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004 | A Galáxia de Figueres

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 14 de set. de 2024
  • 10 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2024

Dia 4 - 31 de dezembro de 2007 – Espanha / Barcelona > Figueres



Roteiro do dia:

Café

Metrô

Figueres

Teatro-Museu Dali

Kebab

Barcelona

L’Aquarium



Véspera de reveillon 2007-2008 arrebentando a rotina de todo mundo em Barcelona, empurrando os estados mentais e espirituais dos habitantes para temperaturas e rotações extraterrenas. E éramos, todos nós forasteiros, carregados pelos catalães nesse encantamento. Uma indizível inquietação, coceira e vontade de fazer algo que não se consegue determinar direito o que é. Alguns descarregavam a tensão consumindo freneticamente tudo que ia aparecendo pela frente: souvenires, presentes, passeios, cultura, comida, arte, livros, roupas, quadros, música, caminhadas pelas ramblas, pelos museus, pelas plazas; outros interagiam com as estátuas vivas, pintores, patinadores, guitarristas, turminhas de todas as tribos imagináveis e - tá bom, usemos uma boa e velha obviedade... - inimagináveis. Mais a decoração da cidade e uma esfuziante emoção pairando no ar, nos rostos, na animação e na energia da massa humana reunida. Comércio faturando. Tínhamos assim, naqueles instantes enfeitiçados de pré-virada de ano, multicoloridas e inesperadas forças convergindo para bordar o cenário da festa. E para mim e para a Maria, uma festa revestida de uma circunstância mais mágica ainda por estarmos na Europa, lugar que há pouco tempo nos parecia um pedaço inalcançável do mundo. Foi bem cedinho que levantamos da mesa do café e subimos no trem da Renfe que nos levaria em uma hora e quarenta de viagem, um minuto para cada quilômetro, para Figueres.

 

Se você procurar Figueres no mapa da Espanha, vai encontrar a cidade, capital da comarca do Alto Ampurdán, no nordeste do território catalão, apenas a 24 km da fronteira com a França. Diz-se que é a última cidade importante antes de mudar de país, ponto de parada obrigatória para os viajantes que entram e saem da Espanha. “Figueres” em catalão; “Figueras” em espanhol. Por ali entram também, na península ibérica, as grandes ondas de frio que viajam desde a Sibéria até o sul da Europa, sendo facilmente perceptível o convívio amistoso entre figuerenses e La Tramontana, o vento local norte, frio e seco, que passeia pela cidade o ano todo.



Há 750 anos, o rei aragonês Jaime I deu foros de cidade ao povoado estabelecido desde tempos visigodos. Das 7 torres da muralha do século XVII que protegia o feudo restou em pé até os nossos tempos apenas a torre Gorgot, hoje chamada Galatea em homenagem a Gala, o grande amor da vida de Salvador Dali. A torre foi depósito de água no século XIX, restaurada em 1931 e incorporada desde 1973 ao Teatro-Museu Dalí. Testemunhou impavidamente o horripilante bombardeio sofrido pela cidade nos momentos finais da Guerra Civil Espanhola, quando golpistas refugiados, entre eles o próprio governo republicano e catalão, fugiam para a França em busca de exílio.

Foi nessa cidade cheia de brios, guardiã de uma região venturosa e orgulhosa, safada como pimenta, resistente como um tijolaço sem furos e loucamente talentosa que haveria de nascer, no glorioso 11 de mayo de 1904, Salvador Domingo Felipe Jacinto Dali e Domenech, 1º Marquês de Púbol, mais tarde expulso até do círculo dos surrealistas de 1939 por não se considerar um marxista, mas um "anarco-monarquista". Somente uma mente catalã para compreender todas as consequências de uma etiqueta dessas. Nem se atreva.


Voltemos ao trem. Preparando o espírito na viagem, fui tocando velhos chorinhos no cavaquinho, pensando se nosso Jacob do Bandolim não seria um Salvador Dali à sua moda e cumprindo as suas próprias circunstâncias. Eu viajava montado na possibilidade de se pensar no manejo e na criação das notas que perambulavam na mente do Jacozinho tal como as cores iam se insinuando na mente do velho bigodudo. Seriam os sons do instrumento adestrados pelo músico tal como as cores são pelo pintor? Tijolos à disposição da genialidade de cada pedreiro? Buf! Desafinou a 1ª corda. Afina com a 4ª. Paraguaçu. Agora vamos de “Lamento”. Pixinguinha. O barulho contínuo e monótono dos trilhos sendo percorridos dá o andamento. Sentado na confortável poltrona do vagão, percebi que os catalães ficavam intrigados com as melodias dos nossos chorinhos. Acho que, de uma certa maneira, os intervalos das notas lhes pareciam familiares, mas não conseguiam reconhecer o ritmo. Desculpe aí, rapaz da Catalunha! O nosso ritmo tem um gingado diferente das músicas negras a que vocês estão acostumados a ouvir. Ainda mais o chorinho. E eu me divertia, enquanto tocava, sacando um tamborilar na poltrona, um pezinho batendo de mansinho no tapete do trem. Os gringos não resistiam. Coisas de brasileiro e de quem ouve os brasileiros. Viramos parentes no suíngue irresistível. E tranquilamente saímos, tranquilamente viajamos, e tranquilamente chegamos. Adoramos viajar de trem. Ponto.

 

Atravessamos a rua do Ayuntamiento (Prefeitura), em frente à estação e já estávamos no centro da cidade. Decidimos que o mais legal seria caminhar e sentir na pele e no rosto o astral da cidadezinha. Ruazinhas estreitas como sempre, com minúsculos postezinhos impedindo estacionamento de carros nos dois lados da rua, pra não trancar a passagem. Diversas ruas destinadas exclusivamente para os pedestres. Com aqui e ali uma estatuazinha maluca ou uma escultura abstrata quebrando a paisagem de bairro pequeno-burguês. E ligeirinho você chega à praça central da cidade. Com um parquinho, uma pista de patinação em gelo, barzinhos com mesinhas nas calçadas, um cineminha, hotéis pequenos e um museu de juguetes (brinquedos) que nos fez lembrar demais das NOSSAS crianças. Sentimos que iria ser tortura demais ficar olhando aquelas preciosidades infantis pensando que estávamos a dez mil quilômetros de distância dos nossos filhos. Esses momentos de consciência familiar eram os piores momentos da viagem para nós. Há pessoas que não sofrem tanto assim.



Mas a maior atração de Figueres é mesmo o Teatro-Museu Dalí, lugar disfarçado de fachadas irreconciliáveis que ele mesmo projetou e trabalhou de 1960 até meados dos anos 80, quando sua amada Gala morreu. Dali foi uma figuraça ... Desperta amor e ódio, há quem o venere incondicionalmente como há também quem o odeie com todos os poros de sua racionalidade. Deixe-me avisá-lo: quem entra neste museu não vai encontrar somente quadros do gênio catalão, que foi buscar nos bigodes de Velasquez muito mais do que um efeito capilar, mas uma marca inesquecível de assinatura, a atitude espetaculosa e o olho arregalado nunca mais foram os mesmos depois dele. Você também: nunca mais será o mesmo depois de deixar este edifício-artifício.


Todo o prédio, quartos, salas, paredes, canos, janelas, portas, ralos, trincos, escadas, grades, fios, lâmpadas, móveis, espelhos, banheiras, lâmpada, ladrilhos, sofás, bancos, cômodas, cortinas, tetos, pisos, muros, canteiros, corredores, corrimões, instalações, pátios, fachadas, monumentos, etc, etc. etc, etc, etc... estão impregnado do espírito do artista, da sua vontade de viver sua própria atmosfera de interpretação da realidade, que faz a casa parecer ter sido sonhada, e não construída. Talvez a melhor descrição seja: você pagou ingresso para um sonho, e não para um museu. Palavras pertencem a um plano insuficiente pra descrever o que você encontra lá dentro. Veja as imagens. Mas também as imagens serão pouco pra contar o que acontece no seu coração. Falta o movimento das maquininhas malucas, faltam as paredes, faltam as plantas, falta o "ohhhh!!!" das pessoas que visitam o museu. Faltam os suspiros. Falta o brilho nos olhos e na mente ao entrar em cada sala, em cada recanto. Falta algo que não se imprime em páginas, fotos, filmes ou impressões sensíveis. Algo atravessa o seu coração, se você não o tiver muito impermeável, e rega a sua imaginação, inunda os seus paradigmas estéticos e torce a sua rotineira maneira de ver sentido nas coisas.        


Mais tarde, lembro de ter visto em Madri, no museu Reina-Sofia (http://www.museoreinasofia.es/), numa sala especialmente estruturada para isso, uma projeção do “Cão Andaluz”, de Buñuel. Pra quem nunca ouviu falar, este filme começa com uma cena bolada certamente para tirar da sala as pessoas sem estômago para prosseguir: uma mão pega uma navalha e com ela corta o olho de uma pessoa. Credo! O resto do filme é uma projeção em imagens e cenas - às vezes bastante desconexas; outras vezes querendo propositadamente parecer desconexas - de uma encenação teatral das teorias psicanalíticas, na época ainda culturalmente e socialmente extremamente impactantes e revolucionárias. Esquentadas por uma temperatura altamente erótica, mas ainda bastante ingênua na interpretação dos postulados da teoria freudiana, as cenas vão se sucedendo numa ordem direta de sentidos e significados, uma trilha quase infantilizada.

 

O processo de submersão no Teatro-Museu Dalí começa antes de se penetrar em suas paredes. Nas calçadas em volta do prédio já se encontram inúmeras obras de Dali. São colunas, esculturas, detalhes, pseudo-fontes, loucurinhas aqui e ali. A atmosfera vai se entranhando em você antes que você se entranhe na atmosfera. Paga-se ingresso para um superorganizado acesso e assim, sem nenhum aviso, você se dá conta que não está mais em corredores normais. Parece um gabinete do Dr. Caligari, só que filmado a cores e em terceira, quarta, quinta dimensões. A estrutura do complexo circula um pátio redondo central, onde está a escultura do cadillac-e-a-gorda-com-chapéu-de-barco-com-guarda-chuva-na-ponta. Mesmo andando em corredores com forma, digamos de uma maneira bem elástica, “convencionais”, tem-se a sensação de que a cada dois metros entrou-se num universo diferente. Mudam as pinturas nas paredes, mudam as dimensões da sala, as luzes do ambiente, a iluminação das janelas, o piso, os corrimões, os marcos das portas, o desenho do tapete, os engenhos eletrônicos. À sua direita, dezenas de bonecos dourados em tamanho natural guardam as janelas que circundam o pátio central, aquele da escultura do cadillac-e-a-gorda... Mesmo quando o artista muda, não destoa estrategicamente do universo fantástico de Dali, como no caso de Antoni Pitxot, diretor do teatro museu e Vice-Presidente da Gala-Dali Foundation expondo sua coleção das “pedras” numa das alas do edifício.

 

Saímos meio atordoados lá de dentro. Trouxe para cada uma das crianças um castelo de papel para recortar e montar colando. Mas acho que quem vai acabar se divertindo mesmo com isso vai ser eu ... hehe ... bom, tentarei contaminar as crianças com isso. Veremos. Ainda tiramos um tempinho para experimentar um kebab, ultrarrecomendado pelo sogrão como um lanche gostoso, barato e altamente proteico. De origem árabe, é um pão recheado por salada, condimentos picantes e por raspas de uma mistura de carnes, que ficam numa espécie de salamito gigante envolvendo um cilindro grande. É super delicioso pra quem gosta de comida picante. Eu gosto, mas pago um preço por isso. E este preço exige um banheiro que não se localize a mais de dez minutos de onde eu tenha dado a última mordida. Ou isso, ou a sensação terrível, indo e vindo, de cólicas doloridas que se revezam em picadas estomacais e suores nas mãos. Mas este primeiro contato até que foi brando. Os sintomas se manifestaram de forma amistosa e foram um aviso suficientemente claro que eu não aprendi a interpretar corretamente, desleixo do qual iria me arrepender amargamente em outras ocasiões. 


De volta para Barcelona, já noite, tomamos banho e saímos para curtir a virada do ano. Deu tempo ainda de curtir o mais bacana dos aquários que já vi na vida. L’ Aquarium fica no porto de Barcelona, e se você curte natureza, é absolutamente deslumbrante. Além de cenários fantásticos reproduzindo a vida marinha em todos os ecossistemas possíveis, você passeia por baixo dos aquários, percorrendo, numa esteira automática, inúmeros ambientes e paisagens marinhas povoadas por todos os tipos de peixe do mundo. Mas o que realmente hipnotiza e prende toda a atenção de seus olhos são os tubarões indo e vindo a poucos centímetros de sua cabeça, desfilando impassíveis como estátuas mecanizadas, mas repletas dos seus misteriosos movimentos e ameaçadoras rondas. Além de ambientes destinados a educação ecológica, criativamente decorados com a magia do mar, na saída do complexo do aquário passa-se numa seção destinada ao público infantil que simplesmente arrasou alguns dos últimos resquícios de resistência à saudade dos nossos pimpolhos e tivemos que sair correndo dali, antes que o aperto no coração esmagasse a nossa racionalidade. Mudemos de assunto. 



Seria o dia para provarmos os famosos “tapas”, que diziam ser quitutes fantásticos, e que se completam acompanhados de uma boa bebida. Saí tão empolgado com toda aquela situação que até levei o Genésio - hehe, que é o meu cavaquinho, ô apressadinho ... pode tirar esse sorrisinho malicioso da carinha. E saímos pra achar um barzinho com mesinha na rua. Entramos no início da rambla e logo um guitarrista apareceu, cercado por um monte de pessoas, tocando um blues que era uma beleza. Formidável. Uma multidão na rua, passando pelos bares, todos lotados.

 

Seguíamos a massa que serpenteava pelas vielinhas, pelas avenidas, pelas calçadas, pelas praças, pelos monumentos, pelos restaurantes, pelos bares. Em determinado momento, um africano me segura pelo braço, aponta para o cavaquinho e diz: “Play it, play it!!”. Eu olhei em volta, um bequinho escuro, com um monte de estranhos mal-encarados me observando. Eu só olhei pro africano, dei uma ou duas palhetadas nas cordas do Genésio, peguei a Maria pelo braço e saí dali, caminhando bem rapidinho. Até que, bem na principal das Ramblas, achamos um restaurantezinho com mesinhas na rua. Sentamos e pedimos os tais dos “tapas”. E fiquei dedilhando o cavaquinho. Alguns sentavam e ficavam ouvindo, falando baixinho. Mas logo se desinteressavam. Sem chance de rolar um sambãozinho aqui ... a platéia era bem diferente daquela necessária pra uma roda de samba. Festeira, mas sem aquela espontaneidade e "amigabilidade" dos brasileiros. Deve ser por isso que eles se encantam quando vêm ao Brasil. Em cinco minutos, conseguimos armar uma amizade para toda a vida com qualquer gringo de qualquer lugar do mundo. Só brasileiro mesmo.

 

E chegaram os “tapas”. Seis fatias fininhas de queijo. Seis fatias fininhas de salamito. Seis rodelas de tomate. Nossa, por quase vinte euros. Iríamos ter que gastar duas vezes na janta naquela noite. Ficamos comendo uma rodelinha a cada 15 minutos pra curtir a fauna e flora dos passantes e decidimos ir indo vandoísticamente.

 

Passamos pelas ruas estreitinhas, cheias de bares tradicionais, pelo Raval, uma região boêmia, cheia de bares de uma portinha só, que “engoliam” os transeuntes lá para dentro do prédio num corredor fininho, cheio de gente bebendo bebidas estranhas, azuis, verdes, amarelas, vermelhas, roxas ... Boates malucas, bares temáticos, restaurantes típicos, casas de vinhos, bebidas, tudo fervilhava como um formigueiro. Foi quando houve o “fechamento” do ano. Ainda ouvíamos os fogos explodindo no céu, as pessoas confraternizando, os carros buzinando cheio de jovens cantando, gritando, as turminhas dançando nas ruas. Estava eu filmando o “entrevero” na esquina da Paral.el, quase chegando no hotel, quando um cara foi se chegando na Maria. Puxou papo com ela. Aí decidi ir “preservar” o patrimônio. Num broken english, conversamos amigavelmente, desejando Feliz Ano Novo pra ele. Descobrimos que era um filipino trabalhando ilegalmente como lava-pratos em Barcelona. Estava procurando parceiros para festa. E nós, ingenuamente, demos corda pro cara. Estávamos nos retirando já, cansados, com um dia cheio de atividades no outro dia. E ele querendo festa. Depois de alguns salamaleques, papinhos tipo “é dura a vida de imigrante”, entramos no assunto festa e aí, querendo ser simpáticos, perguntamos como ia a questão “namorada” para ele, se era difícil não ficar sozinho. Ele respondeu que era muito difícil para um estrangeiro. As gurias não davam a mínima pra ele, por ser pobre, trabalhar como garçom e ser ilegal num país europeu. Então demos o fora da noite. “É, mas lá no Brasil você veria que as meninas são bem mais abertas, iriam, sim, dar bola pra você. As meninas brasileiras são sem frescura. Certamente achariam você um cara bacana.” Pronto. A cabeça do filipino deve ter se inflado de bandalheiras. Afinal, ele estava falando TAMBÉM com uma “menina” brasileira. A Maria, né, mané !??! .... todo faceirinho, ele largou: “Let’s have sex ??” .. E gente, pra desfazer este mal entendido levou mais uma hora de broken english. Ainda bem que o hotel estava bem pertinho. Numa bobeada do filipino, saímos andando rapidinho e ganhamos a recepção do Auto Hogar. Good dreams, man ! But with your own girlfriend, please! Mais informações sobre o Teatro Museu Dali: https://www.salvador-dali.org/es/museos/teatro-museo-dali-de-figueres/

 

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Ricardo
18 de nov. de 2024
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