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003 | O bulldog do Auto Hogar

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 6 de jul. de 2024
  • 12 min de leitura

Dia 3 - 30 de dezembro de 2007- Espanha / Barcelona

 

Roteiro do dia:

 

Café

Barcelona Turistic Bus

Sagrada Família

Praça Gaudi

Museu D'Historia de la Ciutad

Almoço

Plaza Catalunya

La Pedrera (Casa Milá)

Bus Azul

Montjuic

Museu Maritmo

Janta



Servido a partir das sete horas da manhã, o café do Hotel Auto Hogar é fantástico. Embora organizado de forma discreta, tem tanta coisa, incluindo aí dispositivos de aquecimento e preparo de quitutes que nunca tínhamos visto antes, que é difícil até decidir o que e como atacar primeiro. Entramos, então, com a clássica taça de café com leite e fomos percorrendo os bolos, chimias, pães, embutidos, cereais, frutas ... até dar de cara com o “bulldog do Auto Hogar”. Um homem de seus quarenta e cinco anos, um metro e setenta de frieza absoluta, beirando a antipatia, atarracado e extremamente zeloso com a sua função dentro da estrutura da instituição hoteleira: administrar a logística das centenas de opções alimentícias do hotel.


Percebia-se que a seu comando o staff da cantina se entregava de corpo e alma. A um simples olhar do “comandante”, materializava-se imediatamente um funcionário fardado que resolvia a demanda do cliente do hotel em segundos, ao final dos quais evaporava entre os corredores do restaurante. Um código corporativo baseado no repertório de olhares firmes e faíscas mentais vindos do sargentão. Mas, vejam só... exatamente por causa disso, tudo ali naquele pedaço do mundo - a cantina do Auto Hogar - funcionava que era uma beleza.


Até que os tupiniquins aqui resolveram levar um reforcinho para o almoço. Escolhemos uma espécie de bolinho que vinha ensacado de fábrica, hermeticamente embalado, perfeito para uma longa permanência na mochilinha de passeio. Numa bobeada do bulldog, embolsamos duas daquelas maravilhas no jaquetão interno da parca. E continuamos maravilhadamente a desfrutar das delícias do manjar matutino. Mas o bulldog não era nada bobo. Num lampejo de pura intuição, o cara percebeu que tinha alguma coisa errada na contabilidade das nossas “Entrada e Saída”, da soma do que tínhamos colocado das mesas nas bandejas menos a soma das embalagens que sobrara em nossos pratos. Caracas, o cara tinha se flagrado que faltava a embalagem de DOIS BOLINHOS. E ficou fungando em volta da nossa mesa, visivelmente desconfiado. A nossa sorte é que ele não tinha testemunhado quando pegáramos os bolinhos. Mesmo assim, ele ficou alguns minutos “farejando” algo numa nuvem imaginária em torno de mim e da Maria, saiu insatisfeito porque não tinha como provar nada e ficou nos encarando enquanto descíamos a escada que saía do restaurante, naquele legítimo ar de filme B “eu sei o que vocês fizeram...”. Bah, amedrontador. Nunca mais pegaríamos UM PALITO de alguma mesa daquele restaurante, credo! No dia seguinte, testemunhamos uma pobre mulher que teve a mesma ideia mas faltou-lhe malandragem para fazer a coisa. Colocou uma tortinha no bolso e continuou comendo. O bulldog foi até ela e passou-lhe uma carraspana que a gente só de ver de longe já tremeu, imagine se fosse com a gente...


Nosso planejamento para Barcelona estava prejudicado por dois problemas incontornáveis. Tínhamos reservado quatro noites para esta cidade. Mas, destas quatro noites, uma noite, a primeira, era a da chegada de várias horas viajando de avião (Porto Alegre - Rio de Janeiro - Madrid - Barcelona). Estaríamos tão cansados e ainda teríamos mesmo só a noite para aproveitar... ou seja, não iria render nada mesmo. O segundo problema é que no feriado do dia primeiro de janeiro na Europa tudo - comércio, museus, alguns parques, monumentos, palácios, etc - fecha ou funciona parcialmente. Este dia teria que ter uma programação bastante flexível, já que muita coisa poderia não estar disponível. E uma terceira circunstância - que não era propriamente um problema mas que roubaria um dia mais da permanência em Barcelona - era a nossa intenção de ir a Figueres, conhecer o Museu Dali. Então sobravam mesmo, no duro, dois dias completos para Barcelona, sendo que um deles seria feriado.


Simplificamos. Fomos pro Barcelona Bus Touristic. O passe vale para o dia inteiro, por isso é melhor comprá-lo no início da manhã para percorrer o máximo de lugares importantes. Fomos os primeiros a subir no segundo andar do ônibus na Plaza Catalunya, no centro do centro de Barcelona, para onde convergem todas as linhas de metrô, linhas de ônibus e rotas turísticas da cidade. A empresa que comercializa o Barcelona Bus Turistic opera com três roteiros, a Rota Vermelha, a Rota Azul e a Rota Verde, cada uma cobrindo uma região da cidade. No site da empresa (www.barcelona-bus-turistic.com)  dá para ver exatamente quais são os roteiros e até fazer reservas para os passeios. Para a alta temporada, julho, agosto e setembro, pode ser legal ir já garantido. Há alguns pontos onde as linhas se cruzam, sendo possível nestes pontos descer do ônibus, por exemplo, da linha vermelha e subir no ônibus da linha azul, como fizemos.


Edificio La Unión y el Fenix Español
Edificio La Unión y el Fenix Español

Os jogos olímpicos de 1992 foram um belo motivo para a cidade se revitalizar e reencontrar a sua natural pujança cultural. Replaneja seu traçado urbano e moderniza-se em todos os sentidos, sem deixar de tratar seu patrimônio arquitetônico e artístico como destaques da personalidade desse povo. Essa confusão étnica e cultural de predomínios sobre a cidade, desde os fenícios, cartagineses, romanos, muçulmanos, bordando clássicos com surrealistas, se mistura e se funde numa arte extremamente marcante, um barroco mal-comportado, um mourisco irreverente, irredutível às escolas greco-latinas e que só se encontra em Barcelona. Até a língua, o catalão - às vezes parecendo um árabe tosco; às vezes parecendo um espanhol misturado com português, francês -, é uma salada de vários idiomas e dialetos, uma bagunça total. Você entra nos bares e ouve todo mundo falando num quase sussurro, tenta prestar atenção no que estão falando e não consegue “resolver” uma frase com três ou quatro palavras, embora elas lhe pareçam extremamente familiares. É o catalão.


Casa Lleo i Morera
Casa Lleo i Morera

Talvez por isso o Modernismo tenha se sentido tão à vontade nesta cidade cosmopolita, onde se fala “por baixo do tapete” e não fica parecendo ofensivo. A gente vê também que pessoas vindas do mundo todo se sentem à vontade ali, caminhando pelas ramblas ou simplesmente vagando nos parques. Mas não se iluda. Não há mendicantes ou vagabundos perambulando pelas ruas; não há chatos perturbando o trânsito; nem grosseirões falando aos berros com seus celulares nas calçadas ou no metrô. Não é qualquer pessoa que se sente à vontade em Barcelona. Mas como eu e a Maria adoramos ordem, respeito, boa convivência e educação, adoramos Barcelona e nos sentimos muito à vontade lá.


Nós e os modernistas. Viram como somos moderninhos? Pois é. E no passeio que o ônibus ia seguindo por avenidas e ruelas uma mais linda que a outra, coisa pra turista se encantar mesmo, a curtição era apreciar cada prédio mais estranho, cada portão de ferro mais estrambólico, cada estátua e monumento mais impressionantemente bolados, rebuscados, com cara de novo e antigo ao mesmo tempo.


Casa de les Punxes
Casa de les Punxes

Inquieto no ônibus, fotografando tudo e lembrando daquelas ilustrações que eu via nos livros da coleção Tesouro da Juventude, “séculos” atrás, de casinhas em forma de sapato, edifícios construídos em árvores, aquelas imagens doidas dos contos de fadas. Mas com uma estética do detalhe bastante parecida, tematicamente voltada e focada para os preciosismos da natureza, que são, por natureza, irrepetíveis, únicos, ricos de citações e que só usa as linhas retas quando extremamente necessário. E, claro, adorando o traçado urbano da cidade, com avenidas largas, um trânsito forte, possante, mas não caótico; muros romanos convivendo com prédios de vidro e aço, mais os sobradões malucos dos modernistas catalães. Não foi à toa que Dali montou sua base e viveu décadas pertinho de Barcelona.


Até que o ônibus chega na sua primeira parada e você leva um susto. Uma montanha de pedra esculpida, rodeada por monumentais guindastes com seus imensos braços, perfilados como se pertencessem ao cenário religioso: El Temple Expiatore de La Sagrada Família, a magnífica igreja Sagrada Família, que está há mais de cem anos sendo construída - desde 1882 -, e parece que vão levar mais cem anos para terminá-la.  Não tem como não descer do ônibus. É uma obrigação. Uma convocação.


El Temple Expiatore de La Sagrada Família, a magnífica igreja Sagrada Família, que está há mais de cem anos sendo construída - desde 1882
El Temple Expiatore de La Sagrada Família

E claro, chegamos cedo demais. Ainda nem estava aberto, mas faltavam apenas alguns minutos. Naquela espera tivemos a primeira experiência com grupos de turistas orientais. Onde quer que houvesse alguma coisa interessante para se ver ou visitar, lá eles estavam.

Muito educados, muito compenetrados em registrar tudo em suas máquinas fotográficas, tal como descrições caricaturadas nos são dadas deles. Mas é verdade que são bem chatinhos com aquela mania de todos tirarem a mesma foto de alguma mesma coisa do mesmo jeito apenas mudando o patético da pose. Às vezes são trinta japinhas se revezando na frente de uma estátua ou de uma igreja. E não saem da frente até que TODOS tenham tirada a mesma foto ... hehe ... mas fora isso, não incomodam ninguém, pelo contrário, são extremamente solícitos e alto-astrais, parecem até crianças. 


Na Sagrada Família tem muita coisa para se ficar abobalhado. A começar pelas suas dimensões, que são absurdas. Você tem que ir muito longe para conseguir enquadrá-la numa só foto, como pode ser atestado nessa prova de que a paciência da parceria foi menor que a altura das torres da obra.A primeira frustração é tentar enquadrar a Sagrada Família numa Sony Cyber Shot 5.1. Não cabe de jeito nenhum. Fomos até a Plaza Gaudi, atravessando a rua, mas novo insucesso. Olhei pra trás e não tinha jeito, só indo pra muito longe. Deixamos pra lá. Ficamos umas boas duas horas na Sagrada, muito mais do que o nosso programa, que, apertadinho, esmagava essa visita numa esquálida horinha. Nem brincando. Também não iríamos viajar conhecendo tudo “nas coxas”, não é mesmo?


Depois tem todo aquele encanto com as suas fachadas (a única terminada até agora é a da Anunciação. Mas ninguém reclama ou até se dá conta disso) que parecem ter sido feitas derramando água do mar num castelinho de areia. Mas olhando de perto, a boca fica mais aberta ainda. Nenhuma fachada é igual ou parecida com a outra. Parece que o mestre Gaudi tentou não repetir nenhuma linha em lugar nenhuma da igreja. Só estando lá pra sentir que o velhinho conseguiu mesmo.


Antoni Gaudi nasceu em Reus em 25 de junho de 1852. Favorecido pelo grande desenvolvimento industrial daCataluña no início do século XX (no período anterior à Guerra Civil Espanhola), teve muitos empreendedores que lhe patrocinaram fortemente os arroubos criativos. O maior deles viria a ser o empresário Eusebe Güell (já morto, mas não atingido pelo falecimento do trema), que viria a ser homenageado em várias das “maluquices” de Gaudi, sendo a maior delas o Parc Güell.


As linhas curvas, assimétricas, tortuosas e revolucionárias da arquitetura, melhor dizendo: da arte, de Gaudi, inspirada persistentemente, obsessivamente, nas formas, forças, seres e objetos do universo, foram determinantes para uma renovação que se configura no final do século XIX e início do século XX em toda a Europa. E são inúmeras as marcas de Gaudi encontradas em Barcelona, demonstrando uma produção gigantesca, só interrompida por um bonde que o atropelou fatalmente em 1926, quando o velhinho curvado admirava a sua Sagrada Família do meio da rua.


Na Sagrada, depois de você percorrer seus corredores monumentais, com aquelas colunas malucas, escadas fantasmagóricas, paredes absurdas, etc etc etc, você pode visitar um pequeno museu da construção, repleto de maquetes, estudos, móveis, plantas, fotografias dos vários estágios de construção da igreja. E depois, claro, não esqueça de visitar a lojinha que fica dentro dos muros da “paróquia”, ao lado da igreja e do museu. Tem recordação de tudo que é tipo. Desde o chaveirinho de 2 euros até maquetes perfeitas, das quais eu nem tive coragem de perguntar preço.


Degustada La Sagrada, fomos em frente.  Pois nem esperamos o próximo ônibus. Pegamos o metrô. Estávamos adorando andar de metrô... pela facilidade de uso, pelas estações limpas e organizadas, sem traços de vandalismo, pelo preço acessível, pela clareza nas instruções, pela tranquilidade na hora de pagar e usufruir, enfim, da qualidade do transporte público - o que nos dava uma inveja tremenda daquele traço europeu de civilidade... isso sim é uma administração pública tratar com respeito seus cidadãos, isso sim é usar com eficiência e dignidade recursos públicos, dando qualidade de vida para quem paga impostos ..., putz! Virei chato!


Palau Macaya
Palau Macaya

Bom, voltando ao assunto: nos tocamos pro centro histórico, que fica... no centro de Barcelona...Ficamos então completamente absorvidos pela curtição de caminhar por vielas medievais, “tetrisando” num fluxo infindável de turistas, num murmurar respeitoso para não acordar o encantamento de ninguém, degustando cada corredor, cada janela, cada porta, cada tijolo, cada azulejo, cada misterioso detalhe das ruas, das casas, dos prédios, das praças, dos portões, dos jardins que permaneciam indiferentes, orgulhosos de seus enigmas, de suas tragédias, de seus romances esquecidos no pó da história da cidade.



Quantos amores cresceram entre esses paredões, esconderam-se atrás daquela árvore, descobriram-se sentados naquele banco de pedra, refrescaram-se nesse chafariz, quantos meninos cresceram, casaram, viveram e morreram sob a sombra desse pórtico, dessa coluna, olhando a vida escorrer através dessa janela? Dois mil anos de história sem contar a pré-infância desse povoado. É de se sentir eternamente um adolescente perante tantos anos e tantos rastros humanos deixados ao alcance dos seus olhos e da sua imaginação. Lembro-me seguindo uma voz maravilhosa pelas ruelinhas, decifrando os labirintos de pedra, até encontrar uma singela e poderosa contralto cantando nas escadarias de uma igrejinha escondida entre becos e mais becos, ecoando nas paredes centenárias, sereia das camadas mais profundas dessa adoração. Magnífica trilha sonora para uma oração silenciosa.



E tudo isso tendo o cuidado de não ingressarmos nas ramblas, que seriam o passeio do feriado, dois dias mais tarde. Pois acabamos chegando ao Museu D’Història de La Ciutat, onde rolava uma exposição sobre “La Arqueología en Barcelona”. À mostra, o solo do museu, entranhas milenares da cidade, escavado e nu, despido das camadas superiores dos séculos, colunas de pedra romanas iluminadas e admiradas através de passarelas erguidas sobre o panorama dos contemporâneos de Cristo, expondo paredes, salas, ruas, calçadas, adegas ... a vida, a rotina e os sonhos dos romanos pioneiros, expondo o esqueleto dos fantasmas de Barcelona.




Dali saímos para a luz do sol, mas um sol que parecia pertencer a um tempo situado entre os séculos XV e XVII. Caminhamos bastante entre as ruelinhas e bequinhos do centro histórico curtindo a atmosfera medieval, até que fomos parar num grande calçadão aberto, comprido e largo. Numa belíssima fachada, arte no inconfundível estilo de Miró: o Instituto dos Arquitetos.


Mais um pouquinho e vimos a fachada imensa da catedral de Barcelona, ainda escondida atrás de tapumes e guindastes. Então, numa avenida mais larga, que desconfio ser a Diagonal, entramos numa lancheria fashion. Olhamos em volta e vimos que o público era uma coisa sui generis, gente de todas as tribos. Cada partição reunida num “nicho” do superbar. E cada estilo de viajante comendo de acordo com a sua “bíblia”. Os que comiam sanduíches naturebas, os que comiam só vegetais, os que estavam só pelo café, os que traziam pão de outro lugar e só pediam refri .. e nós com os nossos bolinhos roubados do bulldog. Pedimos um complemento e mandamos brasa. Em segundos a Maria já tinha usado o banheiro e estávamos prontos para a segunda parte do dia.Voltamos à la Ruta Roja novamente e descemos em frente à Casa Milà, mais conhecida no mundo todo como La Pedrera.


Casa Milà / La Pedrera

De novo, Gaudi. E de novo o industrialismo emergente lhe dá as condições, tanto financeiras como de livre expressão de ideias, para “pirar na batatinha”. Por encomenda do industrial Pere MIlà e sua mulher, Roser Segimon, Gaudi projeta e constrói um edifício para residência do casal e para aluguel dos restantes pisos. O bairro Example é o preferido da burguesia barcelonesa, desbancando o antigo Ciutá Vella e trazendo essa turma nova-rica para os arredores do Paseig de Gracia, bairro mais afastado da cidade na época.



Gaudi construiu dois bloco independentes, organizados em volta de dois grandes pátios interiores intercomunicados, para poder iluminar todos os apartamentos. A isso acrescentou uma fachada revolucionária e um terraço apinhado por chaminés malucas, que parecem capacetes de soldados, cogumelos, figuras fantásticas ou seja lá o que for, dependendo do ângulo do qual se as observa ou do estado mental do observador.



No térreo do edifício estava rolando uma exposição de obras de pintores venezianos. L’Art a la Venècia dels Segles XVII i XVIII. Maravilhosa. A primeira que vimos sobre arte italiana, clássica até os bigodes. Mas o barato mesmo é visitar a exposição permanente, que ocupa os três últimos andares do prédio. Melhor dizendo: o quarto andar, onde funciona uma exposição permanente de um apartamento decorado tal como nas primeiras décadas do século XX. Com direito a parquê bem lustradinho até móveis com design modernista e coisa e tal; o “sótão” do edifício, onde funciona o Espai Gaudí, contando a vida do artista, o contexto histórico e social, os valores artísticos e culturais que influenciaram e sofreram a sua influência. E dê-lhe desenhos, maquetes fotografias, móveis, brinquedos, invenções, rascunhos, estudos de perspectiva, dinâmica e de correlação de forças arquitetônicas e estruturais. Tudo  caprichadamente apresentado, uma exposição de extremo bom gosto.  E então finalmente vem o terraço, uma obra de chapeleiro maluco, cheia de degraus, túneis, chaminés, ladrilhos, ângulos inesperados, curvas dominantes, direita-esquerda-sobe-desce-vai-vem ... tudo-junto-num-lugar-só. Só na foto pra ter uma ideia. E ali se foi praticamente a tarde toda.


Ainda faltavam Montjuic e o Museu Marítimo. Credo de novo. Chegamos na parada do Bus Touristic já anoitecendo. O céu escuro, as sombras baixinhas. Na parada, uma multidão pra entrar no ônibus, mas, como sempre, eu e a Maria éramos os primeiros da fila. No segundo andar do ônibus a vista estava bem bacana, dando a tudo o tom avermelhado daquele lusco-fusco da tardinha. Mas para a máquina, já estava escuro demais, não tinha mais foco possível. Subimos o Montjuic já enxergando somente coisas que tinham uma forte iluminação. Mas era pouco, o legal mesmo é subir pelo teleférico vindo lá do porto, passando por cima de praticamente toda a cidade. Não deu: muito encantamento e pouco tempo.


Mas terminamos o passeio descendo até o porto, passando pelo Monument a Colón e entrando no museu marítimo. Bom, que Barcelona vive na costa mediterrânea e que há séculos tem intimidade com as lidas marítimas, isso pode não ser óbvio para todo mundo. Ocupando um antigo edifício militar desde 1929, foi ampliado de 4000 m² para 10000 m² em 1941 e, entre as peças, exibe desde submarinos, navios, instrumentos náuticos, obras de arte, cartografia, bibliotecas, até um modelo em escala natural de uma galera de Don Juan da Áustria - com 60 metros de comprimento, 59 remos, ricamente decorada - um verdadeiro desbunde. Vale uma visita virtual: www.mmb.cat.


Saímos dali noite escura já, e loucos de fome. Achamos um restaurantezinho na avenida e fomos pro hotel, tomar um vinho e curtir uma telinha. Deu pra cansar. Nos primeiros acordes do programinha brega de entrevistas da TV catalã (que nós não entendíamos patavinas), e sem lembrar que haveria nova acareação com o bulldog do Auto.Hogar na manhã seguinte, adormecemos com as taças cheias até a metade.


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