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011 | Roma – Vaticano

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 9 de fev. de 2025
  • 6 min de leitura

Dia 11 - 7 de janeiro de 2008 – Itália / Vaticano



O Vaticano é um estado independente dentro da cidade de Roma. Aliás, é o menor estado do mundo. Se cair no vestibular do seu filho... hehe... você já sabe: "Qual é o menor estado independente do mundo?" pode cravar lá: VATICANO. Fica na zona norte de Roma, mas você enxerga a cúpula da Basílica de San Pietro de praticamente qualquer lugar da cidade.

O Vaticano começou a existir em 1929, por um tratado assinado entre Mussolini e o Papa Pio XI. Tem meio quilômetro quadrado de área e, pelo censo de 2005, 783 habitantes, sendo que alguns destes são a guarda suíça que tradicionalmente é incumbida de zelar pela segurança do lugar.  O termo “cidade do Vaticano” é referente ao Estado, enquanto “Santa Sé” é referente ao governo da Igreja Católica efetuado pelo Papa e pela Cúria Romana. O Estado do Vaticano, com o estatuto de observador nas Nações Unidas, foi admitido como membro de pleno direito em julho de 2004, mas não requereu direito de voto. Mais interessante ainda é a origem etimológica da palavra: Vaticano era uma figura da mitologia romana que abria a boca do recém-nascido para que ele pudesse dar o primeiro grito, o primeiro choro. Era também o nome de uma das sete colinas de Roma onde se erguia o Circo de Nero. Lá São Pedro foi martirizado e sepultado.



Tinham nos avisado que visitar os museus do Vaticano (sim, tem mais de um) é coisa para chegar cedo e estar com bastante fôlego para enfrentar horas e horas de caminhada pelos seus corredores labirínticos. São séculos e mais séculos de riquezas recolhidas e recebidas do mundo antigo (principalmente arte italiana), acumuladas num único local pela Santa Sé, distribuídas por vários departamentos temáticos: os museus. Lembre-se que a Igreja Católica dominou o mundo ocidental por praticamente toda a Idade Média. A influência política e social da Igreja Católica no mundo ocidental começou a crescer significativamente a partir do século IV e atingiu seu auge entre os séculos XI e XIV. Seu domínio começou a declinar a partir do século XVI com a Reforma Protestante e o fortalecimento dos Estados Nacionais. E também saiba que a “Sacra, Suprema e Universal Inquisição do Santo Ofício”, além de torturar e matar indiscriminadamente qualquer pessoa que causasse uma certa estranheza, também se apropriou das principais fortunas dessas pessoas e famílias processadas, acumulando coleções e obras particulares fantásticas por séculos seguidos. Outras fontes dos acervos do Vaticano foram as escavações arqueológicas, doações de mecenas e penitentes, e espólios de guerra.

Nós visitamos o Museu di Antichitá (com preciosidades greco-romanas, etruscas, fenícias, mediterrâneas de maneira geral); o Museu Gregoriano Egizio (onde se sacia de uma vez por todas aquela curiosidade lúdica ocidental por múmias milenares e mais uma montanha de relíquias egipcias); o Museu Pio Clementino, a Galeria degli Arazzi (um corredor cheio de tapeçarias gigantes nas paredes - imagine a importância desta arte em tempos imemoriais quando os salões eram imensos vazios limitados por tijolos frios e úmidos.



Alguns minutos de solene admiração ao passarmos pela Stanze di Rafaelo (onde está a famosíssima Escola de Atenas) e acabamos chegando, claro, na Capela Sistina. Mas espere. Antes disso, há um pátio central dominado por uma obra que é uma esfera metálica. Ali você recupera o fôlego, medita, olha o movimento... Depois você escolhe uma das portas e vai entrando, vai caminhando por corredores e salões, seguindo uma multidão imensa que vai se deslumbrando em cada sala com as pinturas magistrais, os objetos, as estátuas, os tetos pintados, as paredes decoradas. Parece que você vai voltando no tempo, as salas vão ficando cada vez mais escuras, mais arcaicas. As pinturas cada vez mais antigas, o foco cada vez mais complicado pra fotografar.


Até que você entra num salão cheio de gente. Mas cheio mesmo. Tem que se cuidar para não pisar no pé de alguém, colocar a carteira num bolso bem seguro, e principalmente: NO PHOTOS!! NO PHOTOS!!! Chegamos na Capela Sistina.

Os guardas suíços do Vaticano (vários deles) ficam o tempo todo circulando pelo salão, cuidando para que - pelo amor de Deus! - NINGUÉM tire uma fotinho sequer da obra-prima de Michelangelo. Nem sem flash! Não ouse!! Mas mesmo num escuro quase penumbra é impossível não se encantar com o salão da Capela. Como já disse, é como voltar no tempo. Dá até para imaginar os andaimes e um homem já meio corcunda pintando um dedinho aqui, uma barba ali, uma nuvem lá...

Depois dessa... retornamos à luz do sol e fomos visitar a Piazza San Pietro. Adivinhem o que tinha no centro da praça ? Quem respondeu "um obelisco" ganhou uma Torre Eiffel em miniatura. É só vir aqui pegar. Mas o complexo monumental que abriga a praça e as colunas foram arquitetadas pelo Bernini (de novo!!!!) no século XVII - Stendhal chamou este conjunto de  "a Arte da perfeição".


Na praça, entramos numa fila para subir na cúpula da basílica. Imaginem que são duas opções: com elevador ou sem elevador. Mas o elevador leva somente até o terraço da basílica. Até o topo da basílica tem mais uns 400 degraus (experimente subir 50 degraus sem parar. Agora multiplique isso por 8 e imagine que vem gente atrás de você, louca para chegar lá em cima antes de você). Mas chegando lá no topo, a visão é, para aproveitar o clima clerical, divina.





Voltamos para o térreo e entramos na catedral. Claro, é a igreja mais importante do mundo e querem que se tenha isso em mente sempre, a todo momento, de qualquer ângulo e em todos os lugares em que se esteja. Lá dentro, encastelando o palco central da catedral, o batistério de Bernini (de novo! de novo!!!), uma fantástica estrutura quadrangular esculpida em madeira escura no centro do altar com seus mais de dez metros de altura. Antes que eu termine este parágrafo não posso esquecer de dizer que lá está a Pietá, de Michelangelo, algo realmente assustador de tão belo e que nenhuma foto ou palavra consegue reproduzir nem em mínima proporção algo parecido com a admiração que ela desperta imediatamente. Coisa de gênio mesmo.



No último dia em Roma fomos visitar as catacumbas de San Calixto. Existem inúmeras catacumbas em Roma. San Calixto é apenas uma das mais famosas. Um argentino, senhor de  seus setenta anos, muito simpático, de fala bem doce e mansinha, que predicava um insistente "Deus é amor, não é o Deus do Velho Testamento", foi o nosso guia e contou coisas maravilhosas enquanto nos levava por aqueles corredores antiquíssimos, onde os cristãos perseguidos se refugiaram no início do império romano.



Ali aprendemos que muito mais vítimas da ferocidade e voracidade por almas e corpos destroçados do império romano do que os cristãos foram os gladiadores. 500.000 (quinhentos mil!!) gladiadores estão soterrados nos subúrbios subterrâneos de Roma (quando ainda eram subúrbios e por isso eram o local de descanso dos pobres romanos e dos pobres gladiadores, que muitas vezes nem romanos eram). E foi nessas galerias funerárias que os cristãos se refugiaram depois. Ainda hoje estão desenterrando e descobrindo novas galerias, até com enormes catedrais subterrâneas.

E vejam como a história segue caminhos imprevisíveis: saibam também que a religião católica (sim, essa mesma que se impôs sobre tantos reinos e feudos pulverizados antes das unificações nacionais) foi a fé que conquistou o coração dos soldados romanos, a camada mais singela e numerosa do poderoso Imperium Romanum ou Senatus Populusque Romanus (SPQR). Já que sua vida não tinha o menor valor, o discurso “cristianista”, que prometia uma outra vida, poderosa e celestial depois da morte gloriosa nos campos de batalha, conquistou o coração dos que partiam para outros países para morrer por Roma. Decidiam entregar suas almas a esse Deus, que Jesus abrandou infinitamente do Velho Testamento (no qual reinava aquele senhor barbudo muito brabo, poderoso, vingativo e rancoroso) com uma mensagem amorosa e de humildade. Os desfavorecidos herdarão o reino de Deus. Partiam convertidos, levando secretamente as mensagens e a teologia cristã. Graças ao predomínio dos exércitos romanos (e sua fundamentação cultural legada da civilização grega), a palavra de Cristo percorreu todos os países abatidos pela blitzkrieg latina, carregada nas mentes e corações da soldadesca, que praticava os ofícios religiosos mais ou menos secretamente conforme a cumplicidade possível dos seus centuriões. Assim, hoje pode-se mapear esse avanço da comunidade cristã conforme as conquistas romanas.


Conhecemos a Via Appia, uma obra monumental em seu tempo; hoje é uma estrada estreita de paralelepípedos. Só não esqueça que é uma estrada com dois mil anos de história. Naquela região bucólica, pode-se sentir o clima de uma Itália que parou de contar a passagem dos anos.  À tarde embrulhamos tudo de novo e na Termini embarcamos no trem para Florença. Partimos levando o peso dos séculos imperiais romanos no coração, tesouros, fé e sangue da humanidade.

 


2 comentários

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Convidado:
05 de abr. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Crônicas maravilhosas. Dá vontade de conhecer tais maravilhas tão bem descritas, com poesia e beleza.

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Emília
09 de fev. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Perfeito! Deu vontade de visitar.

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