010 | Roma – Villa Borghese
- rpegorini
- 2 de fev. de 2025
- 7 min de leitura
Dia 10 - 6 de janeiro de 2008 – Itália / Roma

No terceiro dia em Roma nós nos puxamos. Pegamos o metrô até a Piazza dei Popolo e chuva, chuva, chuva. Passamos a Porta dei Popolo para chegar à Piazza. As Portas de Roma, situadas em sua maioria nas muralhas da cidade — como a Muralha Serviana e a Muralha Aureliana — serviam, basicamente, como estratégia militar e também para controlar o acesso à cidade em tempos normais. Eram fundamentais em casos de saúde pública, quando da ocorrência, por exemplo, de epidemias e pandemias, das pestes em geral. Cercar as cidades com muralhas, como se fossem um imenso castelo, foi de fundamental importância até os tempos modernos. Tratando-se de um grande império, como o Império Romano, que sempre esteve sob ameaça ou envolvido em grandes guerras, insurreições e golpes de estado, era uma medida imprescindível. Por isso, com as construções das muralhas, essas vias de acesso à cidade eram fortemente guarnecidas e bem cuidadas.

Abaixo de chuva nos abrigamos na igreja Santa Maria dei Miracolo, uma igrejinha antiguinha que se localiza logo passando a porta, dizem que erigida no século XI no local onde Nero morreu e foi sepultado, restaurada no século XVII por Bernini (gênio em arquitetura e escultura). Ali dentro se acham tesouros de Caravaggio e Pinturicchio. Desistimos de esperar passar a chuva, abrimos as sombrinhas e nos fomos à praça. Há um obelisco de Ramsés II no centro da praça, chamado obelisco Flaminio - não contei quantos obeliscos vi em toda a viagem pela Europa, mas foram inúmeros, todos trazidos do Egito... eram muito dadivosos os egípcios, não é mesmo ?
Essa praça é um complexo magistral de esculturas e fontes. Nessa mesma praça há ainda as chamadas igrejas gêmeas Santa Maria in Montesano (1675) e Santa Maria dei Miracolo (1678). Alô você que está se preparando para ir à Europa: vai conhecer muita igreja, já que é onde qualquer cidade nasce institucionalmente e culturalmente. Nelas estão quase sempre as obras importantes dos artistas mais conhecidos. Vista a igreja, nos mandamos para a Villa Borghese.
Com a sorte que estávamos, ao sair da igreja, recomeçou a chover forte. Olhamos pra dentro à espera de um milagre, mas este não veio. Então abrimos novamente as sombrinhas e nos dirigimos ao parque. É um parque belíssimo. Imagine a nossa Redenção (Parque Farroupilha) sem pichações, sem vandalismos e com uma botânica fantástica: é a Villa Borghese. Lá dentro conhecemos uma verdadeira obra de arte no meio do parque: a Galleria Borghese. Eu tinha lido que a Galleria Borghese tinha tesouros fantásticos, mas uma coisa é você LER; outra coisa é encantar-se com essas maravilhas, presencialmente, diante dos seus desarmados olhos. Infelizmente é proibido fotografar dentro da Galleria Borghese. Mas o site oficial é https://galleriaborghese.beniculturali.it/ ... não deixe de conhecer, mesmo que virtualmente.

Lá dentro vi a escultura que mais me impressionou em toda viagem (mais até do que o Davi de MIchelangelo, em Florença): a Venus Victrix, uma escultura de Antonio Canova. É tão impressionante a riqueza dos detalhes que parece que a estátua está plastificada. Você olha para o colchão da escultura e parece que ele é um tecido plástico tal a perfeição, dá vontade de apertar para sentir se não é pano de verdade. A irmã mais querida de Napoleão, Pauline Bonaparte, foi a modelo da escultura. Deve ser por isso que Canova deve ter caprichado tanto, não é ?

Dali caminhamos até a Chiesa Trinitá dei Monti, uma igreja tradicional (com outro obelisco na frente) que fica no alto de uma escadaria famosa e lindíssima, a Scalinata di Spagna, que vai dar na Piazza Spagna, com uma fonte muito famosa, chamada pelos italianos de La Barcaccia (velha banheira) pela sua forma. A fonte foi feita em 1627, por Bernini, numa época em que as águas do Tibre transbordaram e chegaram a levar um barco até este ponto da cidade. Meu sogro diz que no verão, esta escadaria fica tão cheia de gente que é difícil caminhar nos seus degraus.


Nos lados da escadaria morou muita gente importante, como o poeta Byron (existe um museu onde foi a casa dele) e Mary Shelley (Frankenstein). A Casa Keats-Shelley localiza-se próximo a Piazza Spagna, um dos pontos principais da cidade. Tobias Smollett, George Eliot, Goethe, Coleridge, Shelley, Byron, Henry James, Edith Wharton, Oscar Wilde e James Joyce são alguns dos que se sentiram atraídos e inspirados por esse local histórico. Na casa, mantida tal como na época em que John Keats viajou para Roma para passar seus últimos meses de vida, há uma ampla coleção de objetos e manuscritos que mostram a vida e os trabalhos dele, de Shelley e de Byron, assim como uma completa biblioteca dedicada aos romancistas ingleses, um manuscrito de Oscar Wilde e cartas de Wordsworth.
Aquela zona de Roma é formada por inúmeras vielinhas e ruazinhas apertadinhas. Você vai caminhando por essas estreitezas e, lá pelas tantas, um espaço se abre à sua frente e você dá de cara com...
A Fontana de Trevi !!!!!

Apesar de estarmos na baixa temporada (não gostaria nem de imaginar como seria na alta...), a gente disputa um lugarzinho pra enxergar melhor a Fontana di Trevi com bandos e mais bandos de turistas. E aqueles que jogam moedinhas na fonte são os mais perigosos. Eles têm desejos inconfessáveis e você se torna imediatamente um obstáculo para eles no quesito "atingir a felicidade jogando uma moedinha na Fontana di Trevi". Mas o castigo deles acontece neste mesmo purgatório. Há vários espertinhos com varinhas com ímãs na ponta recolhendo estas moedinhas imediatamente após elas serem jogadas no fundo das águas da fonte. Deve ser por isso que esses desejos não se realizam... Heheh. Infelizmente vou ficar devendo o ruído das águas, o burburinho das pessoas, e aqueles "ohhhhh" que se ouve dos turistas.
Eu disse que o dia ia ser puxado. Da Fontana di Trevi passamos pelo Templo de Adriano (legalzinho...) e fomos ao Pantheon. Panteão, pra quem não sabe, é o lugar onde são sepultadas as pessoas mais importantes de um determinado lugar ou cidade. Deduzam que ser importante em Roma não é coisa pra qualquer um. Para ser enterrado lá, você tem que competir com celebridades de uma cidade que já foi o umbigo do mundo por dois mil anos. Ali estão Rafael, Vittorio Emanuele II, Humberto I, e muitos outros figurões. Mas vou confessar pra vocês que isso não era o mais importante pra mim naquela hora. O mais interessante mesmo é o próprio Pantheon, o único edifício construído na época greco-romana que permanece ainda em perfeitas condições. (re)Construído por Adriano (um grande admirador da cultura helenística) em 125 dC, tem uma cúpula de 43 metros... uma estupidez de grande. Suas portas de bronze são as maiores do mundo em sua categoria. E aquele piso, paredes, colunas... gente, só em Roma mesmo...



Agora só falta falar (deste dia) da Piazza Navona, aonde fomos depois do Pantheon. As principais obras estavam sendo restauradas, mas as fontes estavam visíveis. O mais legal é que estava acontecendo uma feira com inúmeras atrações: comida típica, artistas, estátuas, trenós de Papai Noel, brinquedos, e naquele dia estavam comemorando o dia da Befana, uma espécie de bruxinha (tinha bruxinha de todos os tipos, gritando e voando em suas vassourinhas). Perguntei pra uma moça que vendia estas befanas e ela me disse que a befana é uma tradição italiana.

Mas vejam o que encontrei na internet, de autoria de Rodolpho José Del Guerra: (http://www.saojoseonline.com.br/nuova/pag157.htm):
"La Befana": uma festa italiana
Lembro-me das histórias de minha mãe, sentada à máquina de costura, contando-nos as recordações da sua infância."La Befana" fazia parte do seu repertório retrospectivo.
Crianças, nós arregalávamos olhos de espanto e admiração, achando graça da boa bruxinha, a Befana, e da estranha tradição, trazida pelos imigrantes. Os presentes que ela deixava não eram brinquedos, mas guloseimas. Não eram entregues no Natal, mas no Dia de Reis... E minha mãe contava: "Na noite do dia 5 para o dia 6 de janeiro, nós pendurávamos, no varal, meias grossas da nossa mãe, para que a Befana a enchesse com coisas gostosas: balas, doces secos, nozes, castanhas e até manga: a fruta da estação... A gente dormia, com receio de que a "Befana" entrasse no nosso quarto..."
E ela continuava contando da sua alegria em tirar as pesadas meias do varal, na manhã de Reis... "Todos ganhavam alguma coisa, por mais simples que fosse... As crianças ricas encontravam dentro das meias até anéis e correntes de ouro, mas nós ficávamos muito satisfeitas com o que ganhávamos, sem reclamações, sem inveja..."
"Depois, aos poucos, o Papai Noel foi substituindo a "Befana", aparecendo no dia de Natal, trazendo brinquedos, criando muitos problemas para as famílias pobres..."
Minha mãe, sábia, nos preparou para o futuro difícil, enfatizando sempre: "sem reclamações, sem inveja”... Brinquedos era o que queríamos e pedíamos por cartas... Mas era muito difícil aceitar um papai noel discriminador, que nos esquecia...
Nós, a outra geração de descendentes de italianos, já não usufruímos da tradição da "Befana" e, etnocêntricos, achávamos graça de uma fada, ou bruxinha, presentear com mangas e balas... Infelizmente, em São José, com 80% da população descendente de italianos, a Befana, que ainda não conhecia o Papai Noel ("Babbo Natale"), foi esquecida...
Minha avó nos contava a história da boa bruxinha que, com um feixe de lenha para guardar, não pôde acompanhar os Reis Magos, que lhe perguntaram onde ficava Belém. Ela, também, queria presentear o "Bambino Gesu" e foi atrás deles sem os encontrar. Resolveu, então, presentear as crianças pobres e ricas, mas para as muito levadas, deixava cinza e carvão...
Que bom neste Natal eu ter encontrado uma história para recordar e contar.
Se não fosse o jornal "Voce Toscana" (Voz Toscana), de outubro e novembro de 1998, com um artigo sobre essa lenda, da Profa. Annalisa Vannucci Magalhães, eu não teria me recordado da boa fada, ou da velha bruxinha Befana.
Annalisa nos conta que "Além da Itália, o culto da Befana é encontrado em várias partes do mundo: da Pérsia à Normandia, da Rússia à África do Norte, justificando a crença de ser um antigo culto pagão, encontrado na cultura etrusca, com a sua vassoura, símbolo de limpeza, protetora do lar. (...) Na Toscana (...), no dia da Befana acontecem grandes festas populares, para alegria das crianças."
Que bom eu ter me reencontrado com "la Befana", que voou, montada na sua vassoura, da minha infância para as páginas de "Gazeta".
Rodolpho José Del Guerra
Inspirado nessa tradição, escrevi o miniconto “Aconteceu depois do Natal”.







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