrastasse para uma camada geológica de mil anos atrás, sem luz elétrica, sem água encanada, sem a ciência a nos iluminar a alma e sem o conhecimento dos povos a nos tranquilizar o espírito. Vagueiam por ali a mística e as sombras, a invadir os sentidos e nos levar a uma profunda introjeção rumo a tempos imemoriais, repletos de medos e insegurança frente aos desafios da vida. É assim que o ambiente gótico trata a relação do homem com seus entes divinos: impondo um profundo sentimento de submissão ante um Deus poderoso e magnificamente superior. O gótico europeu está profundamente enraizado na teologia cristã medieval, especialmente no pensamento neoplatônico e na filosofia de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino. Não se trata o gótico apenas como um estilo artístico: pode ser entendido como uma busca por elevação espiritual, luz e ordem divina. Por isso as edificações infinitamente gigantescas, altíssimas, pontiagudas, sorumbáticas e soturnas: para alcançar o divino você precisa elevar seus olhos para o alto e sentir-se um nada perante o infinito. A verticalidade das construções góticas expressa a ascensão da alma em direção a Deus.
Notre-Dame era o coração espiritual e cívico da cidade medieval. Em uma época de população maioria analfabeta, as igrejas góticas eram verdadeiras Bíblias em pedra e vidro. Esculturas, vitrais e pinturas educavam os fiéis, reforçando valores morais e religiosos com narrativas visuais simbólicas. O conhecimento era transmitido por meio da beleza e da forma, em sintonia com a doutrina agostiniana de que a beleza conduz à verdade divina. O gótico concebe a luz como uma emanação direta de Deus. Por isso, as catedrais góticas sempre priorizam grandes vitrais, que filtram a luz natural em tons coloridos, criando uma atmosfera sagrada e transcendental. Não é só estética: a luz é metafísica, uma ponte entre o mundo terreno e o celestial.

Avançando na penumbra da Catedral, o olhar é naturalmente conduzido ao "maître-autel" (altar-mor), já criando um percurso simbólico de peregrinação visual. Impressionante pela sua imponência, o altar de mármore branco, com formas simples, de linhas puras e simétricas, possui uma estética moderna e sóbria, contrastando com a ornamentação abusivamente gótica do entorno. Atrás dele pode-se ver o conjunto escultórico barroco do século XVIII representando a Crucificação de Cristo, ladeado por estátuas de Maria e João. Falemos sobre relíquias e a lista de artefatos sagrados é impressionante: a Coroa de espinhos de Cristo, trazida de Constantinopla por Luís IX (São Luís) em 1239, comprada do Rei Balduíno; um fragmento da Vera Cruz; um dos cravos da crucificação; uma estátua homenageando Jeanne D’Arc, a quem a própria Igreja reduziu a cinzas numa fogueira santa. Porque fé é o negócio da Igreja, e sempre haverá quem deseje comprar a salvação; outros serão puros e íntegros, como a pobre Jeanne. Essas relíquias, expostas em ocasiões solenes e guardadas na sacristia, foram todas resgatadas durante o incêndio. Ao voltarmos para a entrada da catedral, somos imediatamente impactados pela presença de outro elemento estupendo: o grande órgão de Notre-Dame, com cinco teclados e mais de 8.000 tubos, um dos mais famosos do mundo. A música sacra desempenha papel essencial na experiência litúrgica e estética durante a vivência no interior de algo tão adorado e a trilha musical atmosférica confere mais uma dimensão sensorial na submersão nessa espiritualidade gótica.

Ao sair do interior da catedral e retornar dessa experiência mística de mergulho nos séculos dos antepassados europeus, somos novamente bombardeados pelos raios solares da realidade externa. Voltando à tona, à luz do dia, é hora, então, de visitar outro ambiente carregado de simbolismos e metáforas imagéticas. Chegou a vez de subir os 387 degraus das estreitas escadarias da igreja em direção aos seus misteriosos andares superiores de pedra. E lá estávamos, agora, rodeados pelas quimeras e gárgulas, muitas criadas no século XIX pelo mesmo Eugène Viollet-le-Duc (como a famosa Stryge, a quimera pensativa), a fitar o Sena e grande parte da Île de la Cité do alto de 46 metros acima do nível do solo. Percorremos deslumbrados a “Galerie des Chimères” (Galeria das Quimeras), a passarela entre as duas torres. Logo abaixo das torres temos uma linha de esculturas, “Galerie des Rois” (Galeria dos Reis), que representa os 28 reis de Judá, a ancestralidade de Maria e de Jesus. É maravilhosamente hipnotizante pelo seu detalhamento verdadeiramente obsessivo. Ao chegarmos à torre sul, fomos apresentados pessoalmente a Emmanuel, o sino de 13 toneladas mais famoso da França.

Depois de descer as escadarias, leva-se um tempinho para voltar ao século XXI. Os fluidos da mente e os vapores dos pensamentos flutuam revoltos ainda durante alguns instantes antes de dissipar essa imersão espiritual, retornarmos às necessidades da vida e nos reacomodarmos ao ambiente da cidade em movimento. É como estar dormindo, acordar e subitamente acender a luz do quarto. Não é instantaneamente que retornamos ao convívio pacífico com a realidade. Mas tínhamos, novamente, a arte a nosso favor. Numa das pontes da ilha apresentava-se, naquele momento, uma banda de jazz: bateria, contrabaixo acústico, trompete, guitarra. Uma delícia que apreciamos embevecidos, cheguei até a comprar um CD deles: The René Miller Band! (René Miller? Músico de rua estadunidense que se estabeleceu em Paris e tocava regularmente na Pont Saint‑Louis, em frente à Notre‑Dame, desde pelo menos 2006).

Saindo pela fachada leste de Notre-Dame você caminha pela praça Jean XXIII, atravessa a pequena Place du Parvis Notre-Dame e vira na direção da Boulevard du Palais, uma rua larga que corta a Île de la Cité. No caminho, você verá a Sainte-Chapelle, o Palais de Justice, que ainda funciona como edifício judicial, e consegue vislumbrar o relógio monumental da Conciergerie, de 1371 — o mais antigo de Paris. Isso mesmo, a Conciergerie estará à sua esquerda, em frente ao Sena, com suas torres medievais arredondadas e sua fachada de pedra clara.

A Conciergerie fazia parte do Palais de la Cité, residência dos reis da França entre os séculos X e XIV. A partir do reinado de Carlos V (1364–1380), a Conciergerie é convertida em tribunal e prisão real. O termo “conciergerie” vem do "concierge", o oficial que administrava a prisão. Tornou-se um símbolo de repressão e medo, apelidada de "a antessala da guilhotina". Durante o Período do Terror (1793–1794), a Conciergerie foi o coração do tribunal revolucionário. Mais de 2.700 pessoas foram condenadas à morte após julgamentos sumários ali realizados. Entre os prisioneiros mais famosos, Maria Antonieta, que passou seus últimos dias em uma cela úmida antes de ser guilhotinada. É possível visitar essa cela reconstruída, com móveis e objetos fúnebres, e até mesmo um boneco, representando a rainha condenada, vestindo os trajes de momentos antes da execução. Georges Danton, Camille Desmoulins, Madame Roland, entre outros líderes revolucionários, acabaram executados ali também. O ambiente funesto do castelo angustia a gente, tivemos que sair dali rapidamente para não nos sentirmos tão abalados psicologicamente. De Paris queríamos levar apenas as melhores lembranças.

Por isso, caminhando para a estação de metrô, visitamos o Mercado das Flores de Paris, ainda na Île de la Cité, na Place Louis Lépine. Os franceses o chamam de Marché aux Fleurs Reine-Elizabeth II. Acontece desde o século XIX e em 2014 foi renomeado em homenagem à Rainha Elizabeth II, após uma visita oficial. Especialidades: flores, plantas, objetos de jardinagem, e, em certos dias, como nesse domingo, também mercado de pássaros. Uma lufada de vida após tanta referências a guerras e mortes aterrorizantes.


Pois dali pegamos a linha 4 do metrô na estação Cité, descemos na estação Barbès–
Rochechouart, caminhamos cerca de 15 minutos, subimos as típicas escadarias de Montmartre e avistamos as paredes brancas da Basílica de Sacré-Couer. Meu amigo, ir da Conciergerie até a Basílica de Sacré-Couer é como sair do coração sombrio da Paris medieval e subir até o cume da Paris contemplativa — uma travessia simbólica entre o peso da História e o respiro do espírito. Bota respiro nisso. A vista a partir das escadarias da Sacré-Couer não é apenas impressionante: oferece um dos panoramas mais amplos, simbólicos e emocionantes de Paris. Não se trata de uma questão de geografia — há uma dimensão estética, histórica e até espiritual nesse olhar sobre a cidade. A basílica está situada no ponto mais alto de Paris: o butte Montmartre, com 130 metros de altura. Sua escadaria e seu mirante oferecem uma visão de quase 180° sobre a cidade. Como está afastada do centro e em um terreno elevado, nada bloqueia a vista — você vê a cidade se desdobrar até o horizonte. Da Sacré-Couer você enxerga a Torre Eiffel, como uma sentinela metálica ao longe; o domo dourado dos Invalides; a Notre-Dame; a Torre Montparnasse; o Centro Pompidou e muito mais. É como se toda a história de Paris estivesse espalhada à sua frente, em camadas. A luz muda constantemente sobre os telhados de zinco e ardósia de Paris, criando reflexos prateados, dourados ou azulados, conforme o dia avança. Essa luz encantou artistas como Monet, Utrillo, Van Gogh e Toulouse-Lautrec, que viveram ou pintaram Montmartre.


Sacré-Couer significa “Sagrado Coração”, e sua localização ecoa o ideal de elevação espiritual. A basílica foi construída após a Guerra Franco-Prussiana, período de conflito, derrota e crise moral, como parte de um voto nacional de expiação espiritual e reconciliação da França com Deus. Iniciada em 1875, foi financiada por doações populares de toda a França e consagrada somente em 1919, após a Primeira Guerra Mundial. Projetada por Paul Abadie em estilo romano-bizantino e inspirada em igrejas orientais e basílicas paleocristãs. Foi revestida com uma pedra branca especial (travertino de Château-Landon) que se auto limpa com a chuva, o que mantém sua aparência clara ao longo dos séculos. Possui cúpulas imponentes, sendo a maior delas acessível ao público, com vista panorâmica de Paris. A basílica tem ainda o segundo maior mosaico do mundo: o Cristo de braços abertos sob o título “Cristo em glória”, no teto da abside. Linda, linda, linda.

Situado no 18º arrondissement, ao norte de Paris, o nome Montmartre vem de “Mons Martyrum”, ou “Monte dos Mártires”. Segundo a tradição, foi onde São Dinis, primeiro bispo de Paris, foi martirizado no século III. Por séculos, foi zona rural, com vinhedos e moinhos. Tornou-se um refúgio de artistas pobres, pensadores livres, poetas e revolucionários. Lá viveram e trabalharam Van Gogh, Toulouse-Lautrec, Picasso, Modigliani, Renoir, Utrillo, Dalí, entre outros. Era um território à parte: irreverente, criativo, cheio de cabarés, cafés e ateliês. Pois foi por essas ruelas que nos enfiamos a turistar voltando até a estação Anvers, mas alongamos o caminho para curtir o clima do bairro.
Aos pés da colina de Montmartre, passamos pela região de Barbès–Rochechouart, no 18º arrondissement de Paris, conhecida por seu comércio popular com forte presença de imigrantes do Norte e Oeste da África. Calçamento de paralelepípedos, butiques africanas, açougues halal ("boucherie"). Açougues halal são estabelecimentos que vendem carnes preparadas segundo os preceitos islâmicos. A palavra "halal" vem do árabe e significa "permitido", "lícito" ou "autorizado" segundo a lei islâmica (Sharia). Portanto, um açougue halal oferece carnes que podem ser consumidas por muçulmanos praticantes: estávamos num bairro predominantemente islâmico. E dê-lhe fotografar todos os detalhes possíveis, que representassem o encanto típico da região. Foi nessa hora que passou por nós uma pessoa avisando: No photos! No photos! Olhamos com mais cuidado ao redor, passando do detalhismo ao plano geral e nos demos conta de que o ambiente havia mudado completamente. Sujeitos mal-encarados nos observavam com sangue nos olhos. Guardei a máquina – sim, ainda era um tempo em que se tirava fotos com máquina fotográfica – e nos mandamos rapidinho para o metrô. Sem olhar para trás, sem olhar para o medo. Amanhã embarcaremos para Londres via Eurotúnel e isso já nos causava um certo receio em vista de tantos relatos problemáticos sobre a imigração inglesa. Preparemos, pois, o espírito para voltar à estrada. Ou melhor, para o trilho.
Au revoir, Paris! À la prochaine!











































































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