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002 | Dr. Jivago de Barcelona

  • Foto do escritor: rpegorini
    rpegorini
  • 30 de jun. de 2024
  • 9 min de leitura

Dia 02 - 29 de dezembro de 2007 / Espanha - Barcelona

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Depois de oito horas de viagem apertada e desconfortável, desembuchamos do Boeing 747 da Air Europa em Barajas, passando pela alfândega madrilenha sem conseguir confirmar se nossas malas seguiriam o mesmo destino que nossos corpos, correndo pelas esteiras para embarcar, em regime de urgência, no voo para Barcelona... ora, quem disse que tudo precisa ser fácil e tranquilo? Outro lado do interminável aeroporto, avião quase fechando a porta, sentados nas poltronas sobre o mediterrâneo, cadê a Europa? Pisamos amarelinha em Madri e agora estamos em pleno ar, pulando para Barcelona. Nem deu pra sentir, nesses poucos minutos que pareceram infinitos, o impacto do peso dos mais de dois mil anos de civilização continentale, moldada desde muito antes que o homem europeu se achasse com jeito de europeu.


Madri para Barcelona, quase cinco horas da tarde, trinta mil pés distantes do nível do mar, bilhões de pequenos brilhos refletidos em cada onda microscópica do mediterrâneo lá embaixo. Nessa altura do dia, no dezembro espanhol, o céu já começa a se vestir de laranja-até-o-roxo para esperar a lua. Os restos da luz do sol atravessam o final da tarde preguiçosamente deitados, projetando fachos coloridos pelas frestas do infinito abertas entre as nuvens. E assim, num deslizar monótono e encantador, que desafia a paciência e maravilha os menos ansiosos, sumirão esses raios luminosos por trás do mundo, esfumando-se no panorama que a gente consegue ainda ver pela janelinha do avião. Enquanto isso, as sombras do relevo catalão, mais grossas, mais pesadas, mais poderosas, crescem compridas no chão, fantasmagóricas, aveludadas, caladas, até engolir o horizonte.


Pouco antes da aterrissagem conseguimos enxergar, naquele chão distante e escurecido, longínqua lá embaixo, uma cadeia rochosa esbranquiçada rompendo o crepúsculo com suas formas espichadas pelo entardecer. Montserrat, uma formação pedregosa de excepcional beleza, um paredão de pedra branca rasgado pela idade do planeta. Eis aí o cenário natural espetaculosamente projetado para o monastério local, descrito no folhetinho distribuído pelo escritório de turismo de Barcelona como “um verdadeiro complexo turístico”.


A logística do complexo compreende desde orientações para acesso ao parque turístico natural, com estátuas de Gaudi espreitando nas trilhas, rotas de metrô e trem, organização de horários e passeios para visitação dos pontos de adoração religiosa, como o Santuário de la Virge, padroeira da Catalunha desde 1881, e o milenar monastério beneditino, fundado em 1205, arrasado por Napoleão e reconstruído em 1858. Ainda nesse material está a dica de uma robusta pinacoteca, recheada por obras de Caravaggio, Monet e Picasso. Por ele também fica-se sabendo que há apresentações do Escolania, um coral de niños da mais antiga escola de música da Espanha. Haja tempo para tanto fazer.


Claro, ficamos loucos para conhecer Montserrat, que não estava (até agora) em nossos planos, mas considerando que feriado de Ano Novo na Europa fecha tudo, incluindo aí muitos pontos turísticos, avaliamos que seria melhor apostar preferencialmente nos projetos que valessem o investimento de verba, de tempo, de esforço e de deslocamento somente se confirmados como absolutamente certeiros. Montserrat fica a 60 km de Barcelona, um empreendimento de um dia inteiro. E também havia Dali, esperando em Figueres. Dali sim, valeria um dia inteiro. Um inteiro dos quatro dias planejados para Barcelona no nosso roteiro de trinta pela Europa.


Muito mais do que trinta é o número de rotas internacionais que pousam em El Prat de Llobregat, município a 10 km de Barcelona. E, embora seja um bastante discreto show do desenvolvimento tecnológico dos gringos, a mais forte impressão que marca a gente é justamente essa modesta elegância, esse sossego quase sorrateiro. Se não abrirmos o olho, o mais importante acaba nos escapando da atenção justamente porque não nos importuna. Essa impressão quase imperceptível, quase improvável, é causada pelo que realmente importa. Eficiência. Competência. Civilidade e consideração pelo viajante. Este é concretamente o primeiro choque, silencioso e intracutâneo, a invadir o viajante cucaracha, embora, como disse, possa nem emergir para a superfície da consciência se a pressa for maior que o bom senso.


Muito facilmente encontramos a saída e dali pertinho pegamos um táxi impressionante pela limpeza e qualidade do carro, um mercedinho que não devia ter mais do que uns dois anos de praça. O motorista, figura cordial, educado e empenhado em nos prestar orientação útil, responderia solicitamente qualquer pergunta nossa... desde que conseguisse entender um pouco mais do que a metade das palavras que tentávamos juntar numa frase inteligível para o pobre espanhol. Então, claro, apelamos para a linguagem universal dos monossílabos, onomatopeias e recursos linguísticos não verbais, como a mímica italiana de braços, mãos e caretas. E quem disse que não funciona? Conseguimos comunicar o endereço do hotel. Sucesso absoluto.


Rumamos os doze quilômetros até o hotel curtindo a rodovia e a paisagem que ia desfilando pelas janelas do carro. Velocidade de cruzeiro, flanando num tapetão macio de asfalto, escorrendo junto a tantos outros carros modernosos, como hemácias em artérias urbanas. Tudo numa ordem absurda, tão absurdo como a sensação de parecer que estamos viajando mais rápido num carro a a 100 km por hora do que num avião que percorre 250 metros em um segundo.


Dentre as lendas mais interessantes sobre a fundação de Barcelona você vai encontrar a de Héracles (depois tornado Hércules pelos romanos), a caminho de cumprir o quinto trabalho e ajudando os argonautas em busca do velo de ouro, procurando o nono navio da frota de Jasão. Encontra-o naufragado na costa catalã, ao pé de uma colina que para alguns poderia ser o Montjuic, dando assim o nome de Barcanona ao lugar. Dos cartagineses vem a referência a Aníbal Barca, em guerra contra Roma nos idos de 230 A.C. pelo controle do Mediterrâneo, que ali teria encontrado o povoado fundado por Héracles. Reforça assim, com o seu sobrenome, o núcleo etimológico Barca. Apesar da inconsistência histórica, construída principalmente pela credulidade medieval, sedenta de heroísmos em cenários mitológicos, não deixa de ser charmoso o fato de poder incluir figuras como essas na sua genealogia, mesmo que seja apenas em sonhos.


Certo é que a cidade, por prover uma entrada segura para toda a península ibérica vindo-se do mediterrâneo oriental, sempre atraiu viajantes, como povos neolíticos, piratas, orientais, fenícios, cartagineses, até virem os romanos, que conferiram oficialmente os atributos políticos, jurídicos e administrativos urbanos definitivos ao lugar. Assim nasceu, de fato e de direito, Barcin, em 15 A. C., por ordem direta de Augusto, um dos grandes imperadores do grande império de Roma. E foi com esse nome que a cidade seria incluída nos mapas de Ptolomeu, o que não devia ser pouca coisa nessa época, provavelmente muito mais do que figurar na Forbes ou ser capa da Time.


Até que a coroa de Fernando de Aragão se aliasse à de Isabel de Castela, no século XV, tirando de Barcelona a condição de capital aragonesa, a cidade conseguiu sempre se impor, pela posição estratégica de seu porto e pela supremacia comercial, sobre os outros condados catalães mesmo sob a conquista moura de toda a península ou até por isso mesmo. Mais tarde, já na soleira da porta de nossa era, no período que se convencionou chamar de Belle Époque, a cidade e sua região foram alguns dos principais caldeirões nos quais a Art Noveau e seus apimentados e revigorantes condimentos ferveriam até o aparecimento de gente como Gaudi, Miró, Dali e tantos outros gênios que preferiam ser chamados de catalães antes de espanhois. O que há no ar dessa terra que produz tanta e tão imensa genialidade?


Barcelona sofreu, contudo, a partir do término da Guerra Civil Espanhola, uma situação de abandono e relaxamento absolutamente bandidos, escoltados pelo revanchismo das forças franquistas. Com a realização das Olimpíadas de 1992, a cidade foi passada a limpo e voltou a ser uma das mais importantes metrópoles mundiais, culturalmente valorizada, turisticamente bem explorada e dando ao visitante a oportunidade de desfrutar magicamente dos seus caleidoscópicos encantos culturais e de sua belíssima e infernal arquitetura, singularidade única no mundo, agora restaurada e devidamente vitrinada. Por isso, muito respeito com Barcelona, são quatro mil anos de solo povoado sob seus pés.


Ainda alheio a tanta imponência histórica, dentro do táxi ia eu pensando se iria vingar realmente minha reserva feita por um site na internet. Apesar das inúmeras confirmações via e-mail e apesar do testemunho firme da nossa agente de viagens, que pacientemente repetia a mesma resposta toda a semana: “Sim, a E-Dreams é uma empresa fidedigna”. Apesar de tudo, nada conseguia me convencer de que não tínhamos sido vítimas de um “cybergolpe” e que todo esse sonho de viagem logo estaria acabado, esmagado por uma brutal “scamsacanagem” e que no endereço do hotel iríamos encontrar apenas uma carrocinha de cachorro-quente...


Assim ia elucubrando o cerebrozinho do marinheiro de primeira viagem transatlântica: “Claro... Ninguém poderia saber ainda, porque nós seremos as primeiras vítimas... E o que iria adiantar reclamar para sei lá quais autoridades de turismo... Iríamos perder nosso dinheiro já pago mesmo... uns trezentos euros por quatro noites... e onde iríamos procurar outro hotel na última hora?... sacanagem... e logo o único hotel que eu reservei pessoalmente... por causa do feriado do Ano Novo... logo esse!!... eu devia ter deixado a Fabiana ter comprado hotelaria em Barcelona... putz! .. logo o primeiro hotel da viagem...“


E por essas rotas tortuosas iam enveredando meus sombrios pensamentos, dentro de um túnel escuro de incertezas, dentro daquele táxi moderno dentro daquele movimento deslizante entre as outras hemácias daquela moderna rodovia. Enquanto isso, habitando outra galáxia de divagações, a Maria não tirava os olhos do novovelho mundo passando pela janela do táxi. Quando o carro encostou na frente do Hotel Auto Hogar, na Av. Paral.lel, nem consigo escreveraquidojeitocertoprateexplicar porque você não estava lá pra entender tudo isso... só posso dizer que ficamos hiperultramegaubersatisfeitos em ver que era tudo verdade. Que o hotel existia. Era só entrar.


Tá... mas vamos dizer O QUÊ pro cara da recepção???... treinadinha no espanhol que tinha nos guias. Cadê a frase aquela? Cumé mesmo que se pronuncia? Tá bom... entramos. Com aquela cara-de-cachorro-com-fome, arrisquei um espanhol quase sumido num misto de timidez, insegurança e bobeira de iniciante, mas saiu direitinho e o cara da recepção entendeu. “Pegorini, Ricardo?”... “Si, hai una reserva”... Soltei a respiração. Pegamos as malas e seguimos o funcionário até o quarto. “Pegaram as malas?”... Sim, estávamos tão contentes que nem pensamos em pedir pro cara levar. E ele também nem fez questão de nos lembrar disso... hehe. “Sou europeu, mas nem tanto assim” Juro que ouvi o cara pensando isso. Mas olha: chegando ao quarto, a impressão foi muito positiva.

 


Com uma belíssima vista para os varais e paredões dos fundos dos outros edifícios, combinava perfeitamente com a nossa absoluta falta de interesse em ficar longos períodos dentro de um quarto de hotel. Ora, ora, não se deixe influenciar pelo meu sarcasmo, o quarto era bem legal afinal de contas. Com um banheiro imenso, um quarto com duas camas, bastante espaço, móveis de boa qualidade e níveis humanos de higiene, estávamos presenciando e desfrutando de uma concepção de atendimento e de conforto da qual ainda sentiríamos muuuitas saudades em alguns outros lugares da Europa. Instalamos nossa presença no quarto: desemalamos as coisas, banho, roupa limpa, escovas de dente. Documentos no bolso, dinheiro na carteira, agasalho no esqueleto, vontade nos músculos, disposição no sangue, curiosidade na alma. E saímos. Para o nosso primeiro passeio de verdade pelas ruas de uma cidade europeia. Prepare o meu coração.


A Avenida Paral.el é uma rua grande, mas não é uma avenida. Não tem canteirinho no meio. Parece mais uma Sete de Setembro do que uma João Pessoa. Caminhamos até a estação Drassanes, na esquina, e entramos a esmo na Carrer Nou de la Rambla, uma ruazinha estreita, mas com muita personalidade. Aliás, imediatamente a Maria simpatizou com aquelas ruazinhas estreitinhas, vindas de um tempo que parecia não se importar muito se algum dia alguém iria simpatizar com ruas desse tipo.  Mas essa falta de charme é exatamente o que agora lhes confere um charme especial. A gente se sente imenso numa rua dessas.

 

Logo em seguida, vimos um mercadinho. Ali compramos, ora ora, um abridor de garrafas (pro vinho), um adaptador para as tomadas espanholas, diferente do meu adaptador argentino, comprado quando fui para a Patagônia com meu sogro (é, mas isso é OUTRA HISTÓRIA), e, claro, vinho para antes do soninho. Mais um pouco e achamos um belo restaurantezinho, inho, inho, inho, mas com uma bisteca do tamanho de um urso. Barriga cheia, olhinho fechando, volta para o hotel? Não, ainda não. Logo que entramos na lojinha telefônica, interrompemos um papo catalão entre dois barceloneses, incompreensível para ouvidos ignorantes do dialeto regional. Ali nos demos conta de que a Catalunha é realmente um país dentro da Espanha. Aqueles rapazes pareciam ter duas personalidades: uma ao nos atender em espanhol, gentil e educadamente; e outra em catalão, num papo intraduzível, animado e extravagante na linguagem e decifrável apenas para mentes iniciadas naquele modo de vida. Dizer que o catalão é uma língua diferente é contar apenas uma parte da história. Mas o telefonema foi dado, informamos nossa chegada sãos e salvos, nível de saudade baixado, agora toca para o hotel.


Dos 150 euros previstos para despesas diárias da viagem, conseguimos gastar apenas 71,82, o que nada tinha de especial, pois passamos o dia inteiro voando de Madri para Barcelona e nos deslocando do aeroporto para chegar ao hotel. Mas ora, são 78,18 euros que passam para a conta do dia seguinte ou para algum outro mais dispendioso. A grande conquista orçamentária foi encontrar vinho europeu a 7 euros, na época valendo R$ 2,70 cada moedinha de um euro. Nessa moeda, eis a contabilidade do dia: chocolate mais água: 5,00; táxi: 25,00; janta: 28,00; abridor: 2,90; adaptador: 3,00; vinho: 7,00. Telefonema para casa, avisando da nossa chegada: 0,72. Coração provisoriamente restabelecido do esmagamento causado pela saudade dos pimpolhos: não tem preço. Qualquer conta é barata demais para se poder falar com quem se ama, ainda mais considerando o tamanho do fio.


Televisão espanhola é brabo, um pouco menos brega que a italiana, o que somente a salva da breguice infinita. Mas num daqueles canais esquisitos, presentes em qualquer programação tapa-buracos de qualquer operadora de TV em nível planetário, conseguimos peneirar um filme antigo pra degustar o vinhozinho europeu. E adormecemos nos divertindo com Omar Shariff, no auge de sua forma “galanística”, surrealmente “castelhando” com sotaques de Manolo Otero para cima duma Lara esganiçada, naquele dramalhão inesquecível do Boris Pasternak, um certo “Dr. Jivago”. Por conta do gosto espanhol pela dublagem obrigatória, eis a cena non sense do heroi russo sussurrando no ouvidinho da amada com aquele passo duro, pesado e ao mesmo tempo macio das palavras castelhanas. Muy ajeno. Ou terá sido o vinho espanhol?


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