top of page

015 | Os canais de Veneza

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 16 de mar. de 2025
  • 7 min de leitura

Dia 15 - 11 de janeiro de 2008 – Itália / Florença > Veneza


Da Estação Firenze Santa Maria Novella até a Estação Santa Lucia, a principal estação de Veneza e que fica na parte insular da cidade, já dentro da área dos canais, leva-se, aproximadamente, duas horas e 10 minutos viajando pelo trem de alta velocidade Freccioarossa. Você desembarca no Cannaregio, o bairro mais ao norte da cidade, de onde se ramificam antiquíssimos caminhos conduzindo até a Piazza San Marco, o coração cultural e administrativo da charmosa cidade das gôndolas.


O trem faz um passeio absolutamente deslumbrante pelas pradarias da Toscana, com suas belíssimas colinas e vinhedos encantadores. Passa por túneis atravessando a cordilheira dos Apeninos, cadeia de montanhas entre Florença e Bolonha, o que torna esse trecho menos panorâmico do que se gostaria porque... Meu Deus, há muitos túneis, pode crer. Após Bolonha, a paisagem muda para campos planos e passa por cidades históricas como Pádua. O momento mais bonito é o trecho final, quando o trem atravessa a Ponte della Libertà, uma longa ponte sobre a laguna, oferecendo uma vista incrível da cidade de Veneza se aproximando. Se você gosta de paisagens, vale sentar-se do lado esquerdo do trem para ter uma vista fantástica ao aproximar-se da estação final. Chegando lá, você desembarca no Cannaregio, o bairro mais ao norte de cidade.

Descemos do trem e fomos procurar nosso hotel (brrrr ....). Seria a terceira rua à esquerda saindo da estação. Falando assim é barbada, né ? Mas a gente olha para as ruas e pensa: mas será que isso é uma rua ou é uma entradinha secundária? um bequinho? As ruas são simplesmente minúsculas e você tem que rever todos os seus conceitos em termos de urbanização quando caminha em Veneza. Tudo bem, achamos a rua. Aí procura-se o número do prédio do hotel. Claro que os números não correspondem aos números que você  está considerando... sei lá se através dos séculos foi-se colocando uma numeração em cima da outra, mas é uma confusão dos diabos. Só achamos o hotel porque vimos a placa.



Devemos, grosso modo, a fundação de Veneza às invasões dos bárbaros no século V. Entre eles, Átila, rei dos hunos, representante máximo dessa mudança da antiguidade para a Idade Média. Saiba que foi para o germânico Odoacro que, em setembro de 476, o último líder da outrora poderosa Roma, Rômulo Augusto, entregou o controle da capital do Império. Daí você lembra daquela clássica divisão na demarcação das eras históricas, né? 476 DC – queda do Império Romano do Ocidente. Então. Agora o que você não sabe é que o temor das invasões bárbaras fez com que os habitantes de uma importante cidade da Itália na época, chamada Alquiléia, fugissem e se refugiassem naquelas ilhas pantanosas do Lido, uma laguna protegida por bancos de areia na beira do Mar Adriático.

Foi por esse motivo que se iniciou a construção de uma das mais lindas e charmosas cidades da civilização ocidental, num lugar completamente improvável e indócil. A laguna, que como vocês sabem, é formada por água salobra, tem uma extensão de 550 quilômetros  quadrados e 118 ilhas a poucos centímetros do nível do mar. Mas não há limites para a loucura humana e foi com uma inflexível obsessão que os venezianos enterraram um bosque inteirinho na lama e no barro da laguna para sustentar a cidade sobre milhões de palafitas, troncos afilados como lápis gigantescos. Os venezianos foram buscar troncos de 8 metros até na regiões onde hoje ficam Montenegro, Eslovena e Croácia, ávidos pelo desafio monumental que se havia descortinado. Mais adiante, completariam os vãos entre os troncos com pedras, aumentando ainda mais a estabilidade das fundações. E o mais impressionante é que os troncos nunca apodreceram, pois sendo salobra a água e sem a presença de oxigênio, a madeira nunca entrou em contato com bactérias, fungos e outros organismos que provocam a sua putrefação. Inclusive, os minerais que circulam por essas águas acabaram por petrificar os troncos nelas submersos.



À medida que a cidade crescia, com as ilhas interligando-se por pequenas pontes, os venezianos foram tornando-se uma potência naval, administrando o maior porto de ligação entre o Ocidente, o Oriente e a África.  Veneza foi fundada em 421 desta Era, permanecendo, por séculos, sob o controle do Império Bizantino. No século VIII a cidade se livra dessa tutela, tornando-se um estado autônomo e autoproclamando-se a “Serenissima Repubblica di Venezia”, dirigida por um "Doge". Veneza é proclamada como a cidade mais romântica do mundo, mas pouca gente sabe que ela foi também o berço do capitalismo moderno. Possuía uma das maiores frotas navais da Europa - o que lhe permitiu o controle de inúmeras rotas comerciais entre Ocidente e Oriente. A partir de 1204, quando a 4ª.Cruzada toma Constantinopla, a "Rainha do Adriático" torna-se o poder dominante na região, ponto de intercâmbio cultural e comercial entre Ásia e Europa. E, em meados de 1500, a cidade atingia seu apogeu. A "Cidade Flutuante" só perdeu a sua independência com a Era Napoleônica, mesmo assim, a República veneziana durou mil anos, só para ter uma ideia do poderio da cidade.

Essa pujança comercial se expressa ainda hoje quando você caminha pelas ruas da cidade e observa as vitrines das lojas. A cidade parece um imenso shopping a céu aberto, com um caminho principal constituído por ruelas, pontezinhas, pequenas praças, becos, túneis, vielas, trapiches, e trilhas por onde uma multidão vai caminhando até chegar à Piazza San Marco. A variedade de coisas à venda: lembrancinhas, móveis, antiguidades, pães, bolos, vinhos, enfeites, sanduíches, sorvetes, eletroeletrônicos, etc, etc, etc é simplesmente absurda. Eu tirei inúmeras fotos destas vitrines só para se ter uma noção da imensa variedade de produtos que se pode comprar na cidade. Os venezianos são especialistas em vitrines, também, e há até avisos expostos: "NO PHOTOS, PLEASE!", para que não se copie o design.



É tida como uma das cidades mais caras da Europa. Mas não é bem assim, diria que é uma república  de comerciantes. Levamos um pequeno aviso logo na chegada. Logo que chegamos, como sempre fazíamos, procuramos o grande "i" (símbolo universal da existência de um escritório de informações turísticas, normalmente localizado em estações de trem, ônibus, aeroportos, etc). Achado o tal escritório, tivemos que pagar 3 euros por um mapa da cidade que, em outras cidades, sempre foi grátis. Noutra ocasião, ficamos supercontentes em comprar um relógio de pulso muito legal, bonito e transadinho numa lojinha. O gajo que nos atendeu, com quinze metros de cabelo entrançado, falava nada menos do que 7 línguas, e conversou conosco gentilmente em português. Saímos da loja encantados com o atendimento do cara e levamos o relógio por 15 euros. Andamos uns cinco quarteirões e vimos, em outra vitrine, o mesmo relógio por 10 euros...

Ao sair da estação Santa Lucia, você dá de cara com o grande canal (Canale Grande), a "rua líquida principal" de Veneza, onde encontramos uma grande confusão de gôndolas, vaporettos (ônibus fluvial), "táxis aquáticos",  canoas, barcos, gente gritando, gente correndo, gente caminhando.

Você chegou em Veneza.

Tudo leva a crer que você está na cidade mais diferente das que você já viu na vida. E é isso mesmo. Começa que você olha o mapa da cidade e parece que só pegando um vaporetto para  chegar até a Piazza San Marco. Mas na verdade, toda a cidade é interligada por pontezinhas sobre canais, e seguindo o fluxo, como já disse, quando você se dá conta... vê que já está na Piazza. Detalhe para  quem não sabe: carro ou qualquer tipo de veículo convencional não entra nas ruazinhas de Veneza.

Outra coisa interessante é que você  olha aqueles prédios do séc. X, XI, XII, sei lá de quando... e fica meio assustado. Será que o hotel está caindo aos pedaços que nem a fachada ? Aí você  entra no prédio e não tem nada a ver com a fachada, é tudo bonitinho, organizado, limpinho, decoradinho, parece um kinder-ovo arquitetônico. E a cidade é  toda assim, os prédios parecem horrorosos por fora, mas você  entra neles e é um 'brinco" por dentro...  alguém aí do século XXI não conhece essa expressão? Precisei descarregar as fotos da minha câmera num DVD para liberar espaço e entrei numa dessas lojas caindo aos pedaços por fora. Por dentro era uma loja supermoderna, cheia de equipamentos de última geração (essa expressão é braba, hein? mas eu não sabia mais o que botar...), gente super-atenciosa e com muito know-How tecnológico. Imagino que essa "antiguidade" dos prédios seja para  manter a atmosfera antiga de Veneza, daí o seu charme. E não sentimos nenhum cheiro ruim vindo dos canais, no máximo um odorzinho vindo do Mercado de Peixes, e isso só quando chegamos bem perto dele. O problema eram os mosquitos... tinha mosquito resistente ao frio, acreditam? Passei uma noite de INVERNO matando mosquitos!!... ao invés de... hmmm...

Na arquitetura de Veneza se encontram elementos góticos, bizantinos, românicos, flamengos e clássicos. No início, os palácios foram construídos segundo modelos orientais, tornando-se cada vez mais luxuosos. Em seguida fizeram novos palácios decorados por artistas como Tintoretto, Ticiano, Georgione e Veronese, ilustres moradores da Cidade das Máscaras. Veneza possui 150 canais e 400 pontes, atingiu o seu apogeu no século XV, como já disse, a República Sereníssima existiu por mil anos. Daí dá para  se imaginar o estado dos prédios... Mas... Quartinho bacana, bem instalados, banho tomado, cabelo penteadinho, saímos a caminhar pelas ruas. Baseados num hotel chamado Villa Rosa (muito bonzinho e simpático, café legal, quarto direitinho, banheiro sem pegadinha), na chamada região Cannaregio, aquela perto da estação.

Era só sair do bequinho e pegar a rua principal – que aqui em Porto Alegre seria chamada de bequinho – e escolher uma direção. Decidimos seguir o fluxo dos caminhantes. E claro, já ir anotando os restaurantes mais baratos, os lanches mais legais, onde iríamos comprar nossas lembrancinhas (esqueçam o reloginho, por favor). E no caminho fomos olhando as vitrines, as lojas, o comércio em geral. Quando vimos, já tínhamos chegado à ponte Rialto, onde fica o famosíssimo Mercado Rialto. Aí me dei conta... não vamos precisar pegar nenhum barco para  chegar à Piazza San Marco, existe uma "trilha" terrestre até lá. Estava escuro já e decidimos voltar, deixando a Piazza de San Marco, a Basílica e o Palácio dos Doges para o dia seguinte. 




Na entrada do hotel, falamos com um casal de belgas que estava tentando achar outro casal para  dividir o passeio de gôndola, que sai por não menos de 80 euros. Um amigo, que foi na mesma época que nós, disse que pagou 100... hihihih... como eu disse, não é uma cidade para principiantes nas artes do comércio. Dormimos como anjinhos não sem antes comprovar a natureza romântica da cidade... entendam... sem crianças, a viagem foi uma verdadeira lua-de-mel. Quando os mosquitos deixavam.

 




Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page