006 | Barcelona > Roma > Nápoles
- rpegorini
- 8 de dez. de 2024
- 9 min de leitura
Dia 6 - 2 de janeiro de 2008 – Espanha / Barcelona > Itália / Roma > Nápoles
Nos despedimos de Barcelona já mareados de nostalgia. Ficou aquela impressão gostosa, de quem poderia ter visto muito mais, mas sobrando no peito um motivo para voltar um dia. Ou não. Mais urgente que matar essa refinada tristeza, o que nos fazia voar pelos corredores do aeroporto internacional de Barcelona era uma vontade de conhecer o mundo, gula de quem começava a se sentir fazendo parte de uma cidadania mundial, de uma comunidade cujo território não terminava mais no mar de Capão da Canoa, Imbé, ou mais longinquamente, vejam só que pequenez de horizontes, em Santa Catarina. Era o deslumbramento de quem se sentia invadido pela certeza de que o planeta finalmente se apresentava à nossa frente.
E agora atravessando o Mediterrâneo – que chiquê, hein? Quantos podem dizer que um dia “atravessaram o Mediterrâneo”? Te mete ... -, lá vamos nós para uma das Capitais do Mundo, de um Império que já foi O império da parte ocidental do planeta. O nome “Roma” ainda esmaga muitas das incertezas que tenhamos sobre quais pilares se assentaram a nossa civilização. É um axioma. E quem pegar o dicionário agora para consultar o que significa a palavra “axioma”, vai ler, fechar o livro e concordar comigo. Roma não precisa de demonstração. Não precisa de adjetivos. Ora, estou aqui bajulando uma cidade na qual ainda não vamos nos deter na viagem. Desta vez, Roma será apenas uma escala. Mas voltaremos.

Por enquanto nos contentaremos apenas em cruzar o Mediterrâneo (ora, deixem-me esbaldar um pouco) num voo da lendária Alitalia, companhia italiana de aviação que desde o fim da segunda guerra mundial é uma das meninas dos olhos dos italianos, e que em 2008, logo depois que voamos por ela, tal como a nossa Varig, pediu para ser declarada insolvente junto à justiça italiana. Portanto, ATRAVESSAR O MEDITERRÂNEO A BORDO DE UM AVIÃO DA ALITALIA foi realmente um marco histórico. Hehe.
Do aeroporto Fiumicino para a estação Termini é outro traslado digno de uma plaquinha para pendurar em cima do travesseiro. Tá bom, exagero, eu sei. Mas pesem esses nomes em termos de toneladas ... de altivez e imponência. Meu filho, você está em Roma. Roma. Entendeu? Mas estamos indo para Nápoles. E vejam só. Embora Nápoles seja menor que Roma, ainda estamos no terreno da opulência, da magnificência, do superlativo. Nápoles é a terceira cidade mais populosa da Itália, após Roma e Milão, e tem a segunda maior região metropolitana, seguindo a de Milão. Sua origem é a antiga cidade grega de Neapolis, conquistada pelos romanos no século IV a.C. No século VI passou para domínio bizantino e no século VIII constituiu-se em ducado independente. A Università degli Studi di Napoli Federico II, uma das mais antigas do mundo, foi fundada em 1224. Em 1282 passou para a coroa de Aragão, sendo denominado reino de Nápoles. No século XVIII, esse reino passou a ser independente, mas por pouco tempo. Logo foi anexado ao reino da Itália, em 1861. E Garibaldi, o Giuseppe, aquele mesmo que deu nome ao nosso município na serra gaúcha, foi o grande conquistador que entregou a Vitor Emanuel II, de mão beijada, o trono da Itália nos campos de Nápoles. Uma vitória histórica e que marca a unificação de uma nação, mas um tanto sem graça, pois era um império ainda sem Roma, a atriz principal.

E essa dupla de viajantes, inexperiente ainda nas manhas da burocracia e malandragem do trânsito entre países europeus, ávida por começar a usar o Eurail Pass, joga-se na primeira linha de trem com destino a Nápoles sem perceber que está embarcando num trem de 1ª classe, e que não “ticou” o passe para marcar obrigatoriamente o uso do bilhete. Os dois abobados enfiam-se numa cabine e imaginam que todos os trens da Europa são deste mesmo nível, ... “ora vejam só, que maravilha!” ... e brincam com todos os aparatos tecnológicos da cabine. “Veja! Este braço da poltrona se desdobra em mesa!” ... “Olha só! Tem um armário atrás do banco!” ... “Aqui tem um controle do volume do alto-falante!” ... Olha só! Esse botão abre e fecha a porta da cabine!! E esse outro regula o ar-condicionado!”. Só mesmo com a chegada do bilheteiro é que paramos de nos comportar como crianças de 5 - talvez menos - anos de idade ... rsrsr.A notícia boa era que o bilheteiro era gente finíssima. A notícia ruim era que o fato de não termos “ticado” o passe, preenchendo o país, era um erro passível de uma multa de 80 euros. Se o cara estivesse a fim de nos “atolar”, estaria com tudo. Mas não. Graças a Deus, o nosso primeiro contato com o povo italiano foi através de um ser humano bondoso e compreensivo. Ele suspirou, tirou o boné de guarda, coçou os cabelos em volta da careca, e se sentou ao nosso lado. Descartada a possibilidade de nos explicar a situação em italiano, ficamos ambos os lados empenhados num diálogo costurado com mímica, inglês colegial e algumas palavras italianas de compreensão imediata como “buono”, “capice”, etc. E assim ficamos sabendo que normalmente as pessoas “normais” não usam este trem para viajar como nós. Só as pessoas mais “refinadas”. E era por isso que aquele trem estava praticamente vazio. Porque era caríssimo. E assim, nos salvamos de uma multa de 80 euros, mas não de uma passagem de 1ª classe, que custava 25 euros CADA. Pagamos, o bilheteiro foi trabalhar em outro vagão e retomamos nossa regressão infantil.
Embora toda a grandiloquência de Nápoles – ora, grandiloquência é o que não falta na Itália (melhor dizendo, na Europa, não é mesmo?) a cidade não consegue esconder uma caratonha decadente, meio “caidaça”, um misto de carpete vermelho com papel de parede descascando. Felizmente a região toda é muito rica em atrativos. Nos subúrbios de Nápoles localizam-se vários locais de interesse: o vulcão do monte Vesúvio, as ruínas de Pompeia e Herculano, as ilhas de Capri e Ischia; e claro, o seu centro histórico foi declarado patrimônio mundial pela Unesco. Mas entrou mesmo no roteiro por causa de Pompeia, que fica ali do lado. Sonho antigo, visitar Pompeia era um “must” da viagem. Desde a ideia inicial de se aventurar pelos meandros europeus transatlânticos, o alfinete colorido fincado no sul do mapa da Itália era uma convicção minha que não foi muito trabalhosa de se transferir para a vontade da Maria.
E agora estávamos quase chegando. Logo estaríamos passeando pelas ruas ancestrais da cidade, desenterrada da morte pelo vulcão para admiração de povos do mundo todo, ao alcance de cliques mecânicos ou eletrônicos para enquadrar e fixar suas imagens milenares em halogenetos de prata ou em bits digitais.Eis que guincha o trem e berra o apito de chegada na estação central de Nápoles. Logo que descemos do trem vindo de Roma, apareceu um cara uniformizado nos perguntando qual era o nosso hotel. Ora, nós, completamente perdidos, exaustos de tanta viagem (avião de Barcelona a Roma e depois trem de Roma a Nápoles), acabamos deixando que o cara nos ajudasse, mesmo desconfiadíssimos (já tinham nos alertado das espertezas italianas aqui no Brasil por diversas pessoas). Hotel Ideal, na Piazza Garibaldi. “Ótimo, é do lado da estação de trem”.
O cara pegou as duas malas grandes, colocou-as no carrinho. Pegou as duas sacolas de mão, colocou-as nas costas e se em passos rápidos, quase correndo, foi em direção ao hotel. Tivemos que nos empenhar para acompanhar o apressadinho. Quando chegou no limite da estação, onde teria que devolver o carrinho, agarrou as malas grandes nos braços e atravessou a rua no meio de um trânsito completamente caótico. Entramos em pânico. O cara ia ser esmagado por algum carro ou ônibus, e certamente as nossas malas seriam esmagadas juntas. Inexplicavelmente, os carros pararam (não por um gesto educado, mas porque senão seria sangue pra todo lado) e nos mesclamos com aquele tráfego maluco junto com o outro maluco ... chegamos no hotel e o espertinho, na maior cara de pau, mandou a conta:- vinte euros.
Olhei pra Maria, ela olhou pra mim e mandamos o cara pastar com dez euros. Depois nos demos conta: golpezinho bem de espertalhão, o tipo de espertalhão que fazia sucesso no tempo da malandragem carioca. Espera-se algum otário vindo num trem de luxo, com cara de extraviado (nós) e, antes que dê tempo para perceber o que está acontecendo, aplica-se o golpe da mala. Se o cara conseguir acompanhá-lo, o malandro leva a bagagem até o hotel e lá, cercado por testemunhas do “cumprimento do trabalho honesto”, extorque-se inapelavelmente o infeliz (nós).
Nápoles é reputada como uma das cidades mais perigosas da Europa, por causa de sua elevada taxa de pobreza (32%) e a altíssima taxa de criminalidade e desemprego. Todos os anos, centenas de mortes são lamentadas por causa das guerras de clãs e sub-clãs dentro da máfia local, la Camorra. Em 2008, o filme italiano "Gomorra" de Matteo Garrone, descreveu os graves problemas da cidade, causados pelo brutal predomínio da máfia em praticamente todas as atividades terceirizadas da região metropolitana e rural - a elevada taxa de criminalidade, em grande parte resultante da guerra interna; e a corrupção, muito presente dentro dos órgãos de soberania local. Mas o mais amedrontador é o clima onipresente de medo e impotência diante da violência local. Uma imensa massa de imigrantes ilegais sobrevive às custas do recrutamento feito pela Camorra, cujos tentáculos alcançam todo o tipo de subemprego em todos os setores produtivos da cidade, como jornaleiros, motoboys (ou lambretaboys), garçons, ajudantes, etc, etc.

O pessoal do hotel nos olhava como se estivessem vendo os três patetas incorporados em apenas duas pessoas. Entregamos o nosso voucher na recepção e esperamos. Os caras do Hotel Ideal (CUIDADO !!! NUNCA RESERVE QUARTO NESTE HOTEL) ficaram uns dez minutos confabulando e devem ter decidido entre eles: "vamos dar o pior quarto do hotel pra estes trouxas". Ou isso ou o hotel era mesmo MUITO chinfrim. Deram-nos a chave do quarto e começamos a subir as escadas ... quatro andares acima, sem elevador, o ajudante indiano que nos ajudou a carregar as malas se embrenhou num labirinto de corredores e acabou nos levando ao último quarto do último corredor. Entramos e tivemos um susto. Num hotel classificado como 3 estrelas, não havia espaço entre a cama e as paredes laterais. Para chegar até a janela, era preciso andar de lado. A única coisa boa do quarto era o banheiro. Olhei pra fechadura do quarto e, depois de uma análise minuciosa da situação, decidi colocar as malas dentro do banheiro, trancá-lo com chave e levar a chave junto comigo. Acabávamos de receber as boas-vindas de Nápoles.
Estávamos no fim da tarde e já começava a escurecer. Caminhando pela cidade à noite, em plena greve (que já durava dias) do sindicato dos trabalhadores dos serviços de recolhimento de lixo (controlado pela Camorra, claro), a impressão era a pior possível: montanhas de sacos de lixo empilhadas pelas ruas, um cheiro horroroso e esgotos correndo a céu aberto. Ruas escuras, estreitas, com tipos mal-encarados encostados nos cantos. Paredes descascadas e pedindo uma pintura para esconder os séculos de sujeira e imundície. Nada colaborava para nos dar uma sensação de boas-vindas, hospitalidade e simpatia, por mínima que fosse.
Chegamos a tempo ainda de visitar o Museu Archeologico Nazionale, que ficava aberto até as 21h, um dos mais importantes museus da Europa, onde constatamos que os tesouros de Pompéia, arrasada por uma erupção do Vesúvio em 79 d.C., estavam mal cuidados e numa situação de desleixo completo. Salas e mais salas enormes, escuras, sem vigilância, sem proteção, convivendo com salões majestosos, suntuosíssimos, deslumbrantes, todas abrigando tesouros magníficos da história da humanidade. Estátuas amontoadas nos corredores praticamente abandonados no porão do museu. Dois mil anos de relíquias italianas, bizantinas, gregas, orientais; preciosidades encontradas em Pompéia; pilhagens reunidas ao longo de séculos de conflitos, guerras e revoluções: uma pequena mostra da potência histórica do reino napolitano.
E uma ala exclusivamente voltada à arte pagã com temática sexual. Mesmo deprimente sob alguns aspectos (o abandono, a improvisação); é extremamente impressionante a reunião dessas peças: quadros, estátuas, pisos, mosaicos, utensílios, urnas, colunas, vidro, cerâmica, pintura, gesso, metal, coisas de tempos que parecem pertencer a algum lugar mágico; E mesmo que tenhamos a certeza de nunca ter vivido naquela época, nos faz sentir algum tipo de déjà-vu. Uma espécie de recordação ancestral. Um estremecimento. Saímos do Museu quando nos mandaram embora. Loucos de fome, a opção era: três tentativas para adivinhar?
1, 2, 3 .... PIZZA! Estando no lugar que inventou a pizza, era a pedida óbvia.
Há quem diga que a pizza paulista suplantou a italiana em termos de qualidade. Mas acho que isso é muito subjetivo. E meu camarada, minha camarada: estar em Nápoles e não comer uma pizza é como estar no céu do lado de fora do portão. Achamos uma simpática pizzaria típica a caminho do hotel e comemos uma extraordinária pizza margarita caprichadíssima, regada com um bom vinho. E assim chegamos ao hotel suficientemente cansados para pegar ligeirinho no sono, esquecer as paredes mofadas, os lençóis encardidos e as paredes descascadas. De nossa parte, estávamos dispostos a perdoar a acolhida mal-humorada da cidade e nos recarregávamos para desvendá-la dois dias depois.
Porque amanhã vamos para Pompéia.



















Comentários