014 | Eppur Pisa si muove!
- rpegorini
- 9 de mar. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 10 de mar. de 2025
Dia 14 - 10 de janeiro de 2008 – Itália / Florença > Pisa > Florença
No dia seguinte pegamos um trem e fomos conhecer Pisa. Para conhecer a cidade de Pisa, berço de Galileu Galilei, leva-se apenas uma hora de trem saindo de Florença, e acredite, é um programa obrigatório. Caminhando pelo centro de Pisa, compramos um Kebab, típico sanduíche turco de carne que se encontra em praticamente toda a Europa e passamos pela Ponte Mezzo, sobre o mesmo rio Arno que corta Florença.

A cidade do homem que enfrentou a Inquisição e, espertamente, salvou a sua vida e a sua história para a posteridade. Não se trata apenas de privilegiar a experimentação, ao invés de dobrar os joelhos ante dogmas canalhas pré-estabelecidos. Advertido em 1616 pela Inquisição, que declarou o heliocentrismo herético por desafiar a Bíblia e a visão oficial da Igreja no século XVII, Galileu publica em 1632 o Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, onde sua admiração por Copérnico transbordava em cada página do livro. Quem não gostou nada dessa molecagem foi o Papa Urbano VIII – aqui temos um notável desacerto entre nome e personalidade ج, ainda mais que Galileu trazia no livro um personagem chamado Simplício, ridicularizando a posição geocentrista. Para evitar a tortura ou uma pena mais severa, Galileu, como vocês sabem, teve que negar publicamente que a Terra circulava pelos espaço movida por forças gravitacionais obedientes à matemática e não à fé humana.
A cidade simboliza o conflito entre ciência e dogma religioso. No entanto, também reflete um momento de transição na história do pensamento, onde o método científico começou a desafiar verdades estabelecidas por tradição e autoridade. Hoje, Galileu é considerado um dos pais da ciência moderna e seu trabalho foi fundamental para a física e a astronomia. Embora não haja confirmação científica, Pisa foi o palco da famosa frase “Eppur si muove!”, sobre o movimento da Terra, que Galileu teria dito após renegar a Ciência na ponta do cadafalso. A Era da Inquisição passou, como todas as infernais mentiras da humanidade, mas a verdade de Galileu permanece sólida e consistente quatrocentos anos após a sua trajetória terrestre.
Pisa, portanto, é um monumento à Ciência, e lá encontraremos, em máxima efervescência cultural, a Universidade de Pisa, fundada em 1343, uma das mais antigas da Europa, referência mundial em ciências e tecnologia. Não admira que lá tenha surgido alguém como Galileu. E a cidade identifica-se com muito orgulho como um centro universitário, onde em cada esquina você pode estar passando pelo próximo Galileu Galilei da Itália. Como se não bastasse, Pisa abriga ainda a Scuola Normale Superiore, fundada por nada mais nada menos do que Napoleão Bonaparte, a qual continua sendo considerada uma das melhores instituições acadêmicas da Europa. Muito respeito, portanto, quando estiver caminhando por essas ruas enganadoramente provincianas.

Dez minutos de caminhada e chegamos à Piazza dei Miracoli, declarada Patrimônio Mundial da Unesco, em 1987, devido ao seu valor artístico e histórico. É um enorme gramado com três construções brancas, imponentes e majestosas, formando um complexo harmônico belíssimo: a Torre de Pisa (Campanile do sino), a Catedral de Pisa (Duomo) e o Batistério. Todos construídos em mármore branco lembrando o padrão da Sta. Maria dei Fiore. Cuidado. É um sutil engano que se desfaz com um olhar mais cuidadoso. O Complexo inclui ainda o Camposanto Monumentale, um cemitério assim chamado porque se refere à crença de que o solo usado no cemitério foi trazido da Terra Santa durante as Cruzadas. E isso nos dá oportunidade de falar da importância de Pisa como uma das quatro potências marítimas da Itália nos séculos XI e XII, tempos de Guerra Santa (com uma consequente e fantástica troca de influências científico-culturais entre Ocidente e Oriente), ao lado de Veneza, Gênova e Amalfi. Seu poderio estendia-se por todo o Mediterrâneo, controlando rotas navais, estabelecendo colônias e influenciando o comércio com o Oriente Médio e o norte da África. Aqui, portanto, está a chave para o desenvolvimento econômico e, por consequência, cultural e científico da cidade, trazendo novidades do Oriente e da África que possibilitaram “sair da caixinha religiosa” que teimava em produzir gerações de velhinhas inocentes atacando os hereges com Bíblias embaixo do braço.



Mas, naturalmente, há provações incontornáveis a se cumprir nessa vida e onde houvesse degraus a subir lá estaríamos nós, o casal de ferro, prontinhos para uma escalada. Subimos a Torre, magnificamente branca, desbotada pelos séculos e que ainda abriga o sino que lhe apelidava de torre sineira antes de ficar famosa pelo sua notória inclinação, já percebida quando o terceiro dos seus projetados oito pisos ainda estava sendo construído em 1174 (!). Tentaram compensar a inclinação aumentando a altura dos andares no lado mais baixo. Piorou porque o excesso de carga amplificou o defeito. Desde então, vem-se travando uma batalha entre gravidade e teimosia humana. O grau de inclinação tem se mostrado estável desde que uma caída de 2,5 mm numa só noite, em 1995, detonou um esforço desesperado para salvá-la que parece estar dando certo. Descobertas arqueológicas mostram que o porto da cidade era muito maior em tempos remotos, acusando a presença de um estuário bem maior do que o atual, o que explicaria seu tipo de solo.
A solução, que parece meio estrambólica, tem sido extrair terra do lado norte da torre para balancear o ângulo. Em 2001, foi reaberta à visitação pública. A torre passa por processos constantes e multifacetados de restauração. Exemplo: placas do mármore original, já bastante poroso, vão sendo gradativamente substituídas por novas placas exatamente iguais, mas de uma densidade bem mais alta para evitar a rápida degradação da sua fachada. Pode-se observar a "moleza" do mármore antigo no afundamento dos degraus provocado pelas pegadas das pessoas subindo suas escadas. Imagine quantas pessoas já pisaram nestes degraus.
Lá de cima, impressionantes detalhes das obras arquitetônicas ao lado se revelam, num capricho matemático que lembra muito a arte moura. E não esqueça que a Torre foi o lugar de onde Galileu atirou dois objetos com pesos diferentes para observar qual chegaria primeiro ao chão. A ideia era testar a teoria de Aristóteles, que afirmava que objetos mais pesados tendem a cair mais rápido que os mais leves. Galileu demonstrou que, independentemente do peso, os objetos caem com a mesma aceleração. E sendo verdade ou lenda, o que fica de importante MESMO aqui é que Galileu acabava de introduzir um preceito fundamental na Ciência: a experimentação científica, uma mudança extraordinariamente simples e fundamental na forma como os procedimentos científicos deveriam ser comprovados. Isso influenciou diretamente outros “protocientistas”, como Newton e outros ligados à formulação da Lei da Gravitação Universal. Simplesmente baseando-se na observação e no experimento em vez da autoridade cega às ideias dos filósofos e teocráticos antigos. Percebem como esta é uma época de grande “desamarração” das ideias predominantes?

Ao descer da Torre, ouvi o guardinha que pegava os ingressos falando com um grupo de turistas num português perfeito. E não era de Portugal, era português brasileiro mesmo... Já cheguei interrogando: "Tu é brasileiro ???"... O cara disse que não, que havia morado algum tempo no Brasil, onde tinha aprendido a falar quase que sem sotaque. Retruquei: "Bah! mas tu fala muito bem a nossa língua!"... Todo mundo caiu na gaitada, porque o meu "Bah!" foi tri-espontâneo e me denunciou na hora. "Olha o gaúcho!!!" Os turistas brasileiros disseram. Aí outro brasileiro que estava por perto largou a mancada: "E o que tu foi fazer no Brasil ? Estudar ?"... O guardinha olhou pro brazuca com cara de pena: "Meu amigo... O que é que eu iria estudar no Brasil ?"... O pessoal ficou sem resposta na hora, um tanto desconcertado, e logo se distraiu com outros passeios e compras. Mas depois, sob algumas circunstâncias e situações que lá passamos, eu pensava sobre esta resposta que afundou faringe adentro naquele momento: "Ora, temos algumas coisas para ensinar, sim... Civilidade, por exemplo.”

Pisa ainda tem um museu bacana, muralhas romanas bem conservadas e é uma cidade que transpira um ar meio vitoriano, com seu astral de cidade universitária. Só para fechar esse assunto, aqui vai um “enxerto” puxado da Wikipedia: “Descobertas arqueológicas recentes revelaram a existência de um grande porto fluvial da época romana no seu subsolo. Nessas descobertas foram encontradas mais de 30 embarcações de vários modelos, algumas delas intactas e ainda com a mercadoria que transportavam, tendo se recuperado muitos objectos. Tal facto deve-se a conservação possibilitada pelos sedimentos depositados ao longo do tempo pelo Rio Arno. Há 20 séculos o estuário encontrava-se a 4 km do mar o que fazia do Porto das Maravilhas o maior porto romano, só igualado na sua importância pelo porto de Ostia, perto de Roma; actualmente a cidade encontra-se a 17 km do litoral. Acredita-se que a inclinação da famosa Torre de Pisa se deva ao facto de lá ter existido mar ou um estuário maior que o actual.”
Voltando a Florença, ainda deu pra visitar o Palazzo Degli Uffizi, outro palácio magnífico onde vimos várias obras-primas, entre elas "L'Annuciazone", de Da Vinci, "Nascita di Venese" e "Allegoria della Primavera", de Boticelli e "Sacra Famiglia", de Michelangelo. Mas um autor que eu não conhecia e me encantou muito foi Gherardo delle Notti, o cara que mais me impressionou no domínio do claro e escuro e na perfeição da expressão da luz. Os quadros dele me lembraram muito os hiper-realistas. Parecem fotos tiradas à noite, só que com uma expressão artística sensacional. Aqui um pequeno documentário sobre ele, dá para colocar legendas traduzidas se você configurar direitinho. https://www.youtube.com/watch?v=Hj6Hm3O8iqU

O Palazzo Degli Uffizi levou vinte anos para ser erguido, de 1560 a 1580, obra do arquiteto Giorgio Vasari a pedido do Cosimo I de Médici, sim o mesmo que mandou trocar açougues por joalherias na Ponte Vecchio. Tem esse nome por abrigar os escritórios administrativos (Ufizzi) do governo florentino. Sim, isso bem depois do Signoria, que foi iniciado em 1299 e finalizado em 1314, ou seja, o Ufizzi nasce duzentos anos depois. O Ufizzi testemunhou o gradativo declínio do poderio da família Medici, até que, em 1769, a Grã-Duquesa Anna Maria Luisa de Médici doou toda a coleção ao Estado da Toscana, garantindo que as obras permanecessem em Florença e fossem abertas ao público, e em 1865 foi oficialmente transformado em museu.
O dia foi bem cheio, conhecemos Pisa e ainda exploramos Florença como se não houvesse renascimento do sol no próximo dia, mas aguentamos no osso e nos auto-presenteamos com um lauto jantar regado a vinho florentino... Eita mundo bão! Preparando para nos despedir da Itália apreciando a pérola do romantismo ocidental. Próxima parada: Veneza.
Ciao Veneza!

























Ótimo relato! 👏👏👏 Lembro de ter acompanhado essas tuas crônicas europeias anos atrás em outra plataforma. Por coincidência, recentemente também referi essa poderosa frase supostamente proferida por Galileu. Na infância, soube dessas experiências dele na Torre em uma revistinha do Pateta (“interpretando” Galileu) antes de aprender sobre elas no colégio, rsrs. Abraço e parabéns. (Leo)
Adorei “rever” Pisa, lendo sua crônica, percebi o seu olhar atento e suas ótimas descrições do que vivenciou e permanece armazenado no coração.