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007 | Nápoles > Pompeia > Nápoles

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 5 de jan. de 2025
  • 14 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2025

Dia 7 - 3 de janeiro de 2008 – Itália / Nápoles > Pompeia > Nápoles


Do Hotel Ideal, na Piazza Garibaldi, até a estação central de Nápoles é como atravessar a Rua da Conceição, em Porto Alegre, vindo do centro da cidade para chegar até a Rodoviária. Neste pequeno trecho de uns cem metros, em todos os dias úteis da semana, entre 18h e 19h, vemos instalar-se um inferno terrestre na forma de tráfego de veículos e pessoas. Testemunha-se ali a transformação de uma avenida movimentada durante a maior parte do dia, uma situação comum em qualquer parte do mundo, num pedaço extremamente mal-humorado do planeta. Nossa mente já se acomodou com essas imagens. Essas metamorfoses que o trânsito sofre pela interpenetração da rotina de milhões de pessoas num espaço urbano restrito não nos impressionam mais.

Até que se conheça Nápoles.

Nápoles é uma cidade com dez vezes mais veículos (e o milagre da multiplicação aqui é quase todo ele proporcionado pelo número verdadeiramente absurdo de motos e lambretas circulando nas ruas como enxames de abelhas) trafegando num espaço dez vezes menor. Você chega a ter saudades da educação dos motoboys porto-alegrenses. Agora realize essa fantasia urbana. Encolha, estreite, “desalargue”, diminua a Rua da Conceição e coloque lá dez vezes mais gente dirigindo e circulando na hora do rush. Animal, não é?

Bem-vindo a Nápoles.

Atravessar a rua na Piazza Garibaldi às seis da tarde é um ato suicida que só napolitanos sabem driblar. Você precisa de um napolitano para atravessar a rua, senão ... babaus! E é impressionante a maneira como eles fazem isso. Não acredite em mim assim tão facilmente, veja os vídeos que estão nos links logo abaixo. Recentemente iniciou-se em Porto Alegre uma campanha para se respeitar a faixa de segurança e dar preferência ao pedestre, que manifesta a sua intenção de cruzar a rua levantando a mão. O napolitano riria à larga dessa “maluquice”. Ele simplesmente abaixa a cabeça, segura o chapéu entre as axilas para poder gesticular à vontade, e atravessa a rua. É fantástico ver os carros “acotovelando- se” nas ruas - ou esquivando-se para não esmagar o ousado desafiante daquela monstruosidade que é o tráfego napolitano; ou para não bater no carro da frente, que parou bruscamente. Parece filme de catástrofe. E é a normalidade. Nós é que somos estranhos pra eles, com a nossa mania de esperar o sinal abrir para os pedestres. Embaixo do parágrafo seguinte tem dois links “youtubianos” para cenas gravadas nas ruas napolitanas. Procure semáforos para pedestres nas imagens. Procure semáforos para veículos. Não vai encontrar. Um dia quase fomos atropelados na calçada - cuja estreiteza obrigava-nos a andar em fila indiana -, por uma nervosa lambreta dirigida por um cara sem capacete, “provavelmente pertencente à Camorra” diria alguém mais vingativo e rancoroso. Melodramatismos à parte, Nápoles não é para iniciantes.

Veja em seu próprio PC:

Trânsito maluco de Nápoles (1) - Vídeo ... repare no carinha da lambreta que decide "atalhar" pela calçada.

Pega-se um trem suburbano para fora de Nápoles - a linha Circumvesuviana - que passa na Villa dei Misteri, o principal sítio arqueológico pertencente ao complexo de escavações e áreas de exploração arqueológica chamado de Pompei Scavi, para voltar dois mil anos no tempo e imergir num ambiente absolutamente surrealista.


A linha lembra o nosso Trensurb, só que com um clima mais pesado. Os cenários das cercanias de Nápoles, a sua região metropolitana, parecem muito com os nossos bairros mais pobres: prédios imensos de material barato; “pombais” mal cuidados; ruas sujas; paredes pichadas; carros amontoados, muitos num abandono completo; antenas de TV e parabólicas disputando brechas de sol fora do alcance das sombras dos velhos edifícios descascados e cinzentos; pessoas acabrunhadas, seres vazios de alegria ... all that lonely people. Denuncia também o mesmo modus operandi de qualquer metrópole em qualquer região do mundo. Uma imensa população flutuante que dorme numa cidade e trabalha em outra.

É dos sonhos de prosperidade dessa imensa massa de gente, sedenta de perspectivas e de esperanças, que se alimenta a rede da Camorra, a principal máfia do sul da Itália depois da Cosa Nostra. Muito menos nobiliárquica e muito mais pragmática, controla de perto sua freguesia, muitas vezes sua própria família ou amigos diretos; bufando no cangote de pequenos comerciantes e profissionais autônomos, em quase todo o território napolitano e da província confinante. Permeia quase tudo que acontece naquela região por ser completamente integrada às atividades do populacho imigrante ilegal, os nós do tecido social mais desprotegido, mais dependente de ajuda financeira. Imagina-se que conte atualmente com cerca de 110 famílias operacionais e cerca de 7000 afiliados registrados nos arquivos da polícia napolitana. As atividades da Camorra são incontáveis: da agiotagem à extorsão, do contrabando de cigarros ao tráfico de drogas, da importação irregular de carne à fraude à União Europeia. Sem esquecer os dois setores "tradicionais" de monopólio: o do jogo clandestino e o de produção de cimento na região da Campania, onde antiquíssimas redes sociais de dependência e vassalagem interligam, medeiam e absorvem alguns dos piores momentos da nossa civilização.

Depois de alguns quilômetros, a paisagem começa a mudar para uma estação um pouco mais alegre. É o campo chegando; somos nós saindo do subúrbio napolitano. E o nosso astral melhora um pouco, dá pra sentir até um certo bucolismo querendo invadir a quietude do vagão. A estação de trem onde a gente desce transpira aquele ar do interior, de um ambiente que parece mais favorável ao calor humano. Bom, quase. Mas já melhorou muito. As pessoas têm feições mais humanizadas, a vida parece bem menos ameaçadora.

Souvenires expostos nas vitrines dos bares e lanchonetes no bairro anunciam objetivos capitalistas universais presentes na recepção de um dos lugares mais impressionantes da humanidade. Em volta da entrada do complexo da escavação, dezenas de lojinhas, ambulantes, pessoas com caixas de isopor vendendo refrigerantes, água mineral, sorvete, banquinhas de revistas, cartões postais, cigarros, bonés, de tudo um pouco. Passando por essa chusma de mercadores e mercadorias, a entrada do parque de visitação é bem organizada, moderna, com funcionários bem preparados, um oásis de civilidade. Pela primeira vez desde que chegamos em Nápoles, respiramos um pouco menos desconfiados, mais calmos, bem mais tranquilos. Leves de espírito, pesados nas roupas. Um frio danado nos recepcionou naquele passeio: luvas, toucas e mantas finalmente fizeram sua estreia na viagem.




Turistas em Pompéia. Gente do futuro caminhando numa cidade do passado. Século I, ano 79, sul da Itália, aos pés do monte Vesúvio. Retrato petrificado em 3D de uma cidade romana. Tudo está como a segundos da grande catástrofe. Cinzas, rochas microscópicas derretidas e lama fundiram manequins impressionantes, esculturas dos corpos das vítimas, permitindo que sejam capturadas sua aflição, desespero e abatimento final no momento exato em que foram alcançadas pelo desastre. Moradores paralisados no instante da morte moldaram com os próprios corpos uma holografia de si mesmos e de seu espanto ante o fim do mundo. O mundo deles, naquele exato momento.



Apenas no ano de 1748, durante a construção de um aqueduto, Pompéia foi acidentalmente encontrada. Acredite que desde lá o trabalho de escavação não foi concluído, faltando ainda cerca de 60% de área a ser explorada. Por outro lado, a cuidadosa administração das escavações tem proporcionado, para o deleite de todos nós, um sítio arqueológico extraordinário, possibilitando uma visão detalhada da vida dos seres humanos e suas humanidades mais rotineiras numa cidade dos tempos da Roma Antiga. O cataclisma simplesmente “congelou” a região naquele específico momento histórico. Tudo isso continua sendo desenterrado caprichosamente, revelando as entranhas da cidade, meticulosamente expostas através de um trabalho espantoso de restauração. No Museu Archeologico Nazionale, que tínhamos visitado em Nápoles na tarde anterior, vimos muitas das preciosidades desenterradas de Pompéia.



As erupções vulcânicas raramente matam muita gente porque as pessoas fogem muito antes de ver a lava chegando. O que então aconteceu em Pompéia? Por que as pessoas parecem não ter fugido? Li mais tarde, quando cheguei de volta da viagem, alguns estudos sobre este assunto afirmando ter sido essa erupção de um tipo muito incomum. Não houve rios de lavas descendo a montanha e as pessoas simplesmente não tiveram noção do perigo. A primeira fase do que aconteceu em Pompéia, no início da erupção, foi uma chuva de pó de pedras pomes. Tapava o sol quando começou, mas ninguém levou muito a sério: parecia um fenômeno passageiro. Talvez já tivessem passado por uma situação semelhante antes, talvez até fosse para eles um fenômeno conhecido. Só que este foi além de qualquer experiência. Desta vez, soterrou a cidade.

Mas enquanto era um pó caindo do céu, as pessoas apenas se abrigavam em suas casas ou na casa de amigos, cobrindo a cabeça com almofadas ou qualquer coisa que os protegesse. Não tentaram abandonar imediatamente a cidade. Tal como reagimos frente a uma chuva de granizo: nos abrigamos, esperando que passe. O crescente acúmulo do material sobre os telhados fez, porém, com que alguns tetos desabassem, provocando as primeiras mortes. Talvez só aí tivessem se dado conta do tamanho da desgraça. Tarde demais. Algumas pessoas foram atingidas por pedras maiores e morreram no ato, mas as pedras-pomes, sendo leves, não foram a principal causa da maioria dos óbitos. A posição dos corpos de seres humanos e animais, muitos com a boca aberta ou encolhidos, mostra que a grande maioria morreu sufocada, surpreendida por gases tóxicos e pela poeira escaldante que chegou bem depois, em ondas sucessivas. Os corpos em Pompeia foram quase sempre encontrados em cantos mais abrigados ou nas ruas, sobre as camadas mais altas de pedra-pome que foram soterrando a cidade, e não cobertos por lava, como temos a tendência de imaginar. Muita gente foi encontrada com as chaves de suas casas, joias e outros pertences, sugerindo que não houve, num primeiro instante, uma fuga precipitada. Ora, numa situação de total desespero ninguém se preocupa em trancar a porta da casa.




Acredita-se que as cidades de Pompéia e Herculano representam apenas 1% da superfície coberta pela chuva de pedra, gases e pó dessa erupção. O que faz me pensar: eu é que não gostaria de morar por aqui. Extinto? Pode ser. Pode não ser. Até hoje se encontra, por toda região rural de Pompéia, próxima ao Vesúvio, corpos de vítimas da catástrofe do ano 79 d.C.




Mas não se pense, por causa disso, que se caminha pelas ruas de Pompéia tropeçando em corpos petrificados. Não. São muito poucos os corpos em exposição. E sempre no interior de urnas de vidro. Tudo muito bem organizado. Você fica livre para caminhar pelas calçadas, pelas casas, pelos pátios, pelos teatros, anfiteatros, estábulos, até pelo cemitério, chamado de Necrópole. Em determinadas áreas bem demarcadas e protegidos por pessoal de segurança, alguns “corpos” ficam expostos para contemplação. A expressão dos corpos, sua posição, braços e pernas, tronco, tudo indica desespero; filhos ao lado das mães; grupos humanos tentando alcançar uns aos outros em busca de salvação ... é muito triste pensar que nada pôde ajudá-los.

Pompeia era uma cidade de veraneio frequentada por famílias abastadas, e deixou-nos uma grande herança cultural raramente encontrada em sítios arqueológicos romanos, devido, claro, às circunstâncias extremas em que foi “congelada”. Quase todas as villas nessa cidade tinham pinturas murais - as quais não foram destruídas pela ação do tempo ou humana -, e outras ocorrências da arte romana em termos de decoração utilitária, como colunatas, galerias ilustradas, quadros emoldurados, cenários para palcos teatrais, castiçais, vasos, mosaicos, letreiros de lojas, porta-retratos, utensílios de cozinha, de mesa, de banho, e muitas outras coisas que constroem o mundo humano e suas realizações, mas não o revolucionam. Peças de uso e costume populares vão se transformando com a passagem dos anos, pela moda e pela natural evolução do design sem que nos demos conta dessas alterações.




Por se tratar de arte popular para aplicação popular, são raras as obras-primas encontradas nestes artefatos e decorações plásticas. Assim mesmo, há críticos que se surpreendem em encontrar numa cidade tão insignificante do ponto de vista histórico uma quantidade tão grande, proporcionalmente, de bons trabalhos artísticos, às vezes até transparecendo ocasionalmente aqui e ali um fulgor de genialidade, envolta sob camadas e montanhas de trivialidade.



Isso me induz a refletir sobre o tanto de pequenas maravilhas de engenhosidade, sabedoria e criatividade humana que se perdeu da arte popular no arrastar pesado, implacável e sonolento dos séculos. Caminhar pelas ruas de uma cidade romana tal como era há dois mil anos é algo que evoca sensações atávicas. Nem tanto pela arquitetura romana, que conhecemos pelas suas colunas imitando os gregos, nem pelo estilo de seus monumentos, identificável em outros monumentos espalhados por todas as partes da Europa; mas muito mais pela oportunidade incrível de penetrar no dia-a-dia dos habitantes; perambular pelas suas ruas, suas calçadas e trilhas entre as moradias; desbravar o interior de suas casas; olhar por suas janelas, seus porões, suas adegas; caminhar em seus pátios; cheirar seus quintais; tatear os corredores de suas casas de banho; ver como era um armazém romano; observar o piso perfeitamente encaixado com as pedras da rua; arrastar os pés nos paralelepípedos gastos pelas rodas das carroças puxadas há centenas de anos; sujar as mãos nos fornos onde esquentavam suas refeições; apalpar sorrateiramente as pinturas nas paredes, o reboco das casas; sentar em suas praças; percorrer as arquibancadas de seus teatros; remexer em suas fruteiras, nas medidas para o azeite; o estádio municipal; as estrebarias ... tudo está lá e tudo está ao alcance dos nossos sentidos.

Menos os telhados.




E prepare-se para caminhar muito, pois é uma cidade do início dos tempos, mas é uma cidade. Com bairros, prefeitura, mercados e muitos outros marcos urbanos, evidenciando uma organização citadina tal como conhecemos hoje. A Europa já era suficientemente civilizada naquela época para que se desenvolvesse numa cidade provinciana como aquela uma infraestrutura capaz de atender e suportar a população de “cidade-gente-grande”. Calcula-se, para os últimos momentos da cidade, aproximadamente vinte mil habitantes (dos quais morreram duas mil pessoas no episódio) instalados num conglomerado de casas, edifícios, comércio, lazer e etc, configurando uma organização social, política e econômica moderna.




A vida na Itália continuou inalterada depois deste cataclisma na sua província meridional, enquanto o resto dos romanos conquistava o mundo e erguia seu império sobre as ruínas dos reinos helênicos. Não adiantou Pompeia esconder-se enterrada por quase mil e setecentos anos: descortina-se agora, em seu impressionante silêncio perpetuamente invernal, estendida humildemente sobre aqueles paralelepípedos milenares. Disponível para qualquer um capaz de pagar dez euros pelo ingresso.

Curtimos bastante até cansar as pernocas. Então voltamos a Nápoles pela mesma Circumvesuviana. Caminhamos pelo centro da cidade, percorrendo ruas atrolhadas de gente, entupidas de ambulantes e suas banquinhas de badulaques. Prédios imensos, abastados, decadentes, modernosos. Fachadas de uma interminável cafonice. Um corredor de vendedores, quase um túnel sob as marquises dos edifícios, e seus respectivos clientes disputando, ferozmente, milímetros de cada calçada das poderosas avenidas napolitanas, olhando bolsas penduradas, botas, brinquedos eletrônicos, acessórios para celular, uma balbúrdia infernal perfeitamente incorporada ao modo de vida napolitano – e por que não dizer mundial? ... qualquer centro de metrópole hoje se enquadra nesta descrição -, movimentando uma infinidade de transações econômicas de todas as envergaduras ...




Adrenalina explodindo no corpo inteiro com tanta agitação, a cabeça meio transtornada por tanta estimulação sensorial, enfim chegamos ao Castel Nuovo, conhecido entre os napolitanos mais pernósticos como Maschio Angioino. Quando você dobra uma determinada esquina, abre-se uma “clareira” entre a floresta de edifícios e prédios colossais, e dá de cara com ele ... leva um susto. É uma massa descomunal de pedra, estruturada em quatro gigantescas torres cilíndricas, do tamanho e do peso do medo medieval de ser derrotado e trucidado numa conquista bárbara qualquer, interligadas por muros da mesma escala absurda. Como marco do início de uma era de prosperidade e riqueza que estendeu a fama de beleza dos palácios e igrejas napolitanos por toda a Itália, foi construído entre 1279 e 1285 por Carlos I de Anjou, sendo danificado e reformado várias vezes durante esses setecentos e tantos anos de sobrevivência até chegar à forma atual. À beira do porto, reinando absoluto na região conhecida como Spaccanapoli, centro histórico patrimônio UNESCO da humanidade, o castelo incrustado na avenida Caracciolo vigia a baía do mar Tirreno, impondo ali seus muros magníficos com mais de um metro de espessura para a gente se debruçar e olhar os transatlânticos ancorados no movimentadíssimo cais.


E se você já acha que é história bastante até aqui sobre uma cidade, vale informar que, quando Nero resolveu que seria cantor, escolheu um teatro de “Neapolis” para sua estreia, digamos, “profissional”. Na sua esteira, muitos personagens ilustres do Império fixaram residências de veraneio nas proximidades, atraídos pelo estilo helênico da região. O museu arqueológico de Nápoles, um dos mais importantes da Europa, tem uma ala chamada Gabinetto Segreto (vide a crônica anterior: 006 | Barcelona > Roma > Nápoles), que reúne um acervo de peças de cunho erótico encontradas em Pompéia - o que me faz pensar se tais “estâncias de descanso” não abrigavam suas Tias Carmens da época. Alguém me soprou que os romanos tinham uma índole um tanto devassa, herdada talvez da liberalidade um tanto pansexual grega? Um tanto mais; um tanto menos. Nunca saberemos ao certo, apena podemos julgar pelos indícios deixados nas manifestações mais perenes, mas menos diretas. O certo é que os romanos tinham verdadeira paixão pelos seus banhos públicos e eu juro que não vou deixar me impressionar com as más línguas a este respeito.

Mas voltando ao Castel Nuovo. Esta seria a primeira experiência nossa com um castelo tal como existe em nossa imaginação. Existem muitos prédios que ostentam esta denominação, mas castelo, castelo MESMO, são aqueles com torreões com muro desenhado naquele zigue-zague quadriculado, com portão imenso, suspenso, de preferência sobre um fosso enorme, cheio de crocodilos.





Bom, só faltaram os crocodilos. Trata-se de um legítimo castelo medieval. Da gema. Impressionante pela força de suas muralhas, pelo seu peso que parece infinito e pelo sentimento de defesa, que o castelo permite supor como intransponível. Algumas partes sofreram adaptações para tornar a vida do turista mais confortável, tal como a instalação de um elevador numa de suas torres para se chegar ao topo do castelo. Em diversas partes da fortaleza expõem-se peças medievais como rodas de carreta, armaduras, armas, bustos, bombas hidráulicas, tonéis para armazenamento de água, etc. Uma enorme escadaria leva do pátio até a sala dos barões, um salão com mobiliário preservado que ainda demarca a posição dos nobres durante as assembleias.



Nesta sala, em 1486, Ferrante, filho de Alfonso de Aragão, convocou os nobres napolitanos para uma reunião e mandou prender todo mundo ... Desde a indefectível capela até uma exposição temporária com algumas obras renascentistas, a visita atendeu a todas as expectativas que pudéssemos ter a respeito do que se pode encontrar dentro de um castelo e sobre o quanto podemos ficar maravilhados com isso. Aquele ar descuidado e descascado de um edifício das épocas épicas das trevas da baixa Idade Média é o seu charme principal. Se fosse pintadinho bonitinho, numa estética McDonald’s cheia de amarelos e laranjas, jamais teria tanta graça.



Ao cair da noite, o melhor programa seria caminhar pelas ruelas do centro histórico em busca das igrejas centenárias da velha Nápoles. Entre elas o Duomo, catedral cuja investigação sobre seu paradeiro me ensinou que o mais importante ao se falar com italianos não é o que se diz, mas sim COMO se diz. Uma vez que você comece a falar cantadinho tal como os napolitanos, eles são capazes até de entabular uma comprida conversa sem se importar que você é um estrangeiro e que não está entendendo bulhufas do que dizem. Se cantou é porque entende qualquer coisa. No Duomo estão os frascos que contêm o sangue de seu padroeiro da cidade, San Gennaro (São Januário). Segundo a tradição religiosa, duas vezes por ano, em maio e em setembro, o sangue se liquefaz milagrosamente – e quando isso não acontece, Nápoles e os napolitanos podem passar por sérios problemas! (Talvez por isso as companhias recolhedoras de lixo estivessem em greve?) O fenômeno, que segundo dizem teria ocorrido pela primeira vez em 1389, atrai multidões de católicos, turistas e curiosos. Infelizmente não foi desta vez que aconteceu para nós vermos.



Nápoles sofreu pesada influência bizantina e isso está claramente identificado nos ambientes religiosos, datados de séculos de perseverança no estilo da sua arte, quase como uma determinação divina. Não ainda tão madura (mais tardia na linha do tempo, para ser mais claro) como a influência que se percebe em Veneza, mas da puberdade bizantina, dos séculos VI e VII, no vácuo do Império Romano do Ocidente. Uma arte ainda do período em que somente a pintura, e não a escultura, poderia perdurar no interior dos templos religiosos e, ainda assim, só se a imagem pintada tivesse um caráter catequizador. Por isso, tanta transcrição pictórica do novo testamento, onde Deus era mais “bonzinho” e o cristianismo preponderava sobre o catolicismo, permanece decorando as paredes das igrejas e capelas da cidade que sobreviveram abrigadas na mentalidade daquela época. Outro templo curioso de Nápoles é a Cappella Sansevero, famosa principalmente pelas bonitas estátuas no seu interior (portanto, de uma era posterior à influência direta bizantina). A mais conhecida, é Il Cristo Velato, que representa Cristo morto coberto com um véu, de maneira tão perfeita que o tecido parece semitransparente. Já La Pudicizia (O Pudor), interessante imagem de uma mulher “pudicamente” coberta com um manto que, em vez de esconder, realça suas formas generosas, é algo bem incomum em uma capela funerária. Impressionante também é o subterrâneo da capela, onde Raimondo de Sangro (Príncipe de Sansevero, inventor, cientista e alquimista nas horas vadias) fazia experiências no mínimo esquisitas. Depois que ele morreu, ali foram encontrados os corpos de um homem e de uma mulher, cujos aparelhos respiratórios e circulatórios estão petrificados até hoje. Dizem. Infelizmente, era proibido tirar fotos nesses lugares.

Existe um eixo de peregrinação pelas principais vias deste centro histórico que se reconhece pela multidão que vai se arrastando de loja em loja e pela exuberante exposição de quinquilharias, brinquedos, enfeites, e milhões de tipos de presépios – não esqueçamos que estamos ainda muito perto do Natal. Presépios pequenos, presépios microscópicos, presépios gigantes, presépios estilizados, presépios clássicos, presépios robotizados, presépios em artesanatos estranhíssimos. Aprendeu? Nápoles é a cidade mundial dos presépios. Está em seu sangue, em sua tradição e na sua balança comercial.

 

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