016 | A Ponte dos Suspiros
- rpegorini
- 30 de mar. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 5 de abr. de 2025
Dia 16 - 12 de janeiro de 2008 – Itália / Veneza

Diz-se que a praça de San Marco é o coração de Veneza. E é mesmo. Para lá convergem os canais, as artérias urbanas venezianas, que transportam as pessoas por toda a cidade e pelas ilhotas que a circundam. Lembre que Veneza não permite a entrada de automóveis no centro histórico. Então, os canais são os caminhos líquidos da cidade, muito mais importantes e práticos que os caminhos terrestres. Vistos do alto, os canais acabam formando um tronco principal, chamado de Canalazzo, um grande “S” invertido, que liga a entrada da cidade (estação de Santa Luzia e Piazzale Roma) à Piazza de San Marco. Ali pertinho fica o porto principal. É uma experiência medieval sair daqueles corredores apertadinhos que os venezianos chamam de ruas e de repente ser bafejado pela brisa que vem do porto. Pronto! Rapidinho você chegou numa praça maravilhosamente adornada pelos prédios da Velha Procuradoria, construída no século XII, com 152 metros de comprimento, e no lado direito a Nova Procuradoria, que, me poupem, não é tão nova assim: construída em 1582. Em seu interior funcionam o Museu do Risorgimento e o Museu Arqueologico.

Em frente à igreja, a bandeira do leão alado, símbolo de Veneza, oscila em um mastro. Você vê esse leão alado em tudo que é plaquinha de Veneza. Do outro lado está uma das mais belas construções da cidade, o Palácio Ducal, ou dos Doges. Voltaremos a ele logo, logo. Falemos um pouco sobre o leão alado, que é a marca registrada da cidade porque representa São Marcos. Caso você não saiba, cada um dos quatro evangelistas é simbolizado por uma criatura. O leão representa Marcos por sua coragem; um homem alado – a razão – representa Mateus; o sacrifício de Lucas está na figura de um boi; e a visão espiritual de João está representada numa águia. São Marcos é padroeiro de Veneza desde que dois mercadores venezianos roubaram as relíquias do santo, guardadas em Alexandria, esconderam-nas sob a carne de um porco para despistar a guarda muçulmana e levaram esse restos sagrados para Veneza em 828 d.C. E aprenda mais um truquezinho comigo: se o livro embaixo do leão estiver aberto, estamos em tempos de paz; agora, se o livro estiver fechado e, pior ainda, com uma espada, prepare-se para a guerra. Outra dessas lendas – que são infinitas – ainda menciona que São Marcos, ao passar por esse lugar numa de suas andanças pelo mundo, teria ouvido uma voz trovejando: “A ti será dada o descanso eterno.” Ou seja, sua última morada seria ali.
Na Piazza, há uma quantidade quase infinita de pombos e uma forma de comércio local (claro que os venezianos não deixariam escapar uma oportunidade destas) é vender comidinha de pombos aos turistas para que eles tirem fotos com o corpo coberto destes animaizinhos. Mas li em algum lugar que este enxame de pombos é uma verdadeira praga. Os seus dejetos, cheios de substâncias ácidas, estão corroendo os monumentos e prédios em toda a Itália. Lá fica também a Torre do Relógio, um projeto de Mauro Codussi, de 1496, onde figuras de bronze batem com martelos no grande sino. Curioso é o relógio, que mostra as fases da lua e o movimento do sol pelo zodíaco, além de marcar as horas, claro, um detalhe nada importante. Uma lenda conta que depois que os inventores do relógio terminaram a obra tiveram seus olhos arrancados para que não pudessem repetir tal projeto. No alto está... adivinhem o quê ?.... a figura do leão alado de San Marco.
Dentro da Basílica de São Marcos encontramos, ora, o Museu São Marcos, onde estariam os restos mortais do Apóstolo. A basílica foi consagrada em 1094, no mesmo ano em que o corpo do santo foi supostamente reencontrado num pilar pelo Doge Vitale Falier. A cripta passou então a abrigar as relíquias até 1811. Já vimos em outra lenda no parágrafo anterior que os restos do apóstolo foram “comprados” em 828 de Alexandria, né. Acredite se quiser. Por mim, podem contar qualquer conto que eu acredito, desde que seja ben trovato. Lá dentro estão também os quatro cavalos de bronzes originais (os que estão na parte externa da igreja são cópias), que encantaram Napoleão Bonaparte ao ponto do imperador mandar retirá-los e levá-los para a França. Emprestados, claro. Anos depois, foram recuperados e restaurados pelos venezianos novamente. Os estudiosos de história antiga acreditam que os equinos foram feitos na Grécia ou em Roma, no século III ou IV a.C, provavelmente por um dos escultores de Alexandre, o Grande, chamado de Lísipo. Os cavalos teriam sido roubados de Constantinopla durante a Quarta Cruzada (1204) pelo Doge Enrico Dandolo e levados para orgulhosa ostentação de poder no topo da Basílica. É um tal de rouba aqui, rouba ali... interessante esse sistema de trocas, não é mesmo?

Entramos na basílica, onde obviamente não se pode tirar fotografias, e é uma igreja MUITO escura, exótica, com tendências esquizóides misturando bizantismo com orientalismo e catolicismo. No interior, não se pode deixar de admirar os magníficos mosaicos, até porque eles são a única fonte de luminosidade, colorida e sepulcral, aprofundando ainda mais a atmosférica sobrenatural e de religiosidade mística do interior. Atrás do altar há o "Pala d'Oro", um grande altar de ouro decorado com pedras preciosas. Mas não quisemos pagar os 6 euros para ver. Já tínhamos visto muita coisa e um altar a mais, um altar a menos, com 6 euros de cada um jantaríamos no Brek naquela mesma noite. Mas, com certeza, foi a catedral mais exótica que visitamos em toda a Europa.

Estupefaciados diante de tanta magnificência, seguimos para o objetivo seguinte: o palácio dos Doges, outra construção magistralmente impressionante, uma preciosidade gótica da arte veneziana. À beira do porto principal, o edifício é também chamado Palácio Ducal. Era a residência oficial do Doge, o chefe de Estado da República de Veneza, e abrigava as principais instituições políticas e judiciais: Senado, Conselho dos Dez (uma espécie de governo secreto), os tribunais e até as prisões. Funcionou como o coração político da república por mil e cem anos (697 a 1797). Esse prédio, que mistura elementos do gótico europeu, da influência bizantina e do renascimento, simboliza um estado onde nenhum governante tem poder absoluto. Veneza, na sua poderosa dominância marítima e comercial, era uma república com um sistema complexo de equilíbrio de poder não monárquico. Sua arquitetura aberta e cheia de colunas passa a ideia de transparência e ordem; e a fachada, famosa pelas colunas rosadas e pelo ar “leve” e refinado, mostra aos visitantes estrangeiros o poder, a ordem e a sofisticação da República Serenissima.

Em 697, Veneza já era um ducado governado por um doge. O doge era sempre escolhido entre os homens mais ricos, para evitar que ele pudesse se corromper, assim como é feito... no Brasil hoje em dia.... rsrsrs... Um conselho fiscalizava permanentemente o governante, e muitos foram assassinados em nome da probidade pública, ora vejam se a moda pega... Hoje, o palácio é um museu com algumas alas abertas à visitação. São salas enormes ou, melhor dizendo, salões. Visitamos a tal Sala dei Maggior Consiglio, onde as pessoas sentam-se em enormes bancos encostados nas paredes e ficam admirando o teto, as paredes, os lugares que eram reservados às autoridades, as pinturas colossais. É um momento de contemplação profunda. Dá pra imaginar o salão cheio de nobres discutindo ruidosamente os destinos da Europa...
Seguindo o trajeto determinado pela visita, se passa por armarias magníficas. É arma de tudo que é época. Espadas, floretes, arcabuzes, pistolas, canhões, armaduras, armaduras até para cavalos, capacetes, malhas de aço, catapultas, o diabo em matéria de matança e defesa... Dali você desce para as prisões do palácio, de onde um certo Giovani Jacopo Casanova (1725 -1789) protagonizou uma espetacular fuga da até então inexpugnável prisão dos doges. Para quem não conhece este senhor, ele aproveitava a época do Carnaval, com seus Bailes de Máscaras, seduzia e raptava (dizem que elas também não ofereciam muita resistência) as mulheres dos burgueses para manter relações inconfessáveis.
O julgamento acontecia no palácio e, se condenado, o vivente era conduzido às prisões, que ficavam do outro lado de um canal. Para chegar lá, atravessava-se uma ponte onde, segundo a lenda, o prisioneiro exalava seu último suspiro como alma livre (iria passar os próximos trocentos anos encarcerado num buraco escuro, úmido e imundo). Esta ponte imortalizou-se como a "Ponte dei Sospiri" (Ponte dos Suspiros). Teve até uma novela (do Dias Gomes) aqui no Brasil, com a Yoná Magalhães e o Carlos Alberto como protagonistas principais. Quem tiver cento e vinte anos de idade vai lembrar.

Finalizamos Veneza visitando uma de suas principais atrações, o Museo del Vetro em Murano, uma ilha perto de Veneza. Murano abriga diversas fábricas de vidro e o Museu. Em todas as vitrines de Veneza assiste-se um show de formas e cores que se expressam através do artesanato em vidro. São lindíssimas as peças e a vontade é ter uma montanha de dinheiro para decorar a casa inteiramente com estas peças de deixar qualquer um boquiaberto. Chovia muito quando pegamos o vaporetto e, depois de umas 6 paradas, chegamos a Murano. Realmente há algumas peças sensacionais no museu (tem uma mesa enorme onde tudo é feito de vidro como se fosse uma cidade de vidro, são umas duzentas peças num conjunto só. E isso foi feito lá pelos idos de mil oitocentos e pouco. Umas peças têm mais de 500 anos, outras têm mil anos e outras (meio sem graça, porque são muito simples) são até pré-históricas. E acabou. O museuzinho é bem mixuruquinha. A Maria saiu uma arara eriçada de lá porque a moça que guardava pertences na rouparia botou luvas para pegar o casaco dela, como se fosse pegar lepra por isso. Estávamos meio andrajosos, mas também não era pra tanto, né ? Essa impressão ficou colada vários dias na mente da Maria e ainda hoje ela solta fumacinha quando lembra desse episódio. Com um pouquinho de paciência veríamos alguém produzindo uma peça de vidro ali mesmo, na hora, mas tirei a Maria de lá rapidinho, antes que a atendente sofresse um atentado fatal.

Voltamos rapidinho ao Villa Rosa, naquele bequinho da Cannaregio, prontos para o banho, jantar e naninha. Porque amanhã temos um trem para Salzburg, the Mozart’s Sound of Music City!



































































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