012 | Florença - chegando
- rpegorini
- 16 de fev. de 2025
- 5 min de leitura
Dia 12 - 8 de janeiro de 2008 – Itália / Florença
Florença é a capital da Toscana (Já viram o filme "Sob o sol da Toscana"? As moçoilas românticas vão adorar), região central da Itália, berço do Renascimento italiano consagrado pelos trabalhos de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Brunelleschi, Boccaccio, Petrarca, Giotto, etc. Isso sem falar em Dante Alighieri, cuja Divina Comédia influenciou não só toda a literatura e o pensamento ocidental da época, mas também as artes plásticas, que tentaram dar um "rosto", uma fachada, uma forma estética aos conceitos revolucionários do florentino. A cidade foi governada muitos anos pelos Médici (século XV até XVIII), que no início até protegeram os judeus, mas cuja relação acabou se deteriorando com a implantação da inquisição italiana. Há uma sinagoga belíssima em Florença, a Templo Maggiore, uma das mais belas da Europa. Essa combinação "Médicis + tino comercial judeu" proporcionou uma riqueza tal para a cidade que atraiu para lá os mais importantes artistas da Itália na época para trabalharem para estes mecenas. E que obras esses gênios produziram, fazem-nos sonhar até nos dias atuais, impressionados por tanta beleza, refinamento e estudo. Sim, porque a evolução das artes estava também relacionada com a ciência, que começava a se descarnar dos grilhões intelectuais da Igreja.
Chegamos a Florença à tardinha. E de novo, bateu a paranoia do hotel. Era um prédio bem antigo e subimos até a recepção, que fica no segundo andar, coisa bem estranha. Bom, pelo menos tinha elevador - e elevador no qual cabia nós dois e mais a bagagem. Parece bizarro se preocupar que a pessoa caiba num elevador, você não acha? Mas viajante tem que estar preparado para tudo, acostume-se se quer viajar pelo mundo. Apresentamos o voucher e fomos para o nosso quarto. Cruzamos os dedos... Abrimos a porta... LEGAL!!! Um quarto bem bacaninha onde tinha até uma sacada esperta para apreciar o visual de Florença. Desmalamos as coisas, nos espraiamos no quarto e verificamos o banheiro. Lá estava a pegadinha.

Fora a pegadinha, o hotel era bem legal. Recomendamos. Hotel Cordova, Rua Camilo Cavour, 96. Atendimento simpático, café decente e instalações bem limpinhas. Descansamos um pouco e saímos para caminhar no final da tarde, sombras avançando pelas ruas de Florença, sentir o clima da cidade. Nossa rua (Cavour) leva até o centro da cidade e fomos caminhando, olhando as vitrines, as pessoas, nos acostumando com o ambiente florentino, com as pessoas caminhando, curtindo as vitrines e luzes da cidade, até que, saindo de uma viela estreitíssima, batemos de frente numa imensidão de mármore branco, verde e rosa. Não, não era um carro alegórico da mangueira. Era a catedral Santa Maria dei Fiore.


A catedral Santa Maria dei Fiore é uma obra de arte (feita por Brunelleschi, vencedor de um concurso público para este projeto), com seu domo, seu campanário (feito por Giotto) e mais o batistério (chamado de Batistério de San Giovanni), com suas famosíssimas portas de bronze, chamadas por Michelangelo de Portas do Paraíso). Todo o complexo é um registro do poder e da riqueza que em tempos medievais a cidade teve (sécs. XIII e XIV, sendo que a fachada só foi concluída no século XIX). É um desbunde total. Difícil de fotografar enquadrando-a inteira numa só foto porque ali as ruas são estreitinhas e estão sempre cheias de gente. Aliás, muitas ciganas em volta da igreja... Cuidado...
Estávamos diante de uma das maiores igrejas do cristianismo: 160 metros de comprimento, 43 metros de largura e 90 metros no transepto, altura interna da cúpula é de 100 metros. Trata-se de um símbolo que representa a riqueza e o poder da capital Toscana nos séculos XVIII e XIV. O seu nome vem do lírio, símbolo de Florença e do antigo nome da cidade, Fiorenza. Atualmente, o Duomo de Florença só fica atrás da Basílica de São Pedro no Vaticano, da Catedral de São Paulo em Londres, da Catedral de Sevilha e da Catedral de Milão. No entanto, na sua época, essa catedral era a maior da Europa, com capacidade para 30.000 pessoas. Só para ter uma ideia, o Duomo da Catedral levou seiscentos anos para ser construído totalmente, ou seja, deu de chapinha na Sagrada Família de Barcelona, com seus cem anos de obras. Começaram a construir a Santa Maria lá por 1296 e só conseguiram finalizar mesmo, mesmo, no século XIX. Foram utilizados aproximadamente quatro milhões de tijolos para a construção do domo que é, até hoje, a maior cúpula autoportante de alvenaria do mundo. Isso aí, vai no dicionário e procura lá “autoportante”... Tá bom, eu procuro pra você: “Que suporta o peso da estrutura; que se apoia nas extremidades, sem necessidade de asnas ou outras estruturas de apoio (ex.: estrutura autoportante, paredes autoportantes).” Ainda boiando? Bom, mastigando mais um pouquinho: É uma estrutura que não tem apoios centrais, não tem colunas apoiando o peso do objeto. A cúpula vermelha da catedral, com 45 metros de diâmetro e 100 metros de altura, era então a maior do mundo e logo se tornou o símbolo de Florença.
Pois saibam que, em meados do século XX, perto da entrada da Catedral foi descoberta uma passagem secreta até uma pequena cripta onde é possível ver o túmulo de Brunelleschi. Filippo Brunelleschi morreu em 5 de junho de 1446. Para o seu funeral, foi vestido de branco e colocado em um caixão rodeado por velas, com os olhos voltados para a cúpula que ele construiu tijolo por tijolo. Foi enterrado na cripta da catedral com uma placa de honra. Uma grande honra, já que naquela época os arquitetos eram considerados meros artesãos e não eram enterrados na cripta.
Chega de cultura. Nos aparvalhamos um pouco diante de tanta beleza, apesar da luz noturna ser fraquinha, fomos jantar, compramos um vinho pra tomar no quarto e telefonamos para as crianças pra matar as saudades. Agora um parêntesis sobre alimentação em Florença. Não funcionou a nossa estratégia (até agora bem-sucedida na viagem) de procurar restaurantes bem longe dos pontos turísticos. Por mais que nos afastássemos do centro, os preços continuavam equivalentes em qualquer lugar que fôssemos. Parecia que os preços estavam cartelizados. Um prato típico da região, a BRUSCHETTA (em maiúsculo pra não confundir as coisas) custava algo em torno de 10 a 15 euros. Sabem o que é uma bruschetta? Pode baixar a mão aí, Joãozinho... Bruschetta é uma fatia de pão de sanduíche (tá certo, uma ou duas fatias, e de um pão mais transadinho) cheia de tomate picado em cima com uns temperinhos estranhos. Agora convenhamos... 10 a 15 euros (30 a 45 reais na época) por pão com tomate é dose, né? Então ficamos quase que todo o tempo comendo pizzas Margherita, que era o prato mais em conta, uns 7 euros cada. E num restaurante aonde fomos à noite a dona nos serviu uma bisteca e macarrão com salada (mais o vinho deu uns 25, 30 euros) e ficou o tempo todo sentada na mesa ao lado, louca de medo de que saíssemos correndo porta afora sem pagar a conta. Isso que era só nós no restaurante da madona. Mas bem feito! Os restaurantes, todos meio cartelizados nos preços, estavam sempre VAZIOS. Ou não descobrimos onde a gente de Florença comia ou o pessoal comprava comida pra comer em casa ou no hotel. O que aliás era bem em conta, mercadinhos não faltavam e os preços eram bem interessantes, o que era caro era o guardanapo, a toalha de mesa, os palitinhos, a decoração dos restaurantes. Bem bonitinhos, mas carinhos. Roupas valiam o preço, a Maria comprou duas blusinhas por 2 euros cada. Superbaratas. O italiano veste-se bem. Deve ser porque o preço das roupas é baratíssimo. Não havia muito mais que caminhar, já era tarde e estávamos bem cansados. Fomos para o hotel, curtir aquele vinho, as palhaçadas na TV italiana, uma das mais bregas do mundo, e sonhar com Brunelleschi desenhando o projeto do Duomo da Catedral, com o carnaval florentino e com o museu de horrores do giorni nostri.

























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