013 | O Davi de Florença
- rpegorini
- 22 de fev. de 2025
- 7 min de leitura
Dia 13 - 9 de janeiro de 2008 – Itália / Florença
No outro dia, bem cedinho, lá estávamos nós subindo os 342 degraus até a cúpula da Santa Maria dei Fiori. Pelo menos não tinha ninguém buzinando atrás como na basílica de Roma. Lá de cima, tivemos uma visão impressionante da cidade e da torre ao lado, o Campanile (campanário) de Giotto. As perninhas latejando, mas felizes por proporcionar aos nossos olhos aquela vista sensacional da cidade. Pensei em lançar a ideia de subir também o campanário (mais 414 degraus), mas a patroa me fuzilou com olhos de ódio que abortaram a ideia no berço, fizeram-na vaporizar na bruma dos tempos e sumir completamente sem deixar vestígios. Gente casada há trinta anos é assim: você pensa e a alma gêmea aprova ou não, tudo isso sem dizer uma só palavra.


A construção do Campanile de Giotto teve início junto com a Catedral ao lado: seus alicerces foram escavados a partir do ano de 1296. Projetado para ter uma altura de 110 metros, pararam de subir os andares quando chegaram aos 85 metros. Dizem que Giotto “morreu de dor”, em 1337, por não ter desenhado corretamente os fundamentos estruturais necessários para que os construtores chegassem à altura desejada do projeto original. Parece que, como engenheiro, Giotto era um excelente pintor.
Certo é que a obra passou por vários percalços, tanto na concepção como na edificação. O mestre que sucedeu Giotto, Andrea Pisano, também famoso por erigir a porta sul do Batistério pertencente ao complexo da catedral, cometeu várias incorreções tanto no projeto como na execução da obra, e eis aí mais um motivo para não estarmos tão entusiasmados em subir seus 414 degraus. Depois de Pisano, veio a peste negra, com seus piores anos entre 1347 e 1351, dilatando o vácuo entre o início e o fim da construção, efetivada por Francesco Talenti, arquiteto de verdade que ajudou também a expandir a Catedral, introduzindo elementos góticos nas duas maravilhas florentinas, deixando-as tal como conhecemos hoje.
Ao lado, no Museu Barghello, havia uma exposição sobre Leonardo Da Vinci... Claro que isso atiçou nossa imaginação, pagamos os 6 euros da entrada e subimos para ver a exposição. Roubada! Entenda: toda viagem tem suas roubadas. E essa foi mais uma na nossa inexperiente primeira viagem europeia. Fora alguns croquis, maquetes e protótipos de escultura que nunca foram executados (Da Vinci era gênio, mas era também meio vagal, deixou um monte de projetos inacabados). Nos colocaram a ver um videozinho sobre a vida do Leonardo e acabou a exposição. Saímos dali meio frustrados... Cuidado com essas espertezas... A Itália está cheia delas.
A próxima visita seria à Galleria dell’Academia, onde está o Davi de Michelangelo, uma das obras mais perfeitas do mundo. Com seus 5,17 metros, ela pode ser visitada bem de pertinho e ser apreciada de todos os ângulos, ao contrário da Pietá, na Basílica de San Pietro, em Roma, que só pode ser vista de longe. Isso porque, em 1972, um louco invadiu o espaço da estátua e a martelou em diversos lugares gritando "Eu sou Jesus Cristo ressuscitado!"... Levaram anos para restaurar a Pietá. Não é permitido fotografar o Davi, sabe-se lá por que, talvez isso corresponda a apologizar marteladas virtuais.

A escultura é uma das obras mais importantes da história da arte e um ícone do Renascimento. Sua relevância se estende tanto no campo artístico quanto no contexto histórico e cultural. Michelangelo estudou profundamente a anatomia, criando uma escultura detalhadamente realista, baseada no estudo do corpo humano. O Davi apresenta músculos, veias e proporções harmoniosas, destacando o domínio técnico do artista e também concretizando a escalada inexorável (a partir do renascimento) da Ciência. Driblava-se aqui o jugo despótico e inquisitorial da Igreja Católica, que impedia o “sacrilégio” de usar o corpo humano, uma “propriedade particular divina”, como peça de estudo e dissecações – dizem que muitos cadáveres foram roubados das criptas nessas épocas para possibilitar o estudo anatômico “in loco”. Davi foi esculpido em um único bloco de mármore de Carrara, que já havia sido rejeitado por outros artistas por apresentar falhas, mas Michelangelo conseguiu contornar as imperfeições da pedra e transformá-la em uma obra-prima.
O Davi marca um dos pontos altos do Renascimento, enfatizando o retorno ao estudo da anatomia, da perspectiva e da escultura clássica greco-romana e influenciando gerações de artistas, inspirando obras posteriores no Maneirismo e no Barroco. Até hoje, o Davi de Michelangelo é considerado um dos maiores símbolos da perfeição artística, sendo reproduzido e estudado mundialmente. Florença via a si mesma como uma cidade pequena, mas poderosa, desafiando grandes reinos (assim como Davi contra Golias). O Davi representava o espírito de resistência e liberdade do povo florentino contra ameaças externas, especialmente contra os Médici e o domínio papal.
Encomendado pela Opera del Duomo de Florença originalmente para ser colocado na Catedral Santa Maria del Fiore, o Davi foi instalado na Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio. Mas, em 1873, para preservá-lo da ação do clima, intempéries e vandalismo, foi tomada a decisão de mover a escultura para um ambiente fechado e a Galleria dell'Accademia foi escolhida para abrigá-la. Em 1882, construíram uma cúpula especial dentro da galeria para expor o Davi com iluminação ideal e em 1910 foi colocada uma réplica no mesmo local onde a escultura original esteve por quase 400 anos. Assim, os visitantes ainda podem ver a imponente figura do Davi no espaço público, enquanto a original está protegida no museu.

Ao contrário do que se costumava fazer na tradição da arte da escultura ao retratar esse tema, Michelangelo esculpiu a imagem do jovem Davi representando-a ANTES do confronto com o gigante Golias, por isso suas feições tão tranquilas. Será mesmo que a gente fica assim tão zen antes de enfrentar um gigante feroz? A ver. Eu conto pra vocês quando achar um gigante louco pra me quebrar ao meio por aí. Há várias obras de arte na Academia, mas todo mundo dá uma olhadinha nelas "só-pra-não-dizer-que-não-olhou" e vai admirar o Davi. Inclusive existe lá um interessante museu de instrumentos musicais, apesar de pequenino. Acho que só eu estava interessado nisso aquele dia. A Maria já me olhava com aquele ar famélico (“Vamos?”), louca pra almoçar logo. Então tive que abandonar os instrumentos e o Davi e procurar um lugar rapidamente para abastecer o estômago, coisa mais mundana!
Depois da margherita, fomos olhar a Piazza dela Signoria, onde está o Palazzo Vechio della Signoria, o coração político de Florença, a partir de onde a cidade se desenvolveu. Na frente do Palazzo há outra cópia do Davi, e, no entorno, várias reproduções importantes, como "O Rapto das Sabinas" e "Cosimo I", de Giambologna, "A Fonte de Netuno", de Ammanati, e várias, várias outras. Dá para sentar ali e ficar horas observando uma por uma. Cada estátua dessas é um universo para apreciação. Se você gosta muito de arte, prepare um bom tempo para ficar descansando e viajando nessas esculturas. E aprenda comigo: “Signoria” não significa uma madame elegante com chapéu sofisticado, esse termo significa “sede do governo republicano de Florença”. Viram como os florentinos são charmosos em dar nomes fofos para as coisas sem graça da administração? Amei.
Ali tem outra torre famosa, a Torre de Arnolfo, com seus 94 metros de altura (visível por toda a cidade, como o campanário) e seus 416 degraus (2 a mais que os do campanário) que tivemos a graça de não subir também – até hoje as pernocas nos agradecem. Interessante contar também que Michelangelo e Leonardo da Vinci, contemporâneos e concorrentes, trabalharam no mesmo salão do Palacio Vecchio, criando murais. Eram tão rivais que, sabendo um das malandragens do outro, abandonaram suas obras e foram trabalhar em outros projetos... “deixa o outro lá no mural que tenho coisa mais importante pra fazer”. E o trabalho no Vecchio virou velhaco. Mas, mesmo assim, genial, não é mesmo? Não há quem não se encante com tanta genialidade reunida.

Falando em Vecchio, a Ponte Vecchio é outro marco da cidade que não pode ser desconsiderado de forma nenhuma, foi construída, originalmente, em épocas romanas, de madeira. Vendia-se carne lá, até que Cosimo I de Médici, Grão-Duque da Toscana, no século XVI, mandou trocar para joias o seu produto principal por causa do fedor e da sujeira que era jogada no rio Arno pelos mercadores. Há várias lendas sobre esta ponte. Uma delas é que a palavra "bancarrota" teve origem nela. Se uma loja (banca) ficava sem dinheiro para pagar suas dívidas, os soldados vinham e quebravam (rotto) a loja, numa prática que se costumou chamar bancarroto. Outra lenda diz que a ponte era cheia de cadeados. Os namorados vinham à ponte e lá deixavam um cadeado simbolizando sua união e jogavam a chave no rio... Pronto! Estavam encarcerados pela vida inteira! De tempos em tempos era uma trabalheira limpar a ponte de tantos cadeados. Até que baixaram uma lei proibindo o costume. Na época da nossa viagem, eu não vi nenhum cadeado lá... Dizem também que até Hitler mandou que se poupasse a ponte dos bombardeios da LuftWafe. Lendas à parte, a ponte é uma coisa muito interessante mesmo, com suas joalherias e lojinhas que parecem abertas desde a Idade Média.
Passando a ponte você vai dar no Palazzo Pitti, um edifício colossal na outra margem do Rio Arno. Há muitas chocolatarias do outro lado, e um sorvete florentino é uma coisa do outro mundo. Mas quando estávamos chegando ao Palazzo Pitti, havia um casalzinho, na frente do prédio, que estava mandando ver nos... desculpem os termos chulos... arretos e amassos... Cada vez que olhávamos para os dois, os sexonautas estavam experimentando uma nova combinação do Kama-Sutra sem se importar com os passantes ou com as crianças... Se é que eles se davam conta de que estavam na rua... Hehe. Eu queria experimentar esse troço que eles tomaram!
Dentro do Palazzo Pitti, onde é proibido tirar fotografias (que pena...) são trocentas salas com quadros, esculturas, vasos, espelhos, pratarias, cerâmicas, tudo vindo desde o século VIII (podem imaginar alguma obra de arte no Brasil que venha do ano oitocentos e alguma coisa ?). E tem Giotto, Tintoretto, Ammanatti, Leonardo da Vinci, e vários, muitos, outros artistas importantes da baixa Idade Média, quando a noção de perspectiva ainda não havia sido incorporada à representação pictórica. O Palazzo Pitti, projetado por Brunelleschi (ele de novo) para um banqueiro florentino chamado Luca Pitti, foi residência dos reis da Itália de 1865 a 1871, quando Florença foi a capital do país nos últimos anos de batalha pela unificação. E dá para se visitar uma ala do palácio chamada "aposentos reais" e se encantar com o luxo dos móveis, tapeçarias, a decoração real do quarto da rainha, da capela real, etc. É um absurdo a riqueza que tem lá dentro e você fica imaginando de onde terá vindo tanto dinheiro na época para custear um luxo destes. Alguma pista? Vou dar uma dica: o sistema bancário europeu tornou-se uma força poderosa a partir da administração da família Médici. E adivinha em que cidade moravam os Médici? Bingo!
Amanhã, Pisa!

















































Mergulhei na história de Davi e estendi um pouco mais meus conhecimentos sobre artes, graças ao seu texto, Mestre Ricardo. Gratidão!