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20 | To Paris With Love

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 10 de mai. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 25 de mai. de 2025

Dia 20 - 16 de janeiro de 2008 – Salzburg > Paris



Viagem de trem: oito horas de Salzburg até Paris. Esperávamos rever algumas daquelas maravilhosas paisagens geladas quando subimos as Dolomitas a partir de Veneza. Mas o panorama agora tinha um pintor diferente. Ao invés das grandes montanhas a perder de vista, as imensidões brancas cobrindo as rochas gigantescas e o vapor gelado do inverno, descortinavam-se colinas verdejantes, vilarejos charmosos, vinhedos infinitos e as imensas pradarias da Alsácia pelas janelas do trem. Se apertássemos bem os olhos, seria possível avistar alguns dos pinheiros sinistros da Floresta Negra no horizonte antes de atravessar o Reno e alcançar aqui e ali alguma casinha enxaimel depois de Strasbourg. Bem instaladinhos na cabine, sem outros viajantes para perturbar o sossego, com todo o espaço só para nós, nos esbaldamos na mordomia e desfrutamos encantados o impressionante visual que a natureza proporcionava.

Na estação, localizamos um MacDonald’s atrolhado de gente e procuramos um banco para sentar e comer o lanche. Nada de banco, cadeira, banqueta... Mas que diabos, será que ninguém senta nessa estação ? E procuramos, procuramos, procuramos... nada. Bom, nos aquartelamos atrás de uma coluna e começamos a comer em pé mesmo. Ora, os ingênuos viajantes novatos não conheciam essa tática moderna das instalações alimentícias na Europa: não ter banco favorece a rotatividade, os viajantes não ficam ocupando uma mesa por horas, já que é assim que normalmente se espera o próximo trem. Ou seja, sem cadeiras, a pessoa come e vai embora rapidinho, deixando o lugar disponível para o próximo cliente. Coisas da modernidade.

Dali a pouco, pousa uma pomba, provavelmente atraída pelo cheiro do lanche, bem pertinho de nós. Como todo mundo sabe, toda mulher tem o ato instintivo de alimentar qualquer animal com cara de fome. Então, a Maria jogou uma batatinha no chão. A pombinha foi manquitolando até a batatinha e pimba! Comeu a batatinha. Enquanto ainda “pescoçava” a batatinha goela adentro, pousou outra pomba ao lado dela, com mais cara de fome ainda. A Maria joga outra batatinha. E pousa outra pomba. E outra. E outra. E outra. Em segundos, estávamos cercados de pombas. Parecia que estávamos numa cena d’Os Pássaros. Começou até a dar um certo receio, porque parecia que o controle da situação estava cada vez mais fora do nosso alcance. Mas o “medinho” deu lugar imediatamente a uma sensação de vergonha, porque em minutos, atraído pelo passaredo, surgiu não sei de onde um guardinha da estação nos mandando, em alemão, parar de alimentar os animais.  Apesar de não entender um só suspiro do idioma alemão, nunca alguém foi tão claro na sua comunicação como aquele guarda. Acho que, na verdade, fomos salvos pela atitude admoestadora do cara, senão acabaríamos soterrados pelas columbiformes.

Fora esse pequeno incidente, a viagem foi tranquilíssima. No TGV (trem de alta velocidade), nos foi servido um daqueles almoços de avião, dentro de uma caixinha bonitinha. Como estávamos de estômago cheio de “mastigonalds” – como iríamos imaginar que haveria refeição no trem? não tinha nada escrito na passagem –, escondemos o conteúdo da caixinha (um arrozinho, uma carninha, uma saladinha, uma sobremesazinha... tudo assim mesmo, pequenininho, diminuto, quase microscópico). Mais tarde, esse conteúdo, acompanhado de um bom vinho, foi a nossa janta naquela noite em Paris.

Mas primeiro... precisamos chegar em Paris, não é mesmo ?

 É verdadeiramente emocionante chegar em Paris. Tudo aquilo que a gente lê, ouve, vê em fotos, vídeos e filmes sobre a Cidade-Luz está agora nos aguardando numa realidade concreta, envolvente, que inunda nossos sentidos com a sua atmosfera e nos empolga com a perspectiva de fazer parte dessa magia, nem que seja apenas por alguns dias, deste mundo fantástico parisiense. Mas há muitas “Parises” contidas na infinita Paris. Há aquela imagem que emoldura nossos sonhos, embalada por um acordeão, com um artista de bigodinho à la “Dali” e boininha pintando um retrato de alguém na rua, o barulho do trote dos cavalos de uma charrete passando, um cavalheiro de cartola derretendo-se em mesuras ante uma senhorita vestindo um  imenso chapéu com penachos... aquelas imagens dos antigos filmes clássicos românticos. Se você quiser (se procurar bem), encontra traços deste ambiente nostálgico distribuídos em recantos ou momentos inesperados da metrópole.

Outra Paris que se encontra quando se explora suas intimidades é a dos imigrantes: muitos muçulmanos, muitos indianos, muitos africanos, muitos orientais. Há imensas comunidades de imigrantes em todas as grandes cidades da Europa, principalmente na Itália e na Espanha. Mas declaradamente visíveis, tal como em Paris, não me lembro de ter visto em tanta concentração (imigrante/por metro quadrado) tal como na capital da França. A Paris dos grandes museus, como o Louvre, d’Orsay, Les Invalides, das lindíssimas pontes, dos músicos de rua, dos retratistas, dos monumentos eternos como o Arco do Triunfo, Torre Eiffel, obras de Rodin, das impressionantes igrejas como Notre-Dame e Sacre-Coeur, do Pére-Lachaise, das encantadoras praças como a Vosgues, Vendôme, La Concorde e ruas mágicas como Champs Elisées, Boulevard Saint-Germain, etc, etc, etc. Tudo isso (e muito mais) fica numa cidade só. Paris.

Outra Paris é a dos parisienses. Vou falar deles mais adiante.

É uma das poucas cidades do mundo ocidental que pode se gabar de ter mais de dois mil anos de civilização e organização urbana em grande escala. Nasceu a partir da Íle de la Cité, ocupada pelos celtas Parisii (preciso ainda dizer de onde veio o nome da cidade?). Uma aldeia celta fincada nessa ilhota do rio Sena desde o século III antes de Cristo. Aproveitaram o rio como rota natural de transporte e comércio, conectando o interior da Gália ao Oceano Atlântico e usando a ilha como um excelente posto defensivo contra invasores e predadores. Espertinhos, deram-se conta que poderiam cobrar taxas de travessia e assim a cidade foi enriquecendo, chegando a ter moeda própria e uma economia regional bem ativa. Mesmo assim, não conseguiram deter o avanço do Império Romano comandado por César, e, num último esforço desesperado, queimaram a cidade em 52 a.C. na tentativa de impedir que caísse nas mãos forasteiras.

Roma não esmoreceu. Sobre os destroços da aldeia, construiu uma nova capital poderosa, Lutetia, que acabaria voltando a se chamar Paris logo após a queda do Império Romano do Ocidente, no século V. Durante a Idade Média, Paris cresceu como centro comercial, intelectual e religioso. Por volta de 1170, forma-se um núcleo de escolas ligadas à Catedral de Notre-Dame (obra-prima da arquitetura gótica, iniciada em 1163) e à Abadia de Sainte-Geneviève. Esses centros começam a atrair estudantes e mestres de várias partes da Europa, formando o embrião da futura Université de Paris. Isso sem falarmos de Sorbonne, que começou como um colégio dentro da Universidade e acabou virando o coração da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris. Durante séculos, a Sorbonne teve enorme influência nos debates religiosos, políticos e filosóficos da Europa.

Paris sofreu ataques vikings – entre estes, o lendário Ragnar Lodbrok, “Calças peludas” em nórdico antigo, que haveria submetido a cidade a um cerco devastador em 845. Paris enfrentou fome e pragas nos períodos de trevas; sobreviveu à intemperança do Terror Revolucionário e produziu o mais lindo e emocionante hino nacional de todos os tempos – cantado nos mais dramáticos momentos de conflitos entre civilização e barbárie, entre traição e fidelidade, entre covardia e coragem. Ainda teve galanteza suficiente para conquistar o epíteto de cidade mais charmosa do mundo e bravamente lançou à posteridade os conceitos modernos de Liberdade, de Cidadania e de Direitos Humanos Universais. Por fim, num estertor da máxima concentração de maldade, quase foi destruída por Hitler – salva no último momento pelo general Dietrich von Choltitz, que se recusou a obedecer à ordem do Führer de explodir a cidade –. Mas calma, cinco parágrafos são absolutamente insuficientes para contar o que é Paris. Terei ainda mais três capítulos inteirinhos para falar dela e ainda assim não terei nem arranhado tudo o que significa essa cidade. Compreender completamente a Cidade das Mil Faces não é coisa para principiantes, mas lá estávamos nós, chegando de coração aberto para esse desafio.

Nossa entrada na cidade deu-se pela Gare de l’Est, uma das seis estações terminais da cidade. Dali parte, desde 1883, o famoso Orient Express, um dos trens mais luxuosos do mundo em sua época dourada e cenário do livro de Agatha Christie (“Assassinato no Orient Express”), com destino a Constantinopla (hoje Istambul). O atual Expresso do Oriente pode ter perdido muito de seu charme como trem de luxo, mas ainda é considerado uma das formas mais convenientes de se chegar à Áustria saindo da França, em conjunto com os serviços Paris – Strasbourg, da TGV-Est. Isso só para te contar que o serviço ainda existe, mas sem aquele encanto que encontramos nas páginas da escritora inglesa. Outros autores usaram este trem como palco de suas estórias: O Expresso do Oriente, escrito por Graham Greene; nos filmes, o Expresso do Oriente é citado no From Russia With Love, de Ian Fleming, assim como na versão de 2004 do filme A Volta Ao Mundo Em Oitenta Dias, entre outras célebres referências.

Ficamos algum tempo desnorteados na estação, procurando o grande “I”, do balcão de informações para turistas. E lá fora ia anoitecendo. Depois da terceira ou quarta tentativa, daquelas super-bem-educadas (excuse moi, parler vous anglais?, merci, etc), de pedir informações aos transeuntes ou pessoas com uniformes que pareciam guardas ferroviários, começamos a nos dar conta de que as pessoas não tinham a menor intenção de nos ajudar. “Humpf” para cá, “humpf” para lá, decidimos comparar um mapa numa livraria e fosse o que Deus quisesse. De posse do mapa, procuramos um táxi.

Aí vem patetada. Na fila dos táxis, um motorista, que parecia estar liberado, olhou para nós e perguntou alguma coisa em francês. Eu, para não perder a chance e entrar logo no táxi, respondi “oui” para cá e “oui” para lá também. Carregamos as malas no porta-malas, entramos no carro e dissemos o endereço para o choffeur. O homem nos olhou como se tivéssemos descido de um disco-voador e se flagrou na hora... entendi que ele dizia que eu não era o “Monsieur X”, a pessoa que ele estava esperando para levar ao hotel. Devia ser uma corrida combinada. Mas estranhei porque normalmente nessas situações os guias ficam com uma plaquinha com o nome da pessoa que está esperando, não é mesmo? Desfeita a confusão, tira as malas do porta-malas, desce tudo do carro, leva para a calçada, procura outro táxi. E a noite avançando.

Finalmente achamos um táxi livre cujo motorista mais ou menos entendeu que queríamos ir para o Little Hotel, na Rue Pierre Chansson. Ainda era hora do rush na cidade e sair da Gare de l’Est para ir até a rua do hotel, apesar de ficar a poucas quadras dali, virou uma verdadeira odisseia.  Mas o motorista nos levou direitinho. Descarregamos as malas, entramos no minúsculo saguão do hotel e entregamos o voucher para o atendente. Parecia que a única coisa que os parisienses sabiam responder era “humpf”. O atendente nos olhou com uma cara de nojo e entregou a chave. “E a que horas é servido o café ?”, perguntamos em inglês. O nojento nos respondeu em FRANCÊS. “Sept heures” (sete horas). Cabisbaixos, nos encaminhamos para o elevador.

Surpresinha: não cabia mais do que UMA pessoa no elevador. Colocamos uma mala e a Maria espremidas lá dentro e lá se foram elas rumo ao desconhecido. Esperei o elevador descer rezando para que a Maria não tivesse sido abduzida por algum francês mal-humorado. Controlei minha ansiedade naquela espera que parecia não ter fim, até que a luz do elevador acendeu, indicando que já estava no meu andar. Minha vez. Coloquei o resto da bagagem comigo, me espremi o que deu e nada, o elevador não subia. Excesso de peso.

Elevador mal-educado esse, hein?

Desisti. Coloquei a bagagem pesada no elevador, apertei o botão do andar e subi as escadas correndo, louco de medo de que elas fossem interceptadas em algum andar secreto, esconderijo de alguma quadrilha especializada em roubo de bagagens.

Deu tudo certo. Cheguei no terceiro andar a tempo de pegar as malas. Lá encontrei a Maria, quase asfixiada pelo cheiro e fumaça de cigarro no corredor, ao lado de um aviso bem grande: “Ne fumez pas/don’t smoke”. Trancamos a respiração e conseguimos chegar, meio trôpegos, meio engasgados, ao quarto. O cheiro de cigarro foi substituído imediatamente pelo cheiro de mofo, mas não tínhamos escolha e estávamos muito, muito cansados. Comemos a comida microscópica do TGV com um  vinhozinho comparado na estação, nos instalamos e dormimos como se tivéssemos dado a volta ao mundo. No Orient Express.

Vou abrir aqui um pequeno parêntese.

Não sejamos tão severos na nossa avaliação sobre o humor (ou completa falta deste) dos irredutíveis gauleses. Talvez tenhamos tido azar de ter encontrado muitas pessoas de mal com a vida; talvez os franceses estejam já de saco cheio de tantos estrangeiros (e pior, falando em inglês com eles) circulando, invadindo, às vezes até maltratando a cidade deles. Não esquecer também da luta colossal que os franceses anglófobos travam há décadas contra a invasão de estrangeirismos, principalmente o inglês, na língua deles. O fato é que em alguns momentos, nos sentimos muito mal, principalmente quando precisávamos da ajuda ou da informação que só eles podiam nos dispensar. Mas encontramos muitos parisienses bacanas também. Foram bem menos do que os “zangados”, mas eles existem sim. Sejamos justos. O segundo dia há de ser melhor.

Se Tutatis deixar.

 



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