008 | Vesúvio | Nápoles > Roma
- rpegorini
- 12 de jan. de 2025
- 6 min de leitura
Dia 8 - 4 de janeiro de 2008 – Itália / Nápoles > Roma


A estratégia de só ir para o hotel acompanhados pelo mais profundo cansaço deu muitíssimo certo. Em minutos eu destrancava a porta do banheiro (único lugar que consideramos seguro no quarto-penumbra-esmagante), puxava de lá nossas malas pra perto da cama, o que, pode acreditar, não significava distância nenhuma, nos enfiávamos num abrigo e camiseta pra tomar meio gole de vinho, duas mordidas num chocolate, revirar os zóinho e cair que nem panqueca no suspeitíssimo colchão. Acordar no outro dia e retomar aos pouquinhos a consciência do aperto é que era um crescendo sufocante. Mas ao menos o café do hotel era honesto e razoavelmente variado. Dava até pra improvisar nos planos do dia sentados degustando bolachinhas e biscoitos na mesinha da copa tranquilamente. E nessa manhã foi o que fizemos, incluindo o Vesúvio no roteiro. O Parco Nazionale del Vesúvio fica a poucos quilômetros de Nápoles e é atendido por uma linha de ônibus que vai escalando a encosta da montanha, varrendo uma curva atrás da outra, até chegar à sede do Parque. Em cada curva, uma escultura, um símbolo em pedra ou outra marcação pagã vai lembrando a sua mente de que você está adentrado território cuja alma remonta a um período pré-cristão.
Talvez Spartacus ainda esteja assombrando a trilha que você vai ter que fazer a pé logo que o ônibus da Circumvesuviana encoste na frente do escritório de madeira, ao lado dos banheiros pré-fabricados. Talvez tenha sido nesse mesmo ponto que Caio Cláudio Glaber, à frente de 3 mil moços ainda quase meninos, sem treinamento algum, achou que iria encurralar o líder gladiador. Gente muito esperta, Spartacus e sua turma coletaram montes de videiras selvagens que cobriam o topo do Vesúvio na época e com isso fizeram cordas com as quais desceram pelo outro lado do vulcão, e simplesmente massacraram o exército inexperiente que Roma, subestimando a situação, havia mandado para o sul da Itália para acabar com “aqueles vermes”.
Era um tempo de fome no império. 70 anos antes de Cristo nascer e Roma já era uma potência, dominando todo o mediterrâneo depois de pulverizar a única resistência capaz de lhe fazer alguma diferença na arrecadação: Cartago. Foi um tempo em que para cada três cidadãos romanos havia um escravo na população. De todas as conquistas, de todas as terras amansadas, de todos os povos arrastadas para a Itália ou para servir de escravo sexual, para afazeres domésticos ou para morrer no trabalho duro ou nas arenas de toda boa cidade romana que se preze, vinha essa gente amaldiçoada. E haja comida para tantos, quando a própria classe mínima romana perdia suas terras e a despensa para o inverno para os grandes senhores de terra romana... peraí... já não vi essa cena em outra(s) época(s) ?... Uma multidão de sem-terras iria se unir àquele camarada esperto que se escondia no vulcão, já que não havia nenhuma outra alternativa senão perambular pelas cidades concorrendo com outras multidões no esmolamento. Contando com tantos desesperançados, o exército do gladiador alcançou 90 mil almas em três anos de aventuras ítalo-sherwoodianas. Até que Roma se cansou da brincadeira, entregou 10 legiões a Crasso, desaposentou Pompeu, herói de guerra, e acabou matando Spartacus em batalha, depois de levar algumas surras não registradas nos anais militares centurianos. Seis mil remanescentes dos revoltosos, que sobreviveram aos combates, foram crucificados ao longo da parte da Via Appia que ia Cápua, cidade onde Spartacus começou o motim, até Roma.
Depois de pagar ingresso, só nos falta subir a trilha até o cume do vulcão. Lá embaixo, a vista de Nápoles de um lado, da baía Castellammari do outro, e das encostas da montanha decoradas com faixas de lava petrificada por outros lados vão ficando cada vez mais distantes até que fôlego começa a faltar um pouco, as pernas pedem uma paradinha estratégica e retoma-se o trekking forçado. No parque são oferecidas diversas modalidades de caminhadas orientadas, algumas com até 5 horas de duração. Coisa pra levar um dia todo e com alguma preparação de rango e coisa-e-tal. Eu e Maria subimos na boa, curtindo os primeiros contatos com a neve do inverno europeu – fiapinhos brancos aqui e ali agarrados no chão -, mas uma pessoa de certa idade já teria dificuldades para chegar na lojinha de souvenires lá em cima, instalada na borda da cratera.
Lanches, bebidas, quinquilharias e fotos. Parada panorâmica, a tradicional fotinho agarradinhos no topo do pesadelo napolitano e só então a paz pra olhar em volta. Vento forte nas alturas, a vista é de muitos quilômetros tanto mar adentro como no sossego quase profundo que é ver o mundo pisando 1280 metros acima do nível do mar e em companhia tão, diríamos, cataclísmica. Sim, adormecido agora. Mas e quem garante que o despertador do vomitador de lava não está prestes a tocar? E essas fumacinhas saindo da garganta do diabo ali ao ladinho? É normal?
Esse medinho abafado que a gente curte em silêncio pra não parecer uma velha medrosa fica pairando o tempo todo, mas o certo é que é um barato mesmo. E eu ia juntando alguma pedra com cara de pedra vulcânica aqui e ali pra depois levar pro Caio, todo orgulhoso de chegar em casa trazendo pedra vulcânica pro filho de um vulcão a milhares de quilômetros de casa. Não é o máximo que um pai pode querer? O orgulho do filho? Medo nenhum resiste a isso. Maria curtindo o friozinho, a vista, o horizonte quase infinito, e eu clicando obsessivamente a câmera, caçando um ângulo bacana dos paredões do monstro, as formações esquisitas da lava petrificada, a fumaça no bafo jogado ao céu, cada momento aproveitado e registrado num canto da memória. Talvez seja o espírito de Spartacus ainda a vigiar os paredões do vulcão, o único ainda em atividade na Europa continental, imbatível fênix tal como o mito, a lenda ou a história de um gladiador rebelde que bateu a mão no peito e disse um dia: “É comigo!”... ainda espreitando o império, metamorfoseado naquelas fumacinhas que brotam das rochas adormecidas do Vesúvio, quem sabe o velho dragão de fogo volte um dia.
De volta ao hotel, pagamos um refri que tomamos, resgatamos as malas e voltamos à estação de trens, dessa vez sem carregador nenhum a nos atormentar. Ainda estávamos meio desbundados por tantas facilidades de se viajar de uma cidade a outra usando um sistema tão organizado como o é o das ferrovias europeias. Nosso Eurailpass quase virgem, o que significava que o melhor estava por vir ainda: as viagens para a Áustria e da Áustria. Mas faltava uma eternidade ainda para essa fase da expedição Ypuniana-Europeia. Quase dez dias de intenso, mas curtinho, tráfego ferroviário. E agora estamos deixando Nápoles, que seria o nosso primeiro contato com o jeito italiano de lidar com o universo, traduzido em gesticulação arrebatada, sotaque preguiçoso ou nervoso, mas nunca desapaixonado, sobrevivência bruta em estado de constante esperteza, e eu decepcionado com o que poderia ser um possível berço dos Pegorini na Europa. Se fossem mesmo daqui não destoariam da ladina rudeza obstinada do meu avô, genioso tal como os Pegorinis de outros séculos e tal como vou me descobrindo a cada ano que fico mais velho e mais retorno ao que parece ser minha essência.
Chegar em Roma foi aquela festa. Uma estação como a Termini é algo como uma das maiores estações de trem do mundo. Talvez toda a história da humanidade tenha passado por essa estação, por essa cidade, por esse império que agora pisamos com nossos próprios pés e vemos com nossos próprios olhos, em sua dimensão física mesmo. Estes tijolos, estas pedras de calçamento, estas colunas e esses domos são os mesmos que abrigaram cabeças de senadores do reino, da república, do império, da capital do mundo por dois mil anos, mesmo que em forma compactada ou por amostragem estatístico-cultural. A nota triste vem na forma da caçoada de um italiano, que, entre vitrines imponentes das maiores grifes, entre bancas de revistas, nos responde naquele jeito antipático de se tentar mostrar superior a um viajante inexperiente nas idiossincrasias da raça local:- Só podia ser brasiliani mesmo ...

Não, não podia ser uma repetição de Nápoles. Haveria Roma de nos tratar melhor. Como descobriríamos em seguida. Em volta da estação Termini parece ser barra pesada, mas não sentimos medo. Apesar de aquela região abrigar o grosso da gente humilde em trânsito, não há sensação de medo. O medo estava na nossa cabeça, e não nas ruas de Roma. Lavanderias, lancherias, lan-houses, pousadinhas, o entorno denunciava o padrão monetário do bairro. Muito africano, muito indiano, muito árabe, todos aparentando imigração ilegal. Mas pode ser preconceito nosso também. Admito. Logo que chegamos no Hotel Mariano, pertinho da estação Termini, a pessoa que nos recebeu foi extremamente simpática, tentou até falar em português conosco. Claro que a única coisa que conseguiu dizer foi ... "Ronaldinho Gaucho" .... Pegou um mapinha e foi logo nos dando as dicas de onde ir, por quais ruas, o que era grátis, o que era pago ... Enfim, foi de uma gentileza gigantesca. Sim. Roma há de ser diferente.

























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