005 | Barcelona - Parc Güell e Ramblas
- rpegorini
- 21 de nov. de 2024
- 8 min de leitura
Dia 5 - 1º de janeiro de 2008 – Espanha / Barcelona
Ainda tenho anotado o número da linha que pegamos numa manhã ensolarada - aprendemos a conhecer a Espanha como um país ensolarado -, naquela nossa pequena aventura. 24. Linha 24.

Estacionado a praticamente uma quadra do hotel, o ônibus subiu numa tranquilidade monástica, quase como numa oração, para o platô do morro, chamado de El Carmel, que vislumbra de frente o mediterrâneo. Lá, depois de várias voltinhas, subidinhas e paradas pelos bairros da cidade, cumprindo uns 15 km do centro até o ponto do parque, você desce numa parada em frete ao portão do Parc Güell.
Até aí, nada demais. Você provavelmente já chegou à frente de muitos portões em sua vida. Mas entrando no parque, fantasticamente arborizado, numa simplicidade desconcertante, a trilha, a arquitetura dos elementos, a impressão de estar cada vez mais penetrando num ambiente mágico vai crescendo até que nada mais parece estranho e nem mesmo familiar. E acredite, a parte construída, criada pelo gênio de Gaudi, é perfeitamente integrada ao panorama natural da montanha. Como carapaças de pedra e elementos orgânicos a furar o peito de mata mediterrânea encrustado na montanha. Um exoesqueleto petrificado. Costelas à mostra, xícaras, pratos e lagartos nascidos na imaginação do chapeleiro maluco chamado Antonio Gaudi.

E em nenhum outro lugar do mundo poderia ter nascido um homem como ele. Tinha de nascer numa região de loucos imaginativos. Nenhuma outra época da Espanha teria dado luz a homens como Gaudi, Dali, Miró e Picasso quase ao mesmo tempo. Loucos de dar nós em tintas e ângulos, sombras e perspectivas. Só numa numa época como aquela e numa cidade como Barcelona é que Gaudi encontraria um magnata como Eusebi Güell, também chamado Conde de Güell. Industrial e político, casado com a filha Isabel do Marquês de Comillas, uma das famílias mais poderosas do país. Filho de Joan Güell i Ferrer, magnata que se fez em Cuba, por sua vez casado com uma das filhas mais ricas de Gênova. Ou seja, tinha sobrando para paitrocinar um gênio como Gaudi. E Barcelona ganhou muito por isso. Muitos arquitetos, engenheiros, artistas plásticos, decoradores, vidraceiros, metalúrgicos e moveleiros ajudaram a construir a atmosfera exuberantemente barroca, Art Noveau, da cidade através das suas construções, acessórios, artes e ambientes. Frederic Marès, Antoni Tàpies, Domènech i Montaner, há toda uma geração que moldou Barcelona naquilo que atrai milhares de turistas todos os anos. Paseig de Grácia, Casa Batló, Casa Milá (La Pedrera), Sagrada Família, obras-primas em peso e massa colossais. Quem não quer ver?




E o Parc Güell é um lugar desses. Colossal. Uma Redenção gigantesca lomba acima. E dentro, de vez em quando, o mundo mirabolante está numa estátua, numa torre, numa trilha, numa varanda, num campo aberto, contornado por bancos em forma de xícara. Casinhas feitas de chocolate, caramelos, chantili, e imaginação. Era pra ficar duas hora. Ficamos quatro. Deu tempo até pra se perder procurando uma fonte e uma tal “area per a ossos”. Os bobos aqui acharam que isso PROVAVELMENTE, queria indicar, em catalão, alguma área construída com algum tipo de arquitetura maluca. Aprendemos na Pedrera que Gaudi se baseava nas formas da natureza para compor os elementos da sua arte. Então eu imaginava que poderia ser uma escultura em forma de um monte de ossos. E procuramos, procuramos, procuramos e nada. Mas íamos curtindo o ambiente, claro. Só que lá pelas tantas lá vinha a tal plaquetinha, “area per a ossos”, e perdíamos mais uns 15 minutos procurando, até voltar à trilha principal e voltar ao roteiro do parque.


Tinha muita coisa maluca pra ver. Subi numa torre de onde se podia enxergar até a praia. Passávamos por músicos tocando instrumentos exóticos. Jardins mirabolantes, praças fantásticas que nos faziam morrer de saudades das crianças. Estávamos num cenário surreal. E via-se também que a população infantil, jovem, madura e idosa da cidade tinha neste parque um ambiente fantasticamente acolhedor para propiciar encontros e atividades como caminhadas, passeios, xadrez, leitura ou simplesmente uma lagarteada bem dada. Mas nada de acharmos a tal “area per a ossos”. Até que passamos por uma espécie de patiozinho cercado e um casalzinho treinando e brincando com seu cão. Alguma coisa nos fez parar. Olhamos para o pátio, para a cerca, para o cachorro e finalmente achamos a placa. “area per a ossos”.

Ainda naquele parque passaríamos por outras roubadas. Procuramos uma fonte (Font de S. Salvador) que na verdade não passava de uma torneira embonecada, procuramos um touro, ao invés de procurar uma torre e na hora de ir embora, pagamos o mico de ter de disputar com uma multidão-avalanche uma brecha ao lado do famoso lagarto que adorna a escadaria de saída do parque. Uma espécie de protocolo turístico que não pode deixar de ser cumprido. Então ficava eu, espremido entre dezenas de pessoas, tentando não fazer cara de babaca naquela situação completamente pateta. E sorrir.

Resolvemos caminhar pelas ruas de Barcelona em vez de pegar ônibus direto para o hotel. Andamos algumas muitas quadras por avenidas, curtindo a paisagem diferente de uma cidade espanhola, mais diferente ainda por se tratar, claro, de Barcelona. Logo achamos um botequinho simpático e lanchamos enquanto descansávamos da caminhada e usávamos estrategicamente o banheiro. Quem viaja sabe que mulher, principalmente a minha, precisa de banheiro de cinco em cinco minutos. Mas a Maria, heroicamente, conseguia aguentar a vontade até acharmos um banheiro público ou até quando estava na hora de alguma refeição ou parada estratégica pra se consultar mapa, guia, ou para usar o banheiro.
Depois do lanche pegamos um metrô europeu pela primeira vez na vida. Curtimos a modernidade civilizada observando e usando as máquinas automáticas de ticket. Descobrimos que poderíamos até pagar com o cartão VTM que tínhamos abastecido em Porto Alegre. Quanto assombramento! E ver aquilo funcionando sem traumas nem problemas foi o que mais maravilhava, pela comparação com nossos sistemas públicos cuja exceção otimista é um mero funcionamento razoável. Do metrô, limpo, organizado, civilizado e seguro, desembarcamos nas Ramblas e, depois de vários vezes apenas cruzá-las ou percorrer delas um pequeno trecho, agora estávamos ali para degustá-las, apreciá-las e nos deixar envolver pelo seu encantamento.

Pois quem ouve assim, pela pela primeira vez, “Ramblas”, tem a impressão de que se está falando de várias ruas, talvez até quarteirões. Mas não. Trata-se sempre da mesma rua. Um quilômetro de rua que passa por vários bairros típicos catalães. Melhor descrevendo, as ramblas são uma série de ruas que vão se juntando e formando um caminho só.

La Rambla de Santa Mônica: Nesta área, encontram-se artistas que pintam retratos e caricaturas dos turistas, além de venderem as suas obras, assim como músicos, homens-estátua, etc. Aos fins-de-semana, realiza-se frequentemente uma feira de artesanato onde se podem adquirir produtos em pele, jóias, roupas, etc.

La Rambla dels Caputxins: Plaça Reial, construída em 1850, onde posteriormente se instalaram as “farolas” (postes de luz) desenhados por Gaudi. Palau Güell , Na Carrer Nou de la Rambla 3-5 (sede do Museu de lês Arts Del Espectacle).

La Rambla de San Josep (Flores): Casa Bruno Quadros; Mercat de la Boqueria; Mercado San Jose; Galerias Malda; Palacio de la Virreina.La Rambla dels Estudis (Pássaros): Centre de Cultura Contemporània de Barcelona; teatro Poliorama, iglesia de Betlem.
La Rambla de Canaletes Pássaros): Museu d'Art Contemporani de Barcelona; Centre de Cultura Contemporània de Barcelona; la coctelería Boadas.

Começamos pelo porto, do ponto onde ergue-se o Monumento a Colombo - que dizem, aponta para o lado errado (Mediterrâneo, e não Atlântico). Pode-se subir no monumento que é, também, um mirante. Mas não tínhamos tempo. Tempo foi o que menos tivemos em Barcelona. Ali no começo das Ramblas os cenários são muralhas romanas, que vão dando lugar, à medida que se vai avançando pelo eixo, a casarões nobres com um toque maluco na decoração, a fachadas modernistas para hotéis tradicionalíssimos, a entradas mágicas de boates, restaurantes cult, tavernas, ministérios, peixarias, mercados, vielas medievais.
E um povo caminhando. E artistas retratando, artistas pintando, artistas tocando, artistas encenando. Estátuas vivas, aliens, malabaristas e até ... o Ronaldinho Gaúcho. Fazendo balõesinhos e pequenas travessuras com uma bola de futebol, devidamente personificado, mas a quem faltava os atributos técnicos de um futebolista, resultando num espetáculo situado entre o pastelão e o vaudeville. Explorando as ramblas e o entorno delas você vai percorrendo outros pontos de grande interesse turístico e cultural, como a Catedral, que estava passando por reformas;

enxerga a arte de Miró no frontispicio do Instituto dos Arqutitetos Catalães; se não for feriado, pode conhecer o Mercat de la Boqueria, um dos mercados públicos deles, muito mais abastecido de extravagâncias que qualquer mercado com menos de quinhentos anos. Vai passar pela Plaza Reial também, pela Plaza Jaume I, onde está o Ayuntamento (prefeitura) e onde pudemos tirar fotos de um presépio em tamanho real. Caminhamos até a Plaza Catalunya, final do eixo. Dali voltamos ao porto de metrô, novamente passando pelo Colombo.

Voltando para o hotel, paramos num restaurantezinho turco típico e quando pedimos um kebab para cada um, tivemos a extraordinária supresa de saborear kebab tipicamente feito num típico pão árabe simplesmente sensacionalmente feito à maneira típica oriental. Nem só de roubadas a gente precisa viver, né mesmo?Então voltamos ao porto e a idéia foi fazer um programa restaurador. Resolvemos então descansar de tanta bateção de perna curtindo o Imax,
Cinema 180 graus, no porto de Barcelona, no mesmo shopping onde se encontra o Aquário (L’Aquarium). O cinema passava dois filmes por sessão. Claro, filmes especialmente produzidos para extasiar o espectador pela experiência visual e auditiva de ter os sentidos inundados através das dimensões impactantes e pelo formato da tela. Na fila, bati papo com um nativo e me saí até muito bem, usando o espanhol manco que eu começara a aprender na Argentina quando estive lá visitando a Patagônia. Pois serviu para me comunicar com o cara, que exalava um irritante fedor de destilado e, por isso mesmo, matraqueava comigo sem parar. Mas não estava chato, só fedorento, e foi um alívio quando finalmente chegou a vez dele na fila, pegou seu ingresso e sumiu rapidamente. Com certeza em direção ao primeiro bar aberto.

O primeiro filme era sobre um alpinista suíço, filho de alpinista suíço que tinha morrido numa escalada a um monte suíço. Era apenas um pretexto para mostrar as magníficas paisagens dos Alpes em formato 180 graus e que deixava a gente simplesmente ... extasiado. Com efeitos digitais ilustrando como tinham se formado aquelas montanhas monumentais, salientava a atração que elas provocam naquele povo quase albino que mora nas suas encostas e passeava dezenas de câmeras em todos os pontos de vista possíveis, inclusive uma excepcional tomada-sequência que acompanhava um trem subindo os Alpes. Passando por lagos, vales, flutuando por pontes abissais, furando as montanhas, soterrado por massas monstruosas de gelo. Magnífico.
O segundo era em terceira dimensão e para eles usamos os óculos fornecidos. Mostrava o universo marinho e suas criaturas fantásticas, cenários fantasmagóricos e outros maravilhosamente multicoloridos. O efeito tridimensional ficava tão realista que em determinado momento começamos a prestar atenção a uma garotinha ao nosso lado que pulava da cadeira e ficava tentando alcançar com as mãos a medusa que parecia tocar na gente com seus apêndices, ou afastava a cabeça dos tentáculos de algum polvo que parecia balançá-los a centímetros dela, ou baixava a cabeça para algum tubarão passar raspando. De babar nos joelhos.

Depois dessa experiência quase alucinógena, só nos restava comprar um vinhozinho em algum boteco e ir dormir para amanhã voar para Roma, por sobre o Mediterrâneo, e de lá pegar um trem para Nápoles. Que bela perspectiva, não é mesmo? Reclamar da vida? Eu?













Comentários